· Cidade do Vaticano ·

Diálogo do Papa Francisco com quatro “invisíveis”

Uma sociedade que descarta os pobres é uma sociedade doente

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28 dezembro 2021

«São tantas as mulheres espancadas, abusadas em casa, inclusive pelos maridos. O problema para mim é quase satânico». O Papa Francisco, em Santa Marta, dialoga com quatro “invisíveis” e aborda — diante das câmaras da tv Mediaset — os problemas ligados à violência, à pobreza, às consequências da pandemia e à vida dos prisioneiros. O encontro, coordenado pelo vaticanista Fabio Marchese Ragona, contou com a presença de Giovanna, uma mãe que perdeu o emprego e cuja vida familiar é feita de violência; Maria, uma desabrigada; Maristella, uma escoteira de 18 anos a quem a pandemia tirou a vontade de sentir alegria; e Pierdonato, um ex-encarcerado que cumpriu 25 anos de prisão.

A Giovanna, que perguntou como recuperar a dignidade, o Papa, depois de ter definido o problema da violência como «quase satânico», respondeu: «É humilhante, muito humilhante. É humilhante quando um pai ou uma mãe bate na cara de uma criança, é muito humilhante e eu digo sempre, nunca bata na cara de uma criança. Porquê? Porque a dignidade é o rosto. Esta é a palavra que eu gostaria de retomar porque por detrás dela está a tua pergunta: a dignidade permanece em mim? Qual é a minha dignidade depois de tudo isto, qual é a dignidade das mulheres espancadas, maltratadas? Vem-me à mente uma imagem ao entrar na Basílica à direita, a piedade de Nossa Senhora, Nossa Senhora humilhada diante do filho nu, crucificado, um malfeitor aos olhos de todos, aquela é a mãe que o criou, totalmente humilhada. Mas ela não perdeu a dignidade e olhar para esta imagem em momentos difíceis como o teu de humilhação e onde se sente que se perde a dignidade, olhando para aquela imagem dá-nos força... Olha para Nossa Senhora, permanece com aquela imagem de coragem».

A cultura da indiferença

A Maria, que pergunta por que a sociedade é tão cruel para com os pobres, Francisco diz: «Falas de crueldade, é assim, esta é a bofetada mais dura da sociedade para vós, ignorar o problema dos outros... Estamos a entrar numa cultura da indiferença onde procuramos distanciar-nos dos problemas reais, da dor da falta de habitação, da falta de trabalho. Aliás, com esta pandemia os problemas aumentaram porque batem à porta aqueles que oferecem dinheiro emprestado: os usurários. Um pobre, uma pessoa em necessidade, cai nas mãos dos usurários e perde tudo, pois eles não perdoam. É crueldade em cima de crueldade, digo isto para chamar a atenção das pessoas para que não sejam ingénuas; a usura não é uma saída para o problema, a usura traz novos problemas». Depois o Papa perguntou à mulher se, quando encontra uma pessoa que está pior, vai lhe dá uma ajuda. E depois da resposta afirmativa de Maria, acrescentou: «Quando se está em sofrimento, compreende-se a profundidade da dor. Procura sempre olhar os problemas na cara porque haverá outra pessoa que está pior do que tu e precisa do teu olhar para a ajudar a seguir em frente».

Deus próximo dos presos

Pierdonato perguntou ao Papa se há esperança para aqueles que desejam uma mudança. Francisco respondeu com a frase da Bíblia: «A esperança nunca desilude». E acrescentou: «Há uma ópera de que gosto muito, que diz o contrário: na Turandot, sobre a esperança, diz-se que a esperança desilude sempre. Mas eu digo-te: a esperança nunca desilude. Há Deus, não em órbita, mas Deus ao teu lado, porque o estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura... Deus está com cada um dos presos, com qualquer pessoa que se encontra em dificuldade... Não o dizes, mas sabes no teu coração que estás perdoado e que tens essa esperança que não desilude... Por isso posso dizer-te uma coisa: Deus perdoa sempre, Deus perdoa sempre... A nossa força reside na esperança deste Deus próximo, compassivo e terno, terno como mãe. Ele mesmo o diz, e é por isso que tens essa esperança. Obrigado pelo teu testemunho».

A necessidade de contacto face a face

Maristella aborda a questão das consequências da Covid para os jovens e pergunta como criar uma relação saudável feita de contacto e experiências. O Papa disse: «No confinamento faltou-te o contacto com amigos e amigas, com a família, pois não podias sair e talvez a escola não funcionava. Precisamos de contacto, contacto face a face, mas temos a tentação de nos isolarmos com outros métodos, por exemplo, entrar em contacto apenas por telemóvel, as amizades por telemóvel, a falta de diálogo concreto. Aprendeste com esta situação que o diálogo concreto não pode ser substituído pelo diálogo online, que há algo mais». Falando sobre o hábito dos jovens sempre colados ao smartphone, Francisco acrescentou: «Se quiseres usar o telemóvel, usa-o, mas isto não tire o contacto com as pessoas, contacto direto, contacto de ir juntos à escola, dar um passeio, tomar um café juntos, contacto real e não virtual. Porque se deixarmos de lado o contacto real, acabaremos também por nos tornarmos líquidos ou gasosos, sem consistência, sempre online e à pessoa online falta ternura».

Crise, conflito e esperança

Giovanna retomou a palavra, e depois de ter contado que perdeu tudo como consequência da pandemia, perguntou como é possível ter esperança. «A Covid colocou-nos a todos em crise — respondeu o Papa — uma forma para sair da crise é tornar-se amargo, e a amargura muitas vezes é acabar com tudo. O número de suicídios aumentou muito com a crise.... A crise está aberta, o conflito fecha-te, não vês saída para o conflito, com a tua luta vejo que estás a combater para sair melhor da crise, não desististe e isto é ótimo, estás a dar uma lição de resistência, uma lição de resistência às calamidades... Estás a fazer uma aposta, para a vida e para a vida dos teus entes queridos, vai em frente. Não sabes para onde, porque não tens casa nem emprego, não sabes o que fazer. Mas estás a olhar para a frente, estás a sair melhor do que antes, mas não sozinha. Isto é importante: que procures alguém, pessoas que te acompanhem».

Um coração
aberto aos pobres

A Maria, que pergunta o que pode ser feito para abrir o coração das pessoas aos pobres, Francisco responde: «Quando olhas para o rosto de um pobre, o teu coração muda porque chegou ao “sacramento do pobre”, digamos “sacramental”... porque o olhar de um pobre muda-te. Esta cultura do descarte não é só com os pobres, com as pessoas que têm necessidades: quantas vezes numa família se dá essa realidade do descarte dos velhos, do descarte dos avós... quando automaticamente a uma certa idade procuras uma casa de repouso para pôr em depósito, não repouso, em depósito, o teu velhote, os avós, mostras algo impiedoso.... Pomos fora o que não nos agrada, e isto acontece por vezes desde o início da vida: muitas vezes vem um filho (e dizemos, ndr): “Mas não, devolvemo-lo ao remetente porque é um problema para nós”. E assim, quando a sociedade adoece, começa a descartar os pobres. Mas devemos lutar com isto».

Superlotação das prisões

Pierdonato pergunta como curar as feridas dos reclusos que estão ainda mais sozinhos em tempos de pandemia, e Francisco explica: «A pandemia faz isto, deixa-te sozinho... E depois o problema da superlotação das prisões: a superlotação é certamente um muro, não é humana! Qualquer condenação por um crime cometido deve ter uma esperança, uma janela. Uma prisão sem janela não é positiva, é um muro. Uma cela sem janela não é positiva. Não necessariamente uma janela física, mas uma janela existencial, uma janela espiritual. Para poder dizer: “Sei que vou sair, sei que poderei fazer isto ou aquilo”. É por isso que a Igreja é contra a pena de morte, porque na morte não há janela, não há esperança, fecha-se uma vida. Há esperança do outro lado, mas nenhuma ali. Por isso na prisão deve haver uma janela». Em seguida, o Papa relatou a experiência de um preso não crente que trabalhava com madeira. Um visitante aconselhou-o a ler o Evangelho. «Ele recebeu o Evangelho, começou a ler alguns trechos. “Algo aconteceu no meu coração (disse ele, ndr), aquele muro que tinha à minha frente desabou, abriu-se” e como era um bom carpinteiro fez isto (o Papa mostrou a escultura de madeira feita pelo prisioneiro, ndr), e disse-me: “Esta é a minha experiência desde que conheci Jesus”. Isto foi feito por um prisioneiro que viu que com Jesus o muro caía e que havia uma janela da vida».

O relacionamento com Deus
posto à prova

Depois, Maristella perguntou como poderia, na sua idade, estabelecer uma relação com Deus e mantê-la. «No confinamento tudo vai está à prova, até a relação com Deus... a relação com Deus não é algo linear que corre sempre bem, a relação com Deus tem crises como qualquer relação de amor numa família... Pega no Evangelho, no Evangelho está a palavra de Deus que te ajudará outra vez; tenho medo dos pregadores que querem curar a vida em crise com palavras, palavras, palavras. A vida em crise é curada com proximidade, compaixão, ternura. O estilo de Deus. O Evangelho dá-te isto. Pode parecer um pouco estranho para alguns, mas e se me dissesses: “Padre, zangar-se com Deus é pecado? Dizer: Senhor, não te entendo...”. É um modo de rezar! Muitas vezes ficamos zangados com o pai, com a mãe. As crianças zangam-se com os pais porque pedem mais atenção. Não tenhas medo se te zangares com Deus, deves ter a liberdade de filho perante Deus. Quando te zangas com o pai e a mãe não é bom, mas sabes que o pai e a mãe te amam; zangas-te com Deus porque isto ou aquilo não corre bem, mas sabes que Ele te ama e não se assusta, porque Ele é pai e sabe como nós, que somos todos filhos perante Deus, podemos reagir. Deves ter a coragem de dizer ao Senhor todos os teus sentimentos. O Evangelho na mão e o coração pacificado».

Os bons votos de Francisco

Concluindo, o Papa dirigiu-se diretamente aos telespectadores e perguntou: «O que pensas do Natal? Que devo sair e comprar isto e aquilo... Ok, mas o que é o Natal? É uma árvore? Uma imagem de um menino com uma mulher e um homem ao lado? Sim, é Jesus, é o nascimento de Jesus, pára um pouco e pensa no Natal como uma mensagem de paz. Desejo-vos um Natal com Jesus, um verdadeiro Natal. Isto significa que não podemos comer? Que não podemos festejar? Não, celebrai, comei tudo, mas fazei-o com Jesus, isto é, com paz no coração. E a todos vós que me estais a ouvir, desejo-vos um Feliz Natal. Fazei festa, oferecei presentes, mas não vos esqueçais de Jesus. O Natal é Jesus que vem, Jesus que vem comover o vosso coração, Jesus que vem comover a vossa família, que vem ter convosco, à vossa casa, ao vosso coração, à vossa vida. É fácil conviver com Jesus, ele é muito respeitador, mas não vos esqueçais dele. Feliz e Santo Natal a todos. E rezai por mim!».