· Cidade do Vaticano ·

Que o nosso coração seja o “acampamento” do Verbo de Deus

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21 dezembro 2021

Aliturgia do Natal do Senhor permite-nos celebrar não apenas uma, mas quatro missas: a missa da vigília (no dia 24 ao fim da tarde), a missa da noite (conhecida como “Missa do Galo”), a missa da aurora e a missa do dia. Apesar de constituírem uma unidade, as diferentes acentuações, ao serviço da finalidade teológica de cada um dos evangelistas, acabam por mostrar de forma polifónica o sentido mais amplo desta celebração natalícia.

O evangelho da missa da vigília apresenta a genealogia e o anúncio em sonho a José da conceção virginal de Jesus no ventre da Virgem Maria. Mateus manifesta, deste modo, uma Cristologia da Origem de Jesus, salientando a Sua filiação messiânica e a Sua condição de Filho de David, cumprindo as expetativas veterotestamentárias anunciadas pelos profetas.

Os evangelhos da missa da noite e da missa da aurora narram, na perspetiva de São Lucas, o contexto e o modo como se processou o nascimento de Jesus. A teologia lucana, muito marcada por uma Cristologia da Conceção, faz predominar os elementos da filiação humana de Jesus e a Sua consequente identidade de Filho do Homem (de Adam), sobretudo nos detalhes minuciosos da situação histórico-temporal em que a ação decorre e os pormenores tão realistas como paradoxais das circunstâncias do Seu nascimento.

Na missa do dia lê-se o Prólogo do evangelho de São João, que faz uma interpretação densamente teológica do mistério do nascimento de Jesus, através de uma Cristologia da Incarnação e da pré-existência do Verbo que visa demonstrar a filiação divina de Jesus e a Sua condição de Filho de Deus.

Todas estas nuances específicas de cada evangelista estão intimamente unidas entre si e iluminam-se reciprocamente: Mateus apresenta uma “Cristogénese” com base nos indícios dos textos do Antigo Testamento referentes ao Messias Davídico, cuja inserção nesta linhagem advém da paternidade terrena, mas não biológica de José, esposo da Virgem Maria, e de um plano salvífico de Deus previamente delineado para que a Sua glória fosse manifestada na Incarnação do Lógos divino.

Elemento central nestas “narrativas” é a casa: a casa de David (Israel) que aguarda expetante a vinda do Seu Messias, preparada já desde a promessa de Deus a Abraão e que leva a Sagrada Família a fazer o recenseamento em Belém, etimologicamente a “casa do pão”, lugar onde Jesus viria a nascer; a casa anónima (hospedaria), em sentido estrito mas de sentido plural, que não teve espaço nem abertura para acolher Maria no momento de ela dar à luz; e a casa em sentido amplo e até cósmico, que constitui esta dimensão macroscópica da história e da geografia humana em que o «Verbo fez-Se carne e habitou entre nós».

Por isso, a celebração do Natal lança-nos desafios que nos interpelam diretamente em várias dimensões da nossa vida. Em primeiro lugar, celebrar o Natal significa aprender a reconhecer este mundo em que vivemos como o espaço e o tempo em que Deus entra visivelmente na história. O mistério da Incarnação, nomeadamente no modo em que João no-lo descreve no seu prólogo, como que nos obriga a aceitar o mundo em que vivemos como um lugar teológico de revelação, não só a partir da sua criação ex Deo, mas também da sua “transcendentalização” in Christo. É a casa comum, capaz de refