Discurso do Sumo Pontífice à assembleia geral da Caritas internationalis

Não só projetos e estratégias para uma verdadeira conversão missionária

 Não só projetos e estratégias  para uma verdadeira conversão missionária  POR-020
17 maio 2023

«Não se trata apenas de ativar projetos e estratégias que se revelem bem-sucedidos, que visem a eficácia, mas de nos pensarmos num constante e contínuo processo de conversão missionária», recomendou o Papa Francisco aos participantes na 22ª assembleia geral da Caritas internationalis, recebidos em audiência na sala Clementina no final da manhã de 11 de maio, dia da inauguração dos trabalhos. «Construir novos caminhos de fraternidade»: eis o tema que foi aprofundado até terça-feira 16. A seguir, o texto do discurso entregue pelo Papa.

Prezados irmãos e irmãs!

Perante os horrores e as devastações da Segunda Guerra Mundial, o Venerável Pio xii quis manifestar a solicitude e a preocupação de toda a Igreja pela família humana, pelas numerosas circunstâncias em que a vida de homens, mulheres, crianças e idosos era ameaçada e impedida, na busca de um desenvolvimento humano integral, pela fúria dos conflitos bélicos. Impelido por um espírito profético, pronunciou-se a favor da instituição de um organismo que apoiasse, coordenasse e incrementasse a colaboração entre as já numerosas organizações caritativas, através das quais a Igreja universal anunciava e testemunhava, com gestos e palavras, o amor de Deus e a predileção de Cristo pelos pobres, os últimos, os descartados.

São João Paulo ii quis pôr em evidência o estreito vínculo que, desde o início, uniu a Caritas Internationalis aos Pastores da Igreja e, em particular, ao Sucessor de Pedro, que preside à caridade universal.1 Fê-lo, antes de mais, evocando a nascente do amor pela Igreja, a exortação com que Cristo se ofereceu aos seus na Última Ceia.

Nunca devemos esquecer que na origem de cada uma das nossas ações caritativas e sociais está Cristo que, «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim» (Jo 13, 1). No sacramento da Eucaristia, sinal da presença viva, real e permanente de Cristo que se oferece por nós, que ama primeiro sem pedir nada em troca, «o Senhor vem ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27), fazendo-se seu companheiro de viagem».2

A Eucaristia é para o homem. É alimento e bebida que nos sustenta no caminho, nos restabelece na fadiga, nos levanta das quedas e nos chama a aceitar livremente o tudo de Deus por nós e para a nossa salvação.

Postos diante deste mistério, grande e inefável, perante o dom incondicional e superabundante que Cristo fez de si por amor, ficamos surpreendidos e, às vezes, subjugados.

Como os judeus, que sentiram o coração trespassado perante as palavras de Pedro, no dia de Pentecostes, também nós devemos perguntar-nos: «Que podemos fazer, irmãos?» (At 2, 37).

Podemos entrar no jubiloso e excelso mistério da “restituição”, da memória grata e reconhecida, que nos leva a dar graças a Deus na escolha de dirigir o olhar para o irmão que sofre, que precisa de cuidados, que necessita da nossa ajuda para recuperar a sua dignidade de filho, resgatado «não por bens perecíveis [...] mas pelo precioso sangue de Cristo» (1 Pd 1, 18-19).

Podemos retribuir o amor de Deus por nós, tornando-nos o seu sinal e instrumento para o próximo. Não há melhor maneira de mostrar a Deus que compreendemos o sentido da Eucaristia, do que oferecer aos outros aquilo que recebemos. Eis um modo de entender o sentido mais autêntico da Tradição: quando, em resposta ao amor de Cristo, nos fazemos dom pelos outros, anunciamos a morte e a ressurreição do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26).

É importante voltar à fonte, o amor de Deus por nós, pois a identidade da Caritas Internationalis depende diretamente da missão que recebeu. O que a distingue das outras agências que trabalham no âmbito social é a sua vocação eclesial e, no seio da Igreja, o que especifica o seu serviço em relação às numerosas instituições e associações eclesiais que se dedicam à caridade é a tarefa de coadjuvar e facilitar os Bispos no exercício da caridade pastoral, em comunhão com a Sé Apostólica e em sintonia com o Magistério da Igreja. Agradeço-vos o trabalho que realizais na parceria e na cooperação fraterna, como pilares da identidade católica da Cáritas, e exorto-vos a seguir este caminho.

