A santa inquietação de António

Pietro Liberi, «Glória de Santo António» (1665)

Carta pelos oitocentos anos da sua vocação franciscana

09 junho 2020

Há oitocentos anos, em Coimbra, «o jovem cónego regular agostiniano  Fernando, natural de Lisboa, ao saber  do martírio de cinco franciscanos, mortos por causa da fé cristã em Marrocos a 16 de janeiro daquele mesmo ano, decidiu fazer uma mudança na sua vida». O Papa Francisco recordou-o numa carta enviada ao ministro-geral dos Frades menores conventuais, padre Carlos Alberto Trovarelli, por ocasião do oitavo centenário da vocação franciscana de Santo António de Lisboa.

No texto, o Pontífice retomou brevemente as etapas do percurso espiritual e profissional de António. Recordou que o jovem português «deixou a sua pátria e empreendeu um caminho, símbolo do  próprio itinerário  espiritual de conversão». Primeiro foi a Marrocos, «determinado a viver corajosamente o Evangelho nas pegadas dos mártires franciscanos», mortos por ódio à fé. Proveniente do Norte de África, encontrou-se no  litoral   da Sicília por causa de um naufrágio, «como acontece hoje com tantos dos nossos irmãos e irmãs». Da Sicília, escreveu o Papa, «o   providencial desígnio de Deus levou-o ao encontro com a figura de São Francisco de Assis nas estradas da Itália e da França». Por fim, chegou a Pádua, «uma cidade que estará sempre ligada de uma forma especial ao seu nome e que conserva o seu corpo».  Os auspícios do Pontífice são por  que esta comemoração  desperte — especialmente nos filhos espirituais de São Francisco e nos devotos de Santo António espalhados pelo mundo — «o desejo de experimentar a mesma santa inquietação que o levou pelos caminhos do mundo, através da palavra e da ação,  e de testemunhar o amor de Deus». O seu exemplo de partilha das «dificuldades das famílias, dos pobres e dos desfavorecidos», assim como «a sua paixão pela verdade e pela justiça,  ainda hoje pode suscitar um generoso compromisso de doação, em sinal de fraternidade», deseja o Pontífice, que dirige um pensamento particular aos jovens: este santo «antigo, mas tão moderno e genial nas suas intuições», escreveu, «pode ser um modelo a seguir pelas novas gerações para tornar frutuoso o caminho de cada um».

O Pontífice une-se espiritualmente àqueles que participarem nas diversas iniciativas promovidas para viver  na oração e na caridade o oitavo centenário antoniano. Por fim, desejou que todos possam repetir com Santo António: «Vejo o meu Senhor!». De facto, é necessário «ver o Senhor» no rosto de cada irmão e irmã, conclui a carta, «oferecendo a todos  consolação, esperança e possibilidade do encontro com  a Palavra de Deus na qual ancorar a própria vida».