No centenário do nascimento da escritora brasileira Clarice Lispector

Um caleidoscópio
chamado literatura

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15 dezembro 2020

Os versos de Clarice Lispector, tirados de Dá-me a tua mão, contêm uma força cativante: «Entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam / existe um intervalo de espaço / existe um sentir que é entre o sentir / nos interstícios da matéria primordial / está a linha de mistério e fogo / que é a respiração do mundo / e a respiração contínua do mundo / é aquilo que ouvimos / e chamamos de silêncio».

Lírica simples e pura, que soa como um convite à descoberta de uma narradora magnética, para quem este silêncio foi uma oficina onde forjar a própria obra, que emanava não tanto da inspiração, vista com suspeita, nem sequer de uma particular virtude intelectual, mas do suor do rosto, como o pão ganho através da leitura atenta dos acontecimentos mais simples, mas até dos não-acontecimentos da vida de todos os dias.

Ao longo de um florescente percurso artístico, a escritora não se limitava a contar histórias, mas preferia delinear o que o seu coração sentia, reelaborando depois a experiência de vida com uma escrita rica de metáforas, sem ceder à moda dominante nos salões literários, mas atenta a deixar que o leitor, deslumbrado, encontrasse o seu próprio espaço de construção através da livre interpretação dos escritos, muitas vezes desprovidos de enredo.

Confrontada com grandes nomes da literatura, como James Joyce e Virginia Woolf, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século xx. Nascida a 10 de dezembro de 1920 na Ucrânia ocidental, dizia ironicamente que nunca tinha posto os pés naquela terra, dado que quando a deixou era tão pequenina que a levaram no colo.

Formada em direito, interesse depressa abandonado para se dedicar inteiramente à literatura, ainda muito jovem conheceu a celebridade graças ao seu genial monólogo introspetivo Perto do coração selvagem, até hoje um dos seus romances mais conhecidos, recebido com entusiasmo pelos críticos em virtude da superlativa técnica narrativa, inédita no panorama literário do país, que preferia uma ficção mais inspirada no realismo social. O seu estilo fragmentário e intimista levou a dramaturga francesa Hélène Cixous a afirmar que a literatura brasileira pode ser dividida em dois períodos diferentes, antes e depois de Clarice Lispector.

E isto vê-se já a partir do primeiro romance, no qual a autora projeta sobre a vida da protagonista a própria evanescência, transbordante de imagens oníricas, assim como nos seus outros livros, de Laços de família, à obra-prima Água viva, a A Hora da estrela, até chegar a Um sopro de vida, considerado o seu “testamento espiritual”, publicado um ano após a sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 1977.

A seguir ao seu inesperado sucesso, a ensaísta atravessará o Atlântico em companhia do marido diplomata, em missão na Europa e nos Estados Unidos, conhecendo muitas figuras de destaque do mundo artístico e cultural dos países onde viveu. Mulher requintada, de beleza incomum, encantava quantos a conheciam. Na Itália fez amizade com o poeta Giuseppe Ungaretti, regressado recentemente à pátria após anos passados no Brasil, que ele considerava a «pátria humana», enquanto que o pintor Giorgio De Chirico não se absteve do prazer de pintar um retrato da fascinante escritora.

Será um tempo precioso também para o amadurecimento humano da jovem Clarice Lispector, que se interrogava como era possível escrever e, ao mesmo tempo, levar uma frívola vida mundana. No entanto, não tardou a intuir que para fazer literatura não é necessário isolar-se, mas a rotina de todos os dias pode tornar-se um motor para a escrita. Da convivência entre o ideal e o trivial nasceu uma narrativa genuína, sofrida e frágil, muitas vezes simplesmente essencial, dir-se-ia “amadora”, em que os sonhos se amalgamam teimosamente com a vida real e as vicissitudes humanas se diluem como na rotação silenciosa de um caleidoscópio, criando as cores com a dança da luz.

Em 1969, entrevistando Pablo Neruda, que dois anos mais tarde receberá o Nobel, Clarice Lispector faz-lhe uma pergunta que parece mais dirigida a si própria: «Que estado precede a tua criação, a angústia ou a graça?». Uma interrogação que, inquietando-a, a instiga a perscrutar cada vez mais profundamente a alma humana.

Os seus personagens, muitas vezes como que alter egos, revestidos de matizes etéreos, vivem em lugares imaginários onde a psicologia e a metafísica competem por um papel de protagonista. Consciente da complexidade dos sentimentos humanos e da energia necessária para os desafiar, tinha dificuldade de compreender como a descrição do mundo interior lhe fosse sequer provável. Assim, para ela a escrita permaneceu um verdadeiro mistério, um enigma que no entanto a acompanhará ao longo da vida inteira, marcada também por feridas existenciais, mas jamais fechada à surpresa da epifania, acolhida sempre com paixão. Contudo, sabe-se que a revelação só é possível para aqueles que permanecem abertos à alteridade, dir-se-ia ao estranhamento, que para ela era um verdadeiro aguilhão de criatividade. Só se morrermos, repetia entre uma obra literária e outra, poderemos nascer de novo.

Palavras que também hoje soam como uma forte exortação àqueles que, cansados da superficialidade e da mediocridade da indiferença, procuram um vislumbre de beleza, em si mesmos, no mundo, no outro.

Sérgio Suchodolak