A dramática emergência humanitária na região de Tigray

Uma população exausta
pela violência, Covid e carestia

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07 julho 2021

Muito provavelmente hoje a região etíope de Tigray é a mais atingida pelo sofrimento no grande continente africano. As razões são múltiplas. Em primeiro lugar, as agências humanitárias relatam uma deterioração progressiva da situação humanitária, agravada não só pela carestia persistente e pela pandemia de Covid-19, mas também pela contínua insegurança causada por um grave estado de beligerância entre as partes em conflito.

Os atores do conflito estão divididos em dois campos: por um lado, as forças governamentais etíopes, flanqueadas por unidades do exército eritreu e amárico; por outro lado, a Frente de Libertação de Tigray (Tplf) luta contra uma resistência extenuante. É um choque assimétrico no sentido de que os combatentes da Tplf, tendo um profundo conhecimento da região, se instalaram em algumas zonas montanhosas inacessíveis a partir das quais operam ações de perturbação contra os seus adversários.

Embora as autoridades de Adis Abeba tenham declarado oficialmente o fim do conflito a 27 de novembro de 2020, com a tomada da cidade de Makelle (capital tigrina), os combates entre as partes opostas continuam e é muito difícil acompanhar a evolução da crise que penaliza fortemente a população civil exausta. O número de vítimas permanece incerto, mas fontes independentes falam de dezenas de milhares de mortos, muitos dos quais são idosos, mulheres e crianças.

A falta de informação da Região de Tigray depende de uma série de fatores típicos das regiões de crise tradicionais africanas. Há relatos de restrições e fiscalizações sobre a circulação de pessoas e necessidades básicas, bem como sobre transmissões telefónicas analógicas e digitais.

Fontes independentes da sociedade civil falam de violações flagrantes dos direitos humanos, assassinatos, massacres, estupros, detenções arbitrárias, espancamentos, execuções extrajudiciais e outras perseguições contra civis. Numerosos bombardeamentos têm sido realizados em povoações urbanas, infraestruturas públicas, locais de culto (igrejas e mesquitas) e outros locais pertencentes ao património histórico e cultural da civilização axumita. Ainda não há confirmação por parte das autoridades governamentais etíopes do massacre relatado por fontes independentes no complexo de Nossa Senhora Maria de Sião em Axum, onde perderam a vida pelo menos 750 pessoas. É de notar que o edifício sagrado em questão, segundo a tradição da Igreja ortodoxa da Etiópia, conserva a Arca da Aliança e sempre foi um local de peregrinação para muitos crentes.

De acordo com alguns especialistas em direito internacional e direitos humanos, que acompanham a evolução da crise armada, muitas das ações perpetradas nas zonas de beligerância poderiam ser classificadas, no âmbito do ordenamento jurídico internacional, como “crimes de guerra” e “contra a humanidade”. É evidente que, neste inferno de dor, a primeira coisa a fazer é garantir a segurança das populações autóctones que, cerca de sete meses após o início do conflito, estão em muitos casos a sobreviver em condições sub-humanas. Infelizmente, as operações de socorro continuam a estar sujeitas a restrições injustificáveis e ao confisco de meios de transporte e bens de todos os tipos. Em comparação com os meses anteriores, abriram-se oportunidades inesperadas para alcançar algumas comunidades isoladas, embora a garantia de que a ajuda chegará ao seu destino seja sempre incerta, devido ao comportamento imprevisível dos militares. Desde o início das operações militares, nove trabalhadores humanitários etíopes perderam a vida, o último dos quais foi assassinado a 28 de maio último juntamente com o primeiro cidadão do município de Adigrat.

Sob o ponto de vista da saúde, a destruição de vários hospitais é preocupante, muitos dos quais foram literalmente arrasados. Aqueles que ainda funcionam são absolutamente incapazes de responder adequadamente aos pedidos de ajuda. Os medicamentos são escassos e as poucas salas operatórias ainda em funcionamento são incapazes de satisfazer a procura de internamentos por traumas de guerra.

A crise de Tigray representa certamente um espinho no lado de todo o Corno da África, já duramente provado pela crise somali e pela disputa regional sobre a utilização das águas do rio Nilo. Entretanto, no que diz respeito a Tigray, são relatadas numerosas iniciativas diplomáticas, tanto na esfera da União Africana (ua), como nos fóruns de organismos internacionais, antes de mais nas Nações Unidas. Abuna Matthias i, patriarca da Igreja ortodoxa de Tewahedo da Etiópia, cuja autoridade religiosa e moral foi sempre objeto de grande respeito e consideração em todo o seu país, fez uma declaração particularmente significativa. Num vídeo divulgado a 8 de maio último e que teve ressonância internacional, provocando também reações contraditórias, o idoso patriarca condenou severamente o uso da violência em Tigray, sua terra natal. Uma tomada de posição que provocou o ressentimento por parte das autoridades de Adis Abeba, as quais lhe impuseram uma espécie de prisão domiciliar.

Por sua vez, a comunidade católica local, que representa cerca de 1% da população etíope, forneceu uma ajuda humanitária significativa a Tigray, tornando-se intérprete do iluminado magistério da paz do Papa Francisco, que segue com apreensão a evolução da situação.

Giulio Albanese