Prioridade ao diálogo e à segurança dos afegãos

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18 agosto 2021

Duplo apelo do Papa no Angelus da solenidade da Assunção. No final da oração recitada ao meio-dia de 15 de agosto da janela do Palácio apostólico do Vaticano, após a reflexão introdutória dedicada ao significado da festa mariana, o Pontífice expressou a sua preocupação pela dramática situação no Afeganistão e no Haiti. Pediu aos fiéis presentes na praça de São Pedro e a quantos estavam ligados através dos meios de comunicação social que rezem pelas populações dos dois países, esperando que no primeiro «o clamor das armas cesse e que se encontrem soluções na mesa do diálogo», e no segundo que a solidariedade concreta venha da comunidade internacional a fim de socorrer as vítimas do terramoto.

Amados irmãos e irmãs
bom dia, boa Festa!

Hoje, Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria ao Céu, na liturgia destaca-se o Magnificat. Este cântico de louvor é como uma “fotografia” da Mãe de Deus. Maria “exulta de alegria em Deus, porque olhou para a humilde condição da Sua serva” (cf. Lc 1, 47-48).

O segredo de Maria é a humildade. Foi a humildade que atraiu o olhar de Deus sobre ela. O olhar humano procura sempre a grandeza e fica deslumbrado com o que é ostensivo. Deus, ao contrário, não olha para as aparências, Deus olha para o coração (cf. 1 Sm 16, 7) e encanta-se com a humildade: a humildade do coração encanta Deus. Hoje, olhando para a assunção de Maria, podemos dizer que a humildade é o caminho para o Céu. A palavra “humildade” deriva do termo latim humus, que significa “terra”. É paradoxal: para chegar ao alto, ao Céu, é preciso permanecer baixo, como a terra! Jesus ensina: «Aquele que se humilha será exaltado» (Lc 14, 11). Deus não nos exalta pelos nossos dons, pelas riquezas, pela capacidade, mas pela humildade; Deus é apaixonado pela humildade. Deus eleva aqueles que se abaixam, que servem. De facto, Maria nada mais atribui a si mesma do que o “título” de serva: é «a serva do Senhor» (Lc 1, 38). Nada mais diz sobre si, nada busca para si.

Hoje, então, podemos perguntar-nos, cada um de nós, no nosso coração: como estou em humildade? Procuro ser reconhecido pelos outros, afirmar-me e ser elogiado, ou penso em servir? Será que sei ouvir, como Maria, ou só quero falar e receber atenções? Será que sei ficar em silêncio, como Maria, ou estou sempre a tagarelar? Sei retroceder, desanuviar contendas e argumentos, ou procuro apenas sobressair sempre? Pensemos nestas questões: Como estou em humildade?

Maria, na sua pequenez, é a primeira a conquistar os céus. O segredo do seu sucesso reside precisamente em reconhecer-se pequena, em reconhecer-se necessitada. Com Deus, apenas quantos se reconhecem como nada são capazes de receber tudo. Apenas aqueles que se esvaziam de si são preenchidos por Ele. E Maria é a «cheia de graça» (v. 28) precisamente por causa da sua humildade. Para nós também, a humildade é sempre o ponto de partida, o início do nosso ter fé. É essencial ser pobre de espírito, ou seja, necessitado de Deus. Aquele que está cheio de si não dá espaço a Deus — e nós frequentemente estamos cheios de nós mesmos — mas quem permanece humilde permite que o Senhor realize grandes coisas (cf. v. 49).

O poeta Dante define a Virgem Maria «humilde e elevada mais que criatura» (Paraíso xxxiii, 2). É belo pensar que a criatura mais humilde e mais elevada da história, a primeira a conquistar o céu com todo o seu ser, de corpo e alma, passou a vida principalmente dentro das paredes domésticas, na normalidade, na humildade. Os dias da Cheia de graça não foram muito marcantes. Prosseguiam da mesma maneira, no silêncio: no exterior, nada de extraordinário. Mas o olhar de Deus permaneceu sempre sobre ela, admirando a sua humildade, a sua disponibilidade, a beleza do seu coração, nunca manchado pelo pecado.

É uma grande mensagem de esperança para cada um de nós; para ti, que vives dias iguais, cansativos e muitas vezes difíceis. Maria lembra-te hoje que Deus também te chama a este destino de glória. Estas não são palavras bonitas, é a verdade. Não se trata de um final feliz, criado de propósito, de uma ilusão piedosa ou de uma falsa consolação. Não, é pura realidade, viva e verdadeira como Nossa Senhora elevada ao Céu. Celebremo-la hoje com o amor de filhos, celebremo-la, jubilosos, mas humildes, animados pela esperança de um dia estar com ela no Céu!

E oremos agora a ela, para que nos acompanhe no caminho da Terra para o Céu. A fim de que nos recorde que o segredo do percurso está contido na palavra humildade, não nos esqueçamos desta palavra. E que a pequenez e o serviço são os segredos para alcançar a meta, para alcançar o Céu.

No final da oração mariana, o Papa fez dúplice apelo a favor do Afeganistão e do Haiti. Depois saudou os fiéis presentes na praça e todos aqueles que «nestes dias estão de férias», dirigindo um pensamento também àqueles que «não podem ir de férias», em particular «os doentes, os idosos, os presos, os desempregados, os refugiados e quantos estão sozinhos ou em dificuldades». Por fim, convidou a ir a um santuário para venerar Nossa Senhora como gesto de devoção mariana no dia da solenidade da Assunção.

Estimados irmãos e irmãs!

Uno-me à preocupação unânime pela situação no Afeganistão. Peço-vos que rezeis comigo ao Deus da paz para que cesse o clamor das armas e possam ser encontradas soluções à mesa do diálogo. Só assim a população atormentada desse país — homens, mulheres, idosos e crianças — poderá regressar às suas casas, viver em paz e segurança, no pleno respeito recíproco.

Nas últimas horas, ocorreu um forte terramoto no Haiti, causando numerosas mortes, feridos e grandes danos materiais. Desejo expressar a minha proximidade às queridas populações duramente atingidas pelo terramoto. Ao elevar as minhas orações ao Senhor pelas vítimas, ofereço a minha palavra de encorajamento aos sobreviventes, na esperança de que a comunidade internacional se ocupe deles. Que a solidariedade de todos alivie as consequências da tragédia! Rezemos juntos pelo Haiti a Nossa Senhora. Ave Maria...

Saúdo todos vós, romanos e peregrinos de vários países: famílias, associações e fiéis. Em particular, saúdo o grupo de Santa Giustina in Colle, os jovens de Carugate, os de Sabbio Bergamasco e de Verona.

Gostaria de dirigir também um pensamento a quantos estão a passar estes dias de Ferragosto nas várias localidades de férias: desejo-lhes serenidade e paz. Não posso, contudo, esquecer aqueles que não podem ir de férias, que permanecem ao serviço da comunidade e também quantos se encontram em condições difíceis, agravadas pelo forte calor e pelo encerramento de alguns serviços devido às férias. Penso especialmente nos doentes, nos idosos, nos presos, nos desempregados, nos refugiados e em todas as pessoas sozinhas ou em dificuldade. Que Maria estenda a sua proteção materna a cada um deles.

Convido-vos a fazer hoje um bonito gesto: ide a um Santuário mariano para venerar Nossa Senhora; aqueles que estão em Roma poderiam ir rezar diante do ícone da Salus Populi Romani na Basílica de Santa Maria Maior.

Desejo a todos bom domingo e feliz festa da Assunção! E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!