· Cidade do Vaticano ·

Mensagem do Papa ao Fórum económico mundial de Davos

A paz exige a abordagem das injustiças que estão na origem dos conflitos

epa11084433 A woman cleans the debris from a damaged apartment block at the site of a Russian drone ...
18 janeiro 2024

Publicamos a mensagem enviada pelo Papa Francisco ao professor Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum económico mundial, que se realiza em Davos (Suíça), de 15 a 19 de janeiro.

Ao Presidente executivo
do Fórum económico mundial

O encontro do Fórum económico mundial deste ano tem lugar num clima de instabilidade internacional muito inquietante. O vosso Fórum, que tem por finalidade orientar e reforçar a vontade política e a cooperação mútua, constitui uma oportunidade importante para a participação das várias partes interessadas na exploração de modalidades inovadoras e eficazes de construir um mundo melhor. Espero que os vossos debates tenham em consideração a necessidade urgente de promover a coesão social, a fraternidade e a reconciliação entre grupos, comunidades e Estados, a fim de enfrentar os desafios que se nos deparam.

Tristemente, quando olhamos ao nosso redor, vemos um mundo cada vez mais dilacerado, em que milhões de pessoas — homens, mulheres, pais, mães, crianças — cujos rostos são, na sua maioria, desconhecidos para nós, continuam a sofrer, sobretudo devido aos efeitos de conflitos prolongados e de guerras reais. Estes sofrimentos são exacerbados porque «as guerras modernas já não ocorrem unicamente em campos de batalha bem definidos, e não envolvem apenas soldados. Num contexto onde parece que a distinção entre alvos militares e civis já não é respeitada, não há conflito que não acabe, de certa forma, por atingir indiscriminadamente a população civil» (Discurso aos Membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, 8 de janeiro de 2024).

A paz pela qual os povos do nosso mundo anseiam só pode ser fruto da justiça (cf. Is 32, 17). Por conseguinte, não se trata apenas de pôr de lado os instrumentos de guerra, mas de enfrentar as injustiças que estão na raiz dos conflitos. Entre as mais significativas conta-se a fome, que continua a assolar regiões inteiras do mundo, enquanto outras são marcadas por um excessivo desperdício de alimentos. A exploração dos recursos naturais continua a enriquecer alguns, deixando populações inteiras, beneficiárias naturais de tais recursos, em condições de miséria e pobreza. Também não podemos ignorar a exploração generalizada de homens, mulheres e crianças, obrigados a trabalhar por salários baixos e privados de perspetivas reais de desenvolvimento pessoal e profissional. Como é possível que, no mundo de hoje, ainda haja pessoas que morrem de fome, são exploradas, condenadas ao analfabetismo, sem cuidados médicos básicos, sem abrigo?

Portanto, o processo de globalização, que já demonstrou claramente a interdependência das nações e dos povos do mundo, tem uma dimensão fundamentalmente moral, que deve fazer-se sentir nos debates económicos, culturais, políticos e religiosos que visam modelar o futuro da comunidade internacional. Num mundo cada vez mais ameaçado pela violência, pela agressividade e pela fragmentação, é essencial que os Estados e as empresas se unam na promoção de modelos de globalização clarividentes e eticamente sólidos que, pela sua própria natureza, devem subordinar a busca do poder e do lucro individual, tanto político como económico, ao bem comum da nossa família humana, dando prioridade aos pobres, aos necessitados e a quantos se encontram em situações mais vulneráveis.

Por sua vez, o mundo dos negócios e das finanças atua hoje em contextos económicos cada vez mais amplos, no qual os Estados nacionais têm uma capacidade limitada de gerir as rápidas mudanças nas relações económicas e financeiras internacionais. Esta situação exige que as próprias empresas se orientem cada vez mais não só segundo a busca de lucros justos, mas também segundo elevados padrões éticos, especialmente no que diz respeito aos países menos desenvolvidos, que não devem ficar à mercê de sistemas financeiros abusivos ou usurários. Uma abordagem clarividente destas questões será decisiva para alcançar o objetivo do desenvolvimento integral e solidário da humanidade. O desenvolvimento autêntico deve ser global, partilhado por todas as nações e em todas as partes do mundo, caso contrário regredirá inclusive em áreas até agora marcadas por um progresso constante.

Ao mesmo tempo, é evidente a necessidade de uma ação política internacional que, através da adoção de medidas coordenadas, possa visar eficazmente os objetivos da paz mundial e do autêntico desenvolvimento. Em particular, é importante que as estruturas intergovernamentais possam exercer eficazmente as suas funções de verificação e orientação no âmbito da economia, uma vez que a realização do bem comum é um objetivo que supera o alcance dos Estados individuais, até daqueles que são predominantes em termos de poder, riqueza e força política. As organizações internacionais são também desafiadas a assegurar a realização da igualdade, que está na base do direito de todos a participar no processo de desenvolvimento pleno, no respeito pelas diferenças legítimas.

Portanto, espero que os participantes no Fórum deste ano estejam conscientes da responsabilidade moral que cada um de nós tem na luta contra a pobreza, na conquista de um desenvolvimento integral para todos os nossos irmãos e irmãs, e na busca de uma convivência pacífica entre os povos. Este é o grande desafio que o tempo atual nos apresenta. E se, na busca destes objetivos, «os nossos dias parecem dar sinais de um certo retrocesso», não deixa de ser verdade que «cada nova geração deve retomar as lutas e as conquistas das gerações passadas, levando-as a metas ainda mais altas... O bem, o amor, a justiça e a solidariedade não se alcançam de uma vez por todas; devem ser alcançados todos os dias» (Exortação apostólica Laudate Deum, 34).

Com estes sentimentos, formulo os meus votos orantes para as deliberações do Fórum e invoco de bom grado sobre todos os participantes a abundância das bênçãos divinas.

Vaticano, 15 de janeiro de 2024

Francisco