Convite do Papa à fundação Leaders pour la Paix

A política como arquitetura e artesanato da paz

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07 setembro 2021

Uma política concebida como «arquitetura e artesanato da paz»: sugeriu o Papa Francisco recebendo no Vaticano a 4 de setembro uma delegação de cerca de quinze membros da fundação Leaders pour la Paix. A seguir, o discurso pronunciado pelo Pontífice.

Ilustres Senhoras e Senhores!

É com prazer que me dirijo a vós, honrados Líderes devotados à paz, provenientes de várias partes do mundo. Agradeço ao Senhor Jean-Pierre Raffarin as suas amáveis palavras.

O nosso encontro tem lugar num momento histórico particularmente crítico, como sabemos. Infelizmente a pandemia ainda não foi superada e as suas consequências económicas e sociais, de modo especial para a vida dos mais pobres, são graves. Ela não só empobreceu a família humana de muitas vidas, cada uma preciosa e irrepetível, mas também semeou muita desolação e aumentou as tensões. Diante do agravamento de múltiplas crises políticas e ambientais convergentes — fome, clima, armamento nuclear, citando algumas — o vosso compromisso em prol da paz nunca foi tão necessário e urgente.

O desafio consiste em ajudar os governantes e os cidadãos a enfrentar as criticidades como oportunidades. Por exemplo: certas situações de crise ambiental, infelizmente agravadas pela pandemia, podem e deveriam suscitar uma tomada de responsabilidade mais decisiva, em primeiro lugar por parte dos mais altos dirigentes, e depois, descendo, também a níveis intermédios e em toda a cidadania. Na realidade, vemos que não raro é “de baixo” que chegam solicitações e propostas. Isto é muito bom, embora às vezes tais iniciativas sejam instrumentalizadas para outros interesses por grupos ideologizados. Há sempre o perigo da “ideologização”. Também nesta dinâmica sociopolítica podeis desempenhar um papel construtivo, principalmente favorecendo um bom conhecimento dos problemas e das suas causas profundas. Isto faz parte daquela educação para a paz que justamente é tão importante para vós.

A pandemia, com as suas longas sequelas de isolamento e “hipertensão” social, inevitavelmente pôs em crise o agir político em si mesmo, a política enquanto tal. Mas também isto pode tornar-se uma oportunidade para promover uma «política melhor», sem a qual não é possível «o desenvolvimento de uma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social» (Encíclica Fratelli tutti, 154). Uma política — coloco-me na vossa perspetiva — que se implemente como «arquitetura e artesanato da paz» (cf. ibid., 228-235). Para construir a paz, ambos são necessários: a “arquitetura”, «na qual intervêm as várias instituições da sociedade» (ibid., 231), e o “artesanato”, que deveria envolver todos, até aqueles setores frequentemente deixados de lado ou tornados invisíveis (cf. ibid.).

Portanto, trata-se de trabalhar simultaneamente a dois níveis: cultural e institucional. No primeiro nível, é importante promover uma cultura de rostos, que coloque no centro a dignidade da pessoa, o respeito pela sua história, especialmente se ferida e marginalizada. E também uma cultura de encontro, na qual ouvimos e acolhemos os nossos irmãos e irmãs, com «confiança nas reservas de bem que existem no coração do povo» (ibid., 196). No segundo nível — o das instituições — é urgente favorecer o diálogo e a colaboração multilateral, pois os acordos multilaterais garantem melhor do que os bilaterais «o cuidado de um bem comum verdadeiramente universal e a tutela dos Estados mais vulneráveis» (ibid., 174). De qualquer maneira, «não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contacto com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos» (ibid., 261).

Senhoras e Senhores, agradeço-vos a vossa visita e encorajo o vosso compromisso a favor da paz e de uma sociedade mais justa e fraterna. Deus vos conceda experimentar na vossa vida aquela alegria que Ele prometeu aos construtores de paz. Obrigado!