Para vos encorajar a dar continuidade ao vosso compromisso ao serviço da caridade, com abertura de coração e renovada esperança, gostaria de vos convidar a reler com atenção a Exortação pós-sinodal Amoris laetitia. Em particular, o capítulo quatro, embora se refira à vida familiar e matrimonial, contém sugestões que podem ser úteis para orientar o trabalho que vos espera no futuro e para dar um novo impulso à vossa missão.

Escrevendo à comunidade dos cristãos de Corinto, São Paulo afirma que a caridade é o «caminho mais sublime» (1 Cor 12, 31) para conhecer Deus e compreender o essencial da vida cristã. No célebre Hino à caridade, o Apóstolo realça que a falta de caridade esvazia de conteúdo cada ação: permanece a forma exterior, mas não a realidade. Até as ações mais extraordinárias, a generosidade mais heroica, a distribuição de todos os bens para os dar aos famintos (cf. 1 Cor 13, 3), sem a caridade não valem nada.

Sem a profissão de fé em Deus Pai, que é o princípio de todo o bem; sem a experiência da amizade com Cristo, que mostrou ao mundo a face do amor trinitário; sem a guia do Espírito, que orienta a história da humanidade rumo à posse da vida plena (cf. Jo 10, 10), só resta a aparência. Já não é o bem, mas apenas uma aparência de bem.

Então seria fácil perder de vista a finalidade da diaconia a que somos chamados: transmitir a alegria do Evangelho, a unidade, a justiça e a paz. Seria fácil ceder àquelas lógicas mundanas que nos induzem a perder-nos num ativismo pragmático e a extraviar-nos nos particularismos que dilaceram o corpo eclesial.

É a caridade que nos faz ser. Quando aceitamos o amor de Deus e o amor n’Ele, alimentamo-nos da verdade do que somos, como indivíduos e como Igreja, e compreendemos profundamente o sentido da nossa existência. Entendemos não só a importância da nossa vida, mas também quão preciosa é a vida dos outros. Distinguimos claramente que cada vida é insubstituível e, aos olhos de Deus, é um prodígio.

O amor faz-nos abrir os olhos, dilatar o olhar, permite-nos reconhecer no desconhecido com quem nos cruzamos no nosso caminho o rosto de um irmão, com um nome, uma história, um drama ao qual não podemos ficar indiferentes. À luz do amor de Deus, a fisionomia do outro sobressai da sombra, sai da insignificância e adquire valor, relevância. As indigências do próximo interrogam-nos, incomodam-nos, provocam-nos ao desafio da responsabilidade. E é sempre à luz do amor que encontramos a força e a coragem de responder ao mal que oprime o outro, de responder na primeira pessoa, mostrando o rosto, o coração, arregaçando as mangas. O amor de Deus faz-nos sentir o peso da humanidade do outro como «um jugo suave e um fardo leve» (Mt 11, 30). Leva-nos a sentir como nossas as feridas que entrevemos no seu corpo, impelindo-nos a derramar o óleo da fraternidade sobre as feridas invisíveis que lemos em filigrana na alma do outro.

Queres saber se um cristão vive a caridade?

Então vê se ele está disposto a ajudar de boa vontade, com o sorriso nos lábios, sem resmungar nem se zangar. A caridade é paciente, escreve Paulo, e a paciência é a capacidade de suportar as provações inesperadas, os cansaços diários, sem perder a alegria e a confiança em Deus. Por isso, é o resultado de uma lenta labuta do espírito, na qual se aprende a dominar-se, tomando consciência dos próprios limites.

É um modo de se relacionar consigo mesmo, do qual depois nasce aquela maturidade relacional que nos leva a reconhecer «que também o outro tem o direito de viver comigo nesta terra, tal como é» ( al , 92).

Sair da autorreferencialidade, de considerar o que queremos para nós como o centro à volta do qual fazer girar tudo, à custa de submeter os outros aos nossos desejos, não só nos pede para conter a tirania do egocentrismo, mas também exige a atitude dinâmica e criativa de deixar emergir as qualidades e os carismas dos outros.

Neste sentido, viver a caridade significa ser magnânimo, benevolente, reconhecendo por exemplo que, para trabalhar juntos de modo construtivo, devemos primeiro “dar espaço” ao próximo. Fazemo-lo quando nos abrimos ao diálogo e à escuta, aceitando com flexibilidade as opiniões diferentes das nossas, sem nos endurecermos nas nossas posições, mas ao contrário, procurando um ponto de encontro, um caminho de mediação.

O cristão que vive mergulhado no amor de Deus não alimenta a inveja, pois «no amor não há lugar para sentir desgosto pelo bem do outro» ( al , 95).

Não se vangloria nem se ensoberbece, porque tem o sentido da medida e não gosta de se colocar acima do próximo, mas ao contrário aproxima-se do outro com respeito e delicadeza, com gentileza e ternura, tendo em consideração as suas fragilidades. Cultiva em si a humildade, «pois para poder compreender, desculpar e servir os outros de coração, é indispensável curar o orgulho» ( al , 98).

Não procura o próprio interesse, mas compromete-se na promoção do bem do outro, apoiando-o nos esforços para o conseguir.

Não tem em conta o mal recebido, nem propaga com mexericos o que foi cometido pelos outros, mas com discrição e em silêncio confia tudo a Deus, sem dar azo ao julgamento.

O amor cobre tudo, diz Paulo, não para esconder a verdade pela qual, aliás, o cristão sempre se alegra, mas para distinguir o pecado do pecador, de tal modo que o primeiro seja condenado e o segundo salvo. O amor tudo perdoa, para que todos possamos encontrar alívio no abraço misericordioso do Pai e ser amparados pelo seu perdão.

Paulo conclui o seu “elogio à caridade” afirmando que ela, como caminho excelente para chegar a Deus, é maior do que a fé e a esperança. O que o Apóstolo diz é extremamente verdadeiro. Enquanto a fé e a esperança são “dons provisórios”, ou seja, ligados à nossa condição viática, de peregrinos nesta terra, a caridade, ao contrário, é um “dom definitivo”, penhor e antecipação dos últimos tempos, do Reino de Deus. Eis por que tudo o resto passará, mas a caridade nunca terá fim. O bem que se pratica em nome de Deus é a nossa parte boa que não será anulada, que não se perderá. O julgamento de Deus sobre a história cumpre-se no hoje do amor, no discernimento do que fizemos pelos outros em seu nome.

Como Jesus promete, será a recompensa da vida eterna: «Vinde, benditos do meu Pai, recebei em herança o reino que vos foi preparado desde a criação do mundo» (Mt 25, 34).

A Caritas Internationalis foi concebida e desejada para manifestar a comunhão eclesial, o ágape intraeclesial, para ser um seu meio e manifestação, mediando entre a Igreja universal e as Igrejas particulares, apoiando o compromisso de todo o Povo de Deus no exercício da caridade.

A vossa tarefa consiste sobretudo em cooperar na sementeira da Igreja universal, anunciando o Evangelho com boas obras. Não se trata apenas de ativar projetos e estratégias que se revelem bem-sucedidos, que visem a eficácia, mas de nos pensarmos num constante e contínuo processo de conversão missionária. Significa mostrar que o Evangelho é «resposta às expetativas mais profundas da pessoa humana: à sua dignidade e à sua plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade» ( al , 201). Por isso, não é secundário recordar a íntima ligação entre o caminho da santidade pessoal e a conversão missionária eclesial: quem trabalha para a Cáritas é chamado a dar testemunho deste amor diante do mundo. Sede discípulos missionários, colocai-vos no seguimento de Cristo!

Em segundo lugar, sois chamados a acompanhar as Igrejas locais no seu compromisso concreto na caridade pastoral. Tende o cuidado de formar pessoas competentes, capazes de levar a mensagem da Igreja à vida política e social. O desafio de um laicado consciente e maduro é atual como nunca, dado que a sua presença abrange todos os âmbitos que tocam diretamente a vida dos pobres. São eles que podem exprimir, com liberdade criativa, o coração materno e a solicitude da Igreja pela justiça social, empenhando-se na árdua tarefa de mudar as estruturas sociais injustas e de promover a felicidade da pessoa humana.

Por fim, recomendo-vos a unidade. A vossa Confederação é composta por muitas identidades: vivei a diversidade como riqueza, a pluralidade como recurso. Competi na estima recíproca, permitindo que os conflitos levem ao confronto, ao crescimento, não à divisão!

Invoco a intercessão de Maria, Mãe da Igreja, e enquanto vos peço que rezeis por mim, imploro de bom grado a bênção do Senhor sobre vós e sobre quantos vos apoiam na vossa obra!


1 Cf. João Paulo ii , Quirógrafo Durante a Última Ceia, 16 de setembro de 2004, 2.

2 Bento xvi , Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis, 2.