Prefácio do Papa ao documento da secção para os migrantes do DSDHI

Ver ou não ver?

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
08 abril 2021

A interrogação que leva a trabalhar a favor dos mais atingidos


A seguir publicamos o texto do prefácio escrito pelo Papa Francisco ao documento «Orientações pastorais sobre os deslocados climáticos», da Secção migrantes e refugiados do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral.

As Orientações pastorais sobre deslocados climáticos é um documento, publicado sob forma de brochura, que contém dados, interpretações, políticas e propostas relevantes sobre o problema dos deslocados climáticos. Para começar, quero citar a famosa frase pronunciada por Hamlet, «ser ou não ser», e transformá-la em «ver ou não ver, eis a questão!». Com efeito, tudo começa com o nosso ver, sim, com o meu e o teu.

Estamos cheios de notícias e imagens sobre populações inteiras desenraizadas das suas terras, como resultado de catástrofes naturais causadas pelo clima, e forçadas a migrar. No entanto, o efeito que estas histórias têm sobre nós e o modo como lhes respondemos — quer provoquem respostas fugazes ou desencadeiem algo mais profundo, quer pareçam distantes ou sejam sentidas como próximas — depende de nós; ou seja, depende de nós esforçar-nos por ver o sofrimento que cada história implica, «tomar dolorosa consciência, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece [...] e assim reconhecer a contribuição que cada um pode dar» (Laudato si’, 19).

O facto de que as pessoas são forçadas a migrar porque o ambiente em que vivem já não é habitável poderia parecer-nos um processo natural, algo inevitável. No entanto, a deterioração do clima é muitas vezes o resultado de escolhas erradas e de atividades destrutivas, fruto do egoísmo e do abandono, que colocam a humanidade em conflito com a Criação, a nossa casa comum.

Contrariamente à pandemia de Covid-19 — que se abateu sobre nós repentinamente, sem aviso prévio, praticamente em toda a parte, com um impacto quase simultâneo sobre a vida de todos nós — a crise climática começou com a Revolução Industrial. Durante muito tempo, esta crise desenvolveu-se tão lentamente que se manteve impercetível a todas as pessoas, exceto algumas particularmente clarividentes. Até hoje, as suas repercussões manifestam-se de modo desigual: as mudanças climáticas atingem o mundo inteiro, mas as maiores dificuldades dizem respeito àqueles que menos contribuíram para determinar as mudanças climáticas.

No entanto, tal como na pandemia de Covid-19, devido à crise climática, o enorme número de pessoas deslocadas continua a aumentar constantemente, tornando-se rapidamente uma grande emergência do nosso tempo, como podemos ver quase todas as noites na televisão, e isto exige respostas globais.

Vêm-me à mente, aqui, as palavras pronunciadas pelo Senhor, através do profeta Isaías que, aplicadas à nossa realidade, se revelam particularmente significativas também para nós, e soam mais ou menos assim: vinde e discutamos. Se estiverdes prontos para ouvir, ainda podemos ter um grande futuro. Mas se não quiserdes ouvir nem agir, sereis devorados pelo calor e pela poluição, pela seca aqui e pelas cheias das águas ali (cf. Is 1, 18-20).

Quando olhamos, o que vemos? Muitos são “devorados” por condições que tornam a sobrevivência impossível. Forçados a abandonar campos e litorais, casas e aldeias, fogem apressadamente, levando consigo apenas algumas recordações e pertences, fragmentos da sua cultura e tradição. Partem cheios de esperança, com a intenção de recomeçar a própria vida num lugar seguro. Mas, na maioria, acabam em submundos perigosamente superlotados ou povoações improvisadas, à espera do seu destino.

Quantos são forçados a abandonar a própria casa devido à crise climática têm necessidade de ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Desejam recomeçar, mas é preciso dar-lhes a oportunidade de o fazer, e ajudá-los para que possam construir um novo futuro para os seus filhos. Acolher, proteger, promover e integrar são todos verbos que correspondem a ações adequadas. Portanto, removamos uma por uma aquelas pedras que bloqueiam o caminho das pessoas deslocadas, que as reprimem e marginalizam, que as impedem de trabalhar e ir à escola, que as tornam invisíveis e lhes negam a dignidade.

As Orientações pastorais sobre os deslocados climáticos convidam-nos a ampliar o nosso modo de considerar este drama do nosso tempo. Impelem-nos a ver a tragédia do desenraizamento prolongado que leva os nossos irmãos e irmãs a gritar, ano após ano: «Não podemos voltar atrás e não podemos recomeçar tudo de novo». Convidam-nos a tomar consciência da indiferença da sociedade e dos governos em relação a esta tragédia. Pedem-nos para ver e para nos preocuparmos. Convidam a Igreja e todos a agir em conjunto, mostrando-nos como é possível fazê-lo.

Esta é a obra que o Senhor nos pede agora, e nela há uma imensa alegria. Não sairemos de crises como a climática ou a da Covid-19, fechando-nos no individualismo, mas apenas “permanecendo unidos” através do encontro, do diálogo e da cooperação. Por isso, estou particularmente feliz pela elaboração destas Orientações pastorais sobre os deslocados climáticos no âmbito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, com a Secção para os migrantes e os refugiados e com o Departamento da ecologia integral. Esta cooperação é, por si só, um sinal do caminho a seguir.

Ver ou não ver é a pergunta que nos leva a responder, trabalhando em conjunto. Estas páginas mostram-nos o que é necessário e o que devemos fazer, com a ajuda de Deus.

Franciscus