No dia mundial

Pôr fim à poluição

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23 março 2021

Mensagem do cardeal secretário de Estado


Publicamos o texto da mensagem vídeo que o cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin enviou a 22 de março — em nome do Papa Francisco — ao diretor-geral da Fao, Qu Dongyu, à diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, e aos participantes no evento virtual que teve lugar por ocasião do Dia mundial da água de 2021.

Excelências!

É uma honra saudar-vos cordialmente, também em nome do Santo Padre, por ocasião do Dia mundial da água de 2021.

O tema escolhido para este ano, «Valorizar a água», convida-nos a ser mais responsáveis na tutela e utilização deste elemento tão fundamental para a preservação do nosso planeta. Com efeito, sem água não haveria vida, nem centros urbanos, nem produtividade agrícola, florestal ou pecuária. No entanto, este recurso não tem sido tratado com o zelo e a atenção que merece. Desperdiçá-lo, negligenciá-lo ou poluí-lo é um erro que continua a repetir-se inclusive nos dias de hoje.

Não só, mas até no século xxi, na era do progresso e da evolução tecnológica, o acesso à água potável segura não está ao alcance de todos. O Santo Padre lembra-nos que a água «é um direito humano essencial, fundamental e universal [...] condição para o exercício dos outros direitos humanos» (Encíclica Laudato si’ , 30); um bem ao qual todos os seres humanos, sem exceção, têm direito de aceder de modo adequado, para poder levar uma vida digna. Portanto, «este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável» (ibidem).

Para além desta triste realidade, hoje acrescentam-se os efeitos nocivos das mudanças climáticas: inundações, secas, aumento da temperatura, alterações repentinas e imprevisíveis de pluviosidade, degelos, redução das correntes dos rios e esgotamento das águas subterrâneas. Todos estes fenómenos prejudicam e diminuem a qualidade da água e, consequentemente, impedem uma vida pacífica e frutuosa. Também contribuem para esta situação a difusão da cultura do desperdício e a globalização da indiferença, que leva o homem a sentir-se autorizado a saquear e a despojar a criação. Sem esquecer a atual crise sanitária, que aumentou as desigualdades sociais e económicas existentes, salientando os danos causados pela ausência ou ineficiência dos serviços hídricos entre os mais necessitados.

Pensando naqueles que hoje estão privados de um bem tão essencial como a água, assim como nas gerações vindouras, convido todos a trabalhar para pôr fim à poluição dos mares e rios, dos cursos de água subterrâneos e das nascentes, através de um trabalho educativo que promova uma mudança no nosso estilo de vida, a procura do bem, da verdade, da beleza e da comunhão com outras pessoas, tendo em vista o bem comum. Que estes sejam os elementos determinantes das escolhas de consumo, poupança e investimento (cf. São João Paulo ii, Encíclica Centesimus annus, 36).

Portanto, «Valorizar a água», como afirma o tema deste ano, significa mudar a nossa própria linguagem. Em vez de falar do seu “consumo”, devemos referir-nos ao seu “uso” sensato, de acordo com as nossas necessidades reais e respeitando as dos outros. «Se alguém tem água de sobra, mas poupa-a pensando na humanidade», diz-nos o Santo Padre, «é porque atingiu um nível moral que lhe permite transcender-se a si mesmo» (Encíclica Fratelli tutti, 117). Se vivermos sobriamente e colocarmos a solidariedade no centro dos nossos critérios, utilizaremos a água racionalmente, sem a desperdiçar de modo inútil, e poderemos partilhá-la com quantos dela mais precisam. Por exemplo, se protegermos os pântanos, se reduzirmos as emissões de gases com efeito de estufa, se permitirmos a irrigação aos pequenos agricultores e melhorarmos a resiliência nas áreas rurais, as comunidades de baixo rendimento, que são as mais vulneráveis em termos de abastecimento de água, beneficiarão e emergirão do seu estado de prostração e abandono.

«Valorizar a água» também pode significar reconhecer que a segurança alimentar e a qualidade da água estão intimamente interligadas. Com efeito, este recurso desempenha um papel essencial em todas as fases dos sistemas alimentares: na produção, transformação, preparação, consumo e, em parte, até na distribuição de alimentos. O acesso à água potável e saneamento adequado reduz o risco de poluição alimentar e a propagação de doenças infeciosas, que afetam o estado nutricional e a saúde das pessoas. Muitas, talvez a maioria, das doenças causadas pelos alimentos têm efetivamente origem na má qualidade da água utilizada na sua produção, transformação e preparação.

A fim de garantir o acesso justo à água, é de vital urgência agir sem demora, para pôr fim de uma vez por todas ao seu desperdício, à sua comercialização e à sua poluição. A colaboração entre Estados, entre os setores público e privado, e a multiplicação de iniciativas de organismos intergovernamentais são mais necessárias do que nunca. São também urgentes a cobertura jurídica vinculativa, o apoio sistemático e eficaz para assegurar que a água potável chegue, em quantidade e qualidade, a todas as áreas do planeta.

Portanto, apressemo-nos a dar de beber aos sedentos. Vamos corrigir o nosso estilo de vida, de modo a não esbanjar nem poluir. Tornemo-nos protagonistas da bondade que levou São Francisco de Assis a definir a água como irmã «que é muito útil, humilde, preciosa e casta» (Cântico das criaturas: ff 263). São propósitos que confio ao Todo-Poderoso, para que nos ajude a realizá-los dando o melhor de nós próprios.