· Cidade do Vaticano ·

Francisco no 350º aniversário do nascimento de Santa Lúcia Filippini

Deus não pode deixar de ser pai

 Deus não pode deixar de ser pai   POR-021
24 maio 2022

O segredo de Lúcia Filippini era a sua «constante confiança em Deus, porque Ele — dizia — “não pode deixar de ser meu pai”», assim recordou o Papa a figura da santa e a «certeza fundamental» que acompanhou toda a sua existência. A ocasião foi a audiência na peregrinação por ocasião do 350º aniversário do nascimento da religiosa, cujos participantes Francisco recebeu na Sala Paulo vi a 14 de maio. Entre eles, irmãs do Instituto das Mestras Pias fundado por ela e fiéis das dioceses de Viterbo e Civitavecchia-Tarquinia, onde ela viveu, criando escolas para jovens pobres. Eis as palavras do Pontífice.

Estimados irmãos e irmãs
bem-vindos!

Saúdo as Irmãs Mestras Pias Filippini, a Madre-Geral e todos vós, fiéis das dioceses de Viterbo e Civitavecchia-Tarquinia, acompanhados pelos vossos respetivos Bispos e sacerdotes. Uma saudação cordial também aos Presidentes das Câmaras Municipais e outras Autoridades aqui presentes. E a vós, jovens da primeira Comunhão!

Participo na vossa alegria pelo 350º aniversário do nascimento de Santa Lúcia Filippini. Este Ano jubilar é um tempo precioso para cada um de vós: é como voltar à fonte para atrair novas energias para o futuro; mas é também uma oportunidade para dar graças ao Senhor e também para lhe pedir para serdes canais da mesma graça que Santa Lúcia acolheu e generosamente distribuiu a tantas pessoas. Gostaria de partilhar convosco duas breves reflexões: uma mais diretamente dirigida ao Instituto das Mestras Pias Filippini; a outra a todos vós, devotos de Santa Lúcia.

Queridas Mestras Pias, a vossa missão é exigente já a partir do nome, Mestras. Mestre é aquele que ensina. Contudo, um provérbio diz que não se ensina o que se sabe, mas o que se é. Transmitimos aos outros o que somos dentro. Não basta encher a cabeça com ideias, isso não é educar; educar é transmitir vida. E ser mestre é viver uma missão. Por outro lado, se fizermos bonitos discursos, mas a vida for noutra direção, corremos o risco de ser apenas atores a desempenhar um papel, mas não educadores.

O exemplo da vossa Fundadora pode ajudar-vos a viver esta missão. Santa Lúcia é normalmente representada com o Crucifixo na mão ou no gesto de o indicar. Ela soube ensinar tantos, antes de mais porque ela mesma nunca deixou de ser discípula de Jesus Mestre e de estar diante da sua cátedra, a cruz. Tinha diante dos olhos Deus que dá vida e sentiu-se chamada a fazer da vida um dom. Assim, transmitiu aos outros o que guardava no coração: não sermões, teorias, mas conteúdo e vida. A sua missão como educadora não foi diferente da sua experiência mística.

Queridas irmãs, tudo isto nos lembra que não podemos contentar-nos com “ensinar” Jesus; Jesus, antes de tudo, testemunha-se. Assim transmite-se a fé. Deus só é comunicado se habitar na nossa vida, se preencher os nossos afetos, se unir os nossos pensamentos e inspirar as nossas ações. E qual é a prova disto? A nossa abertura aos outros: aqueles que conhecem o Senhor não se fecham na sacristia, mas vivem para servir, sem se preocupar onde ou o que lhes é pedido para fazer. Viver o serviço, porque o serviço é o grande ensinamento do Mestre, que veio para servir e não para ser servido (cf. Mc 10, 45).

Falamos frequentemente das dificuldades da vida religiosa, da falta de vocações, e assim por diante. Gostaria de vos dar um conselho, que não é a solução imediata para estes problemas, mas a forma de os resolver: não somos chamados em primeiro lugar a “colocar Jesus no centro”, como se fôssemos nós os protagonistas; somos chamados em primeiro lugar a retirar-nos do centro, que cabe a Ele. Viver a consagração como uma chamada ao serviço. Isto permite que Jesus aja em nós como Ele deseja e nos ensine a superar a resignação e a nostalgia, a ler a nossa época complexa, a empreender corajosamente novos caminhos em sintonia com os tempos. Far-vos-á bem recordar a imagem de Santa Lúcia com o Crucifixo na mão: não a nós, mas a Ele cabe o centro; e seremos bons mestres se continuarmos a ser discípulos, chamados todos os dias a servir, com alegria!

Um segundo pensamento, dirigido a todos vós que celebrais Santa Lúcia Filippini. Esta mulher tinha um segredo: vivia com uma confiança constante em Deus, porque Ele — dizia — «não pode deixar de ser meu pai». Gostaria de vos repetir estas palavras: Ele não pode deixar de ser meu pai. Muitas vezes, na vida, preocupamo-nos porque temos de deixar tantas coisas para trás: algumas seguranças, os anos da juventude, um pouco de saúde, talvez entes queridos, e assim por diante... Bem, se na vida há pessoas e coisas que mais cedo ou mais tarde teremos de deixar para trás, há uma presença que nunca nos deixará, uma certeza fundamental que nos acompanhará sempre e que nada nem ninguém será capaz de cancelar: Deus não pode deixar de ser meu pai. Isto é lindo! Vamos repeti-lo todos juntos? Deus não pode deixar de ser meu pai. Mais uma vez, mais alto: Deus não pode deixar de ser meu pai. Levai este pensamento no coração. Tudo pode falhar, mas não a ternura de Deus. Lembremo-nos sempre disto, especialmente em tempos sombrios: Deus nunca nos abandona, porque não pode deixar de ser nosso pai. Repitamos juntos: Deus não pode deixar de ser meu pai.

Guardemos no coração esta boa nova, que alimenta a confiança. Desejo que a possais anunciar àqueles que encontrais, para reavivar também neles a esperança. Há tanta necessidade disto hoje; é uma missão que diz respeito a cada um de nós. Boa missão, então: concedo a todos vós a bênção e peço-vos, por favor, que rezeis por mim. Obrigado!