· Cidade do Vaticano ·

Um hospital, gerido pelas religiosas, é ponto de referência para milhares de pessoas nos Camarões

As pobrezas de Ngaoundal

 As pobrezas de Ngaoundal  POR-018
02 maio 2024

«Amaior pobreza neste país é muitas vezes a ignorância dos pais». Enfermeiros e médicos sussurram-no atravessando o pátio que dá para as unidades de internamento e os ambulatórios. As cores da terra são dominantes nesta construção baixa, com os seus inúmeros corredores externos divididos por jardins em flor. A ternura do pessoal hospitalar para com as crianças internadas é quase desarmante, e a sua repreensão aos pais e mães não é uma acusação, mas sobretudo uma dolorosa constatação: que nos Camarões de hoje ainda se morre porque se recorre ao feiticeiro, não aos hospitais. No hospital de Ngaoundal, Camarões, na província de Adamawa, no centro do país, um dos principais compromissos consiste precisamente em salvar vidas, arrancando-as das mãos dos curandeiros.

Malária, tuberculose
e subalimentação

Inaugurado em 2016 pelas irmãs da Caridade de Santa Joana Antida Thouret, o hospital é um ponto de referência de saúde para aproximadamente 95.000 pessoas, sem distinção de raça, etnia ou religião, focado de modo particular na luta contra a tuberculose, aqui muito presente. «A doença mais difundida e frequente, explica a irmã Christine Richard, diretora do hospital, é a malária; encontramos também muitas patologias respiratórias e um número crescente de casos de tuberculose. Outro fator importante é a subalimentação. Há crianças que chegam aqui com edemas, sinal da carência de proteínas», causada pela grave pobreza em que se vivem as famílias nesta parte do mundo, mas em alguns casos também devido à poligamia, não incomum nesta região do país, uma vez que a população é predominantemente muçulmana. «Se não há entendimento entre as esposas, ou se o marido prefere uma em relação a outra, explica a religiosa, os recursos financeiros não são distribuídos equitativamente e muitas vezes são as crianças que sofrem». A pobreza é absolutamente o flagelo mais dramático, tanto em Ngaoundal como em todo o país. «Há 11 meses que não recebemos reembolsos e o governo deve-nos o equivalente a aproximadamente 46.000 euros», explica a irmã Christine.

O olhar das crianças

O olhar das crianças é penetrante, mas também apavorado; elas permanecem em silêncio, até as mais pequeninas, com os seus grandes olhos escuros abertos para o mundo, apesar da agulha da cânula enfiada no bracinho, embora muitas delas tenham dificuldade de caminhar, vencidas pela debilidade causada pela subalimentação e pelas doenças. Ao seu lado, presença discreta, está sempre o pessoal da saúde, médicos e enfermeiros, leigos e religiosas que, com ternura e delicadeza, carícias e sorrisos, mas também grande compaixão, fazem o melhor que podem pelos doentes e pelas famílias, porque não há mãe que não fique ao lado do seu pequenino, dia e noite, providenciando ela mesma a alimentação, preparada na estrutura criada pelo próprio hospital. «Uma das razões pelas quais, como hospital, não oferecemos comida aos doentes, acrescenta Christine, além de ser muito cara, é porque a população, aqui sobretudo muçulmana, não aceita comer o que não foi preparado por ela mesma». A afluência continua a ser o grande drama deste lugar, que oferece todo o tipo de apoio, incluindo um espaço dedicado à oftalmologia, um serviço de odontologia, outro de radiologia, um laboratório de análises e equipamentos de última geração. Dois blocos operatórios, um dos quais, o das emergências, funciona 24 horas por dia.

O apoio dos benfeitores

O hospital, acrescenta a irmã Christine, «não é suficientemente conhecido para que as pessoas possam realmente beneficiar dele». Em 2023, a média de atendimento era de 33% da capacidade anual da estrutura que, explica a religiosa, «é demasiado pouco para nos permitir viver serenamente». A pobreza, mas também o flagelo dos curandeiros, faz com que o hospital se torne o lugar de chegada, quando é demasiado tarde para sobreviver e, além disso, muitas vezes, depois de ter gasto o dinheiro com os feiticeiros, os enfermos já não dispõem de recursos para pagar os honorários. O olhar de Christine não esconde a preocupação que, no entanto, é iluminada pela gratidão. «O nosso hospital foi construído graças à ajuda de vários benfeitores, conclui, e entre eles está o Grupo Índia, sem o qual não teríamos podido comprar determinados equipamentos, assim como não teríamos podido construir alguns edifícios e o poço, que nos permite responder a outra emergência importante, a necessidade dramática de água».

#sistersproject

Francesca Sabatinelli