Via-Sacra do Papa Francisco na praça de São Pedro na noite de Sexta-Feira Santa

Rita e a cruz

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08 abril 2021

O olhar de esperança das crianças


À noite na praça de São Pedro, Rita caminha de cabeça erguida, segurando nas mãos a cruz de madeira. Rita está habituada a tratar por “tu” as “cruzes”, a ponto de não as considerar “cruzes” mas “normalidade”. E talvez tenha razão. Há uma semana fez 39 anos e esta noite está aqui para carregar a cruz de cabeça erguida, na praça de São Pedro, diante do Papa Francisco.

A Rita tem síndrome de Down.

Mas não é por isso que esta noite representa a sua comunidade paroquial dos Santos Mártires do Uganda, no bairro romano Ardeatino. Representa-a — com pleno direito — porque para as pessoas do seu bairro é um ponto de referência. Mas a valer: sem recorrer a símbolos fáceis nem a uma retórica mesquinha. Como é possível que os “descartados” se tornem “pedras angulares” que suportam “tudo”? Evangelho à parte, por assim dizer, é suficiente um pároco que acredita seriamente nisto e compreende que não há presente nem futuro, se as pessoas mais frágeis forem excluídas ou consideradas “destinatários de serviços”. A Sexta-Feira Santa é, provavelmente, o melhor dia para o recordar.

Rita Minischetti carregou a cruz na quinta e na sexta estações da Via-Sacra presidida pelo Papa Francisco na noite de 2 de abril, no adro da basílica do Vaticano.

Sim, com a sua inseparável bolsa de ombro, Rita não é “diferente”, não “nasceu com um defeito por causa de um cromossoma a mais”. É uma mulher muito bonita, exatamente como é. Na praça de São Pedro, no meio da Via-Sacra, teve o cuidado de encorajar, com um jogo de olhares e gestos cúmplices, o seu amigo Dustin Lopez quando cabia a ele carregar a cruz. O menino, que completará 14 anos no dia 21 de abril, natural do Equador, vive com Rita e com outras pessoas particularmente frágeis na reitoria dos Santos Mártires do Uganda, com o pároco Luigi D’Errico.

Devido à pandemia, como já se verificou no ano passado — quando os protagonistas foram os presos do cárcere “Due palazzi” de Pádua e o pessoal da Direção de saúde e higiene do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano — o rito presidido pelo Papa teve lugar na praça de São Pedro e não no tradicional cenário do Coliseu.

Os autores dos textos para as meditações, jovens do grupo de escoteiros Agesci “Foligno i e alunos de catecismo da paróquia de Rita, revezaram-se para carregar a cruz, levar as tochas e ler o texto das 14 estações. Acompanhados pelos seus educadores, as crianças e os jovens dos lares romanos de acolhimento «Mater Divini Amoris» e «Il Tetto Casal Fattoria» realizaram os desenhos para acompanhar as meditações.

Os nomes e sobrenomes destas crianças narram histórias de migração e marginalização. Os seus rostos “falam” de abandono. Mas olhares e sorrisos permanecem abertos à esperança de ter uma vida melhor do que a dos seus pais. Impressiona sobretudo a confiança nos seus educadores, religiosas e leigos. Uma mão estendida para procurar segurança, encorajamento. Sim, companheiros de caminho numa verdadeira Via-Sacra diária, que não dura apenas uma noite.

Transmitido no mundo inteiro, o rito presidido pelo Pontífice começou às 21 horas. A procissão com a cruz, “escoltada” por duas tochas, começou no obelisco no centro da praça de São Pedro e chegou ao adro da basílica, ao longo de um sugestivo caminho iluminado por velas. As luzes delineavam uma grande cruz que, paralela aos “braços” escancarados da colunata de Bernini, estava orientada para mulheres e homens, onde quer que vivam.

Na décima quarta e última estação foi uma menina, Selvaggia, nascida a 1 de janeiro de há 10 anos — com um casaco rosa-choque e com as mãos nos bolsos para superar a timidez (só as tirou do bolso quando era a sua vez de desempenhar o papel de “cruciferária”) — que entregou a cruz ao Papa, o qual no final concedeu a bênção apostólica. No momento de deixar a praça, quatro crianças dos dois lares de acolhimento correram para abraçar Francisco, que as saudou carinhosamente.

Estavam presentes, entre outros, nove cardeais, incluindo o secretário de Estado, Pietro Parolin, e os arcebispos Edgar Peña Parra, substituto da Secretaria de Estado, Paul Richard Gallagher, secretário para as Relações com os Estados, e Jan Romeo Pawłowski, secretário para as Representações pontifícias. Com eles, no adro, também os representantes das quatro realidades que animaram a Via-Sacra. E os jovens guardas suíços, ao seu lado, certamente encontraram nestes testemunhos mais uma motivação para o serviço que prestam. Os cânticos foram interpretados pelo coro da Capela Sistina.

Com uma nota extra: às 21h37 de sexta-feira, 2 de abril, foi como se se sentisse “mais” uma presença: a de São João Paulo ii, exatamente 16 anos depois da sua morte, com o seu testemunho pessoal da Via-Sacra.

Giampaolo Mattei