«Dicionário Bergoglio: as palavras-chave de um pontificado»

Uma linguagem
radicalmente pastoral

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23 março 2021

Com um evento online o livro de Francesc Torralba Dizionario Bergoglio: le parole chiave di un Pontificato (Edições Terra Santa, Milão, 2021, 320 páginas, 18 euros) foi apresentado nos últimos dias. O autor, professor de filosofia e antropologia na Universidade Ramón Llull de Barcelona e consultor do Pontifício Conselho para a Cultura, recolheu neste volume «alguns dos termos mais originais e caraterísticos do magistério social do Papa Francisco» com a intenção de promover, como se lê na introdução, «a difusão do seu pensamento social e de esclarecer algumas palavras e expressões que, na nossa opinião, nem sempre têm sido interpretadas corretamente». Publicamos nestas páginas alguns excertos do prefácio assinado pelo diretor de «La Civiltà Cattolica» e algumas expressões do “dicionário”.

Bergoglio é um grande comunicador. Não porque adota estratégias específicas, mas porque se sente livre para ser e para se comunicar. Portanto, a sua mensagem é capaz de tocar as pessoas de uma forma imediata, direta e intuitiva. Em particular, a sua capacidade comunicativa está enraizada numa experiência pastoral e numa torção de corpo e de palavra.

Torção do corpo: a sua autoridade nunca se exprime de forma estatuária, mas até a sua corporeidade se movimenta rumo ao interlocutor. Às vezes até parece perder o equilíbrio.

Torção da linguagem: o Papa gosta de usar um vocabulário de verbos, mas também de imagens e neologismos inesquecíveis. Também a linguagem perde o equilíbrio da formalidade. Por vezes, Francisco usa pronúncias incomuns de palavras italianas, mas declina-as de modos dialetais que tira da memória dos seus antepassados, sobretudo da sua avó. Numa palavra: ele alcança uma comunicação autêntica, desenvolta e eficaz.

A sua linguagem é radicalmente “oral”, porque é radicalmente pastoral. Até a reflexão escrita é a formalização de um texto concebido no âmbito de uma interlocução. É por isso que o Papa está sempre dentro do evento comunicativo, que ele cria e desenvolve a partir de dentro: não é o ator de uma parte escrita nem de um discurso escrito. Portanto, mais do que “comunicar”, o Papa Francisco cria “eventos comunicativos”, nos quais se pode participar ativamente.

A este respeito, notamos algo: o Papa Francisco e João Paulo ii são duas grandes figuras de comunicadores, mas de certa forma por razões opostas. João Paulo ii, cultor da densidade da palavra, e da palavra poética, modelou o gesto ao ritmo da palavra. Foi a palavra que fez florescer o gesto e o ritmo. Para Francisco é o contrário: é o gesto que liberta a palavra, plasmando-a.

Portanto, há uma oralidade radical da palavra em Bergoglio: a carta, a correspondência, a palavra escrita, para ser procurada deve incluir as raízes da oralidade. E esta oralidade é frequentemente maternal, misericordiosa. Para o Papa Francisco o pregador, de forma particular, é uma mãe, deve usar uma linguagem “materna”, ou seja, uma linguagem que tenha o sabor original da “língua materna”, simples, do latim sine plica. A simplicidade diz respeito à linguagem, que deve ser perfeitamente compreensível a fim de não correr o risco de ser uma conversa vazia.

Como nos adaptamos à linguagem dos outros, a fim de os alcançar com a Palavra de Deus? O Papa responde na Evangelii gaudium: «Deve-se escutar muito, é preciso partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes benévola atenção» (n. 158). A linguagem do Papa é muito simples, imediata, compreensível por todos. Esta habilidade vem a Francisco da sua vida em constante contacto com as pessoas.

Francisco fala a linguagem da vida e da fé, o que é obviamente mal compreendido, uma vez que não procede por meio de argumentos lógico-formais rígidos. Não pretende emitir comunicados de imprensa nem dar lições; tenciona abrir um diálogo. Aqueles que o acusam de ambiguidade não compreenderam o terreno existencial e empírico do qual se move o seu discurso. A incisividade e novidade da sua transmissão de mensagens vive da relação direta, autêntica e livre de assimetrias. Neste sentido, trata-se de uma linguagem radicalmente pastoral.

Mas é precisamente esta pastoralidade que lhe dá vibração poética. A linguagem bergogliana é muito rica em metáforas, provérbios, expressões idiomáticas, neologismos e figuras retóricas que não derivam do culto da palavra elegante, mas ao contrário da gíria, do porteño, da linguagem da rua, absorvida pela vida quotidiana ou pela relação pastoral com os fiéis. Francisco — tal como Roland Barthes, o grande estudioso da linguagem inaciana dos Exercícios espirituais — sabe que dizer amor, inclusive o amor de Deus, significa enfrentar a confusão da linguagem: aquela área confusa em que a linguagem é demasiada e ao mesmo tempo muito pouca, excessiva e pobre. Também os de Francisco, à sua maneira, são «fragmentos de um discurso amoroso». É a linguagem, poética e ao contemporaneamente popular, dos Profetas do Antigo Testamento.

Antonio Spadaro


Resíduos urbanos


Um dos âmbitos que suscita mais atenção teológica e pastoral no pensamento de Jorge Mario Bergoglio, até antes de ser bispo de Roma, é a grande cidade.

Tal interesse tem razões biográficas, uma vez que o Sumo Pontífice passou boa parte do seu ministério como arcebispo em Buenos Aires e pôde visitar outras imensas aglomerações urbanas da América do Sul. Por isso, conhece em profundidade os grandes desafios e problemas que afligem a vida de uma metrópole.

Um dos males mais tangíveis destes vastos conglomerados humanos é a queda no anonimato, indiferença, massificação e desagregação. Os indivíduos não se conhecem, vivem apinhados e, ao mesmo tempo, segregados, e são indiferentes à vida dos outros. Sofrem frequentemente de uma solidão indesejada, mas tornada obrigatória pelas circunstâncias.

Os resíduos urbanos  são pessoas que lutam para sobreviver nas grandes cidades. Estão lá, como lixo, nas calçadas, nas avenidas, nas estações de comboios, nos estacionamentos, perto dos multibancos, nas saídas do metropolitano, abandonadas no meio dos caixotes. Ninguém os reclama, ninguém chora por eles, ninguém os reconhece. São simplesmente seres humanos excedentes, um incómodo, que agora fazem parte da cenografia da metrópole. Ninguém os procura, ninguém nota a sua presença, nem sequer a sua ausência, quando desaparecem. Não conhecemos as suas vidas destroçadas, os seus infortúnios e desventuras.

Estes são os restos urbanos: indivíduos descartados, excedentes da grande cidade. São parte integrante da paisagem das imensas metrópoles. Adormecem debaixo de portões, enquanto as pessoas se deslocam freneticamente de um lugar para outro. Eles ficam ali abandonados e muitas vezes nem sequer sabemos se estão vivos, doentes ou mortos.

Ilija Trojanow escreve: «Neste sistema, algumas pessoas são lixo. Às vezes não se sabe o que fazer com elas. Quanto mais pessoas houver, mais lixo se acumula, também lixo humano. Quanto mais tempo nos curvamos às pressões de uma ideologia frenética de crescimento, que leva o mundo inteiro ao ápice da injustiça social, mais acabamos por cancelar as fronteiras entre o ser humano e o lixo».

Os restos urbanos são cidadãos esquecidos, seres invisíveis. Como cidadãos, gozariam de todos os direitos, mas não os reivindicam, nem esperam qualquer tipo de justiça social. Eles não protestam, não se organizam, não se afirmam. Sobrevivem o melhor que podem, quer através da caridade, quer cometendo pequenos crimes.

Os cristãos são chamados a parar e a responder ao seu apelo, a procurar formas de proporcionar dignidade a essas vidas, para as reconstruir, para as compensar e, em última análise, para as humanizar. A indiferença face ao lixo urbano colide violentamente com a ética do Evangelho, que exige proteção, vigilância, prática da misericórdia, socorro aos abandonados, para lhes proporcionar um pouco de dignidade humana.

«Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o meio ambiente, e que suscite os valores fundamentais. É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades. Não se deve esquecer que a cidade é um âmbito multicultural. Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos de pessoas compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilusões semelhantes, constituindo-se em novos sectores humanos, em territórios culturais, em cidades invisíveis. Na realidade, convivem variadas formas culturais, mas exercem muitas vezes práticas de segregação e violência. A Igreja é chamada a ser servidora dum diálogo difícil. Enquanto há citadinos que conseguem os meios adequados para o desenvolvimento da vida pessoal e familiar, muitíssimos são também os “não-citadinos”, os “meio-citadinos” ou os “resíduos urbanos”. A cidade dá origem a uma espécie de ambivalência permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus habitantes infinitas possibilidades, interpõe também numerosas dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradição provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades são cenário de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela força poderão ser silenciadas»  (Exortação Apostólica Evangelii gaudium , 74).


Balconear

(varandear)


O primeiro significado do verbo balconear, no Dicionário da língua espanhola , é “observar os acontecimentos sem participar neles”. Um segundo significado é “examinar uma situação”. Varandear também significa “olhar, observar com curiosidade de uma varanda, ou de qualquer outro lugar elevado”.

Uma vez que este é um verbo espanhol claramente atestado — reconhecido pelos dicionários académicos da língua e dos americanismos — não há necessidade de o colocar entre aspas. Além deste significado de balconear , em uso corrente na Argentina e no Uruguai, o Dicionário de americanismos , da Asociación de academias de la lengua española, enumera outros significados, entre os quais se destacam: “Tornar os assuntos privados de uma pessoa de certa forma públicos” (México) e “perder tempo” (Uruguai).

Tanto este verbo como o derivado balconeo  chamaram a atenção dos meios de comunicação social, quando foram utilizados pelo Papa Francisco na xxviii Jornada mundial da juventude, realizada no Rio de Janeiro, Brasil.

Na sequência do que foi um dos discursos mais apreciados do Pontífice, muitos jornalistas, especialmente espanhóis, começaram a publicar artigos em que empregavam este verbo, dando-lhe um certo destaque: «Francisco não pretende “balconear” perante a imensa tragédia da Síria», «Podemos “balconear” perante a realidade ou comprometer-nos para a mudar».

Balconear , no jargão argentino, significa literalmente «ficar a olhar da varanda, varandear». Trata-se  de uma atitude de pura curiosidade, como a de um espetador que não participa naquilo que  contempla. Refere-se à atitude de alguém que, apesar de ter uma opinião exata sobre aquilo de que não gosta ou que lhe parece errado, não se intromete no assunto.

Jorge Mario Bergoglio critica fortemente esta atitude, que considera extremamente passiva, como mero espetador. Ocorre quando alguém observa da varanda da própria casa, e a partir daí considera os dramas do mundo, contudo sem se comprometer nem transformar minimamente a realidade.

Neste sentido, “balconear” está inscrito na lógica da indiferença, já que é uma expressão de desinteresse perante o mundo.

Há, contudo, algo mais no “balconear”: um juízo de menosprezo. Da varanda, o espetador não só contempla passivamente o que acontece na praça pública, na ágora do mundo, mas até critica aqueles que procuram fazer algo para melhorar a situação, para aliviar o sofrimento, para mudar a realidade.

Em total coerência com a mensagem de renovação espiritual da Evangelii gaudium , o Papa Francisco lembra-nos que o cristão é chamado a descer da varanda, a mergulhar na lama do mundo para difundir esperança,  colaborar ativamente com aqueles que agem para a transformação da realidade, à luz do Evangelho de Jesus Cristo.

«O coração de vocês, coração jovem, quer construir um mundo melhor. Acompanho as notícias do mundo e vejo que muitos jovens, em tantas partes do mundo, saíram pelas estradas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens nas estradas são jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixem para outros o ser protagonistas da mudança! Vocês são aqueles que têm o futuro! Vocês... Através de vocês, entra o futuro no mundo. Também a vocês, eu peço para serem protagonistas desta mudança. Continuem a vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão surgindo em várias partes do mundo. Peço-lhes para serem construtores do mundo, trabalharem por um mundo melhor. Queridos jovens, por favor, não “olhem da sacada” a vida, entrem nela. Jesus não ficou na sacada, mergulhou... “Não olhem da sacada” a vida, mergulhem nela, como fez Jesus.

Resta, porém, uma pergunta: por onde começamos? A quem pedimos para iniciar isso? Por onde começamos? Uma vez perguntaram a Madre Teresa de Calcutá o que devia mudar na Igreja; queremos começar, mas por qual parede? Por onde — perguntaram a Madre Teresa — é preciso começar? Por ti e por mim: respondeu ela. Tinha vigor aquela mulher! Sabia por onde começar. Hoje eu roubo a palavra a Madre Teresa e digo também a você: começamos? Por onde? Por ti e por mim! Cada um, de novo em silêncio, se interrogue: se devo começar por mim, por onde principio? Cada um abra o seu coração, para que Jesus lhe diga por onde começar»  (Vigília de oração com os jovens durante a viagem apostólica ao Rio de Janeiro para a xxviii Jornada mundial da juventude,  27 de julho de 2013).


Revolução da ternura


Revolução da ternura é uma fórmula muito amada pelo Papa Francisco. Foi utilizada pelo Santo Padre por ocasião do sínodo sobre a Nova Evangelização. Nas suas palavras, é a melhor maneira de descobrir o que Jesus instituiu com a própria vida, palavras e ações. O que veio anunciar é, precisamente, a revolução da ternura, uma transformação radical da nossa maneira de ver a realidade e de agir no mundo, uma revolução que tem o seu epicentro no coração.

Em contraste com a revolução promovida pelas armas, sustentada pela ira e indignação, Jorge Mario Bergoglio propõe a revolução da ternura, que consiste em doar-se inteiramente, em perdoar a todos, em agir gratuitamente, em manter a inocência de uma criança.

Bernardo Pérez descreve-a com estes termos: «Esta revolução total implica caminhar para um novo paradigma: o paradigma do dom no qual se está grato pelo da mera doação da existência. Neste contexto, o coração humano é “perturbado” pela natureza, que o penetra e explode em harmonia universal. É também comovida pela presença do outro e daqueles que pedem a sua compaixão. Por fim, este coração participante é envolvido pela presença do outro. Poderíamos também chamar a este paradigma do dom o paradigma da ternura. A ternura é uma condição essencial do ser humano, o movimento interior do ser humano que sai de si próprio para se encontrar com o outro, o próximo, e se deixa encher por ele. Ele deixa que o seu eu interior seja perturbado pela presença do mistério que envolve a realidade. Quando o homem vive tal experiência, o seu ser extingue os desejos e aspira apenas à plenitude da presença do que é outro e do outro. Esta ternura eleva-o à contemplação da natureza, como a manifestação de uma presença transcendente».

«Mesmo enfrentando as dificuldades, elas [as jovens das quais vos ocupais e ajudais] testemunham muitas vezes as virtudes essenciais como a fraternidade e a solidariedade. Além disso, recordam-nos que somos frágeis e dependemos de Deus e dos outros. Que o olhar misericordioso do Pai nos comova e nos ajude a acolher a nossa pobreza para ir em frente com confiança, comprometendo-nos juntos na “revolução da ternura” — este é o desafio para vós: fazer a revolução da ternura. Jesus abriu-nos o caminho desta revolução mediante a sua Encarnação. É bom ser seus discípulos-missionários, para consolar, iluminar, aliviar, ouvir, libertar, acompanhar. A experiência que Ele nos doou mediante a sua Ressurreição é uma força vital que penetra o mundo (cf.  Exortação Apostólica «Evangelii gaudium», 267) e sobre a qual podeis apoiar-vos todos os dias, porque corresponde às aspirações mais profundas do coração»  (Discurso aos membros da Associação católica internacional ao serviço da juventude feminina [acisjf],  18 de abril de 2015).