A riqueza de ser pequeninos

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31 agosto 2021

O Papa Francisco elogiou o acolhimento das diferenças e o respeito da dignidade humana, recebendo na Sala Paulo vi, na manhã de 28 de agosto, a associação Lazare. Fundada na França há dez anos por Étienne Villemain, a organização trabalha para proporcionar um lar aos “desabrigados” através de experiências de coabitação com jovens trabalhadores, e hoje tem oito casas em território francês, uma em Madrid e uma em Bruxelas. Depois de ter ouvido numerosos testemunhos e conversado com os presentes, o Pontífice entregou-lhes o discurso preparado no qual definia a experiência de Lazare «uma vitrine da amizade social» num mundo «cravejado de indiferença, individualismo e egoísmo», e exortou a derramar «o óleo da consolação e da cura nos corações atormentados». Publicamos as palavras improvisadas que o Papa lhes dirigiu.

Tinha preparado um discurso para vos dirigir, mas vo-lo entrego, pois prefiro falar sobre o que aqui veio à tona.

Detenho-me sobre a última imagem, a porta. Esta experiência da porta aberta, a porta fechada, o temor de que não me abram a porta, o medo de que me fechem a porta na cara... Esta experiência que acabamos de ouvir de um de vós, é a experiência de cada um de nós se nos olharmos por dentro.

E eu pergunto: qual é a minha relação com a porta?

Alguns pensam que a porta é sua posse e colocam-lhe um cadeado e fecham-na para si. Outros têm medo de bater a uma porta. É aquele receio que temos de saber se seremos acolhidos e aceites. Outros querem entrar, mas têm medo da porta e procuram entrar pela janela. E assim podemos imaginar muitas situações e perguntar-nos, qual é a minha relação com a porta?

A porta é Deus, então qual é a minha relação com a porta?

Será que me aproprio da porta e não deixo ninguém entrar, ou tenho medo de bater à porta, ou espero sem bater que alguém a abra para mim? Cada um de nós tem atitudes diferentes em relação a Deus, que é a porta.

Por vezes, na vida, é preciso ter a humildade de bater à porta. Por vezes é preciso ter a coragem de não ter medo de quem me abrirá a porta, que é Deus.

E quando tiver entrado, é preciso ter a grandeza de não fechar a porta atrás de mim sem a abrir para outros entrarem e é isso que “Lazare” faz, abre portas. E é por isso que gostaria de vos agradecer hoje, este testemunho, não só de “porteiros”, não vos preocupeis com a porta, não sois “porteiros”, mas com homens e mulheres que, dado que uma vez abriram a porta a cada um de vós, sentis a necessidade de a abrir aos outros.

A porta é Deus, que se abre para nós, a porta é o nosso coração... está aberto, está preservado... É tudo uma questão de pensar, mas sabeis como fazer.

Agradeço a cada um de vós o testemunho que prestais e ide em frente. “Lazare” é pequena, poucas pessoas, poucos lugares, face a tantas necessidades. Mas Jesus disse uma vez: que também o fermento é pequeno, mas capaz de se multiplicar, que a semente é pequena, mas capaz de fazer crescer uma árvore grande. A pior coisa que pode acontecer a “Lazare” é esquecer que é pequena, pois se ela se tornar grande no coração, através do poder, da soberba, da complacência, a árvore não crescerá e a massa não se expandirá.

A vossa riqueza não está no banco, a vossa riqueza consiste em serdes pequenos e continuai assim.

E rezai pela Igreja, a fim de que aprenda, a nossa Santa Mãe Igreja, nós homens e mulheres de Igreja, a abrir sempre a porta e a ter os ouvidos atentos àqueles que batem à porta, por vezes de forma débil. Obrigado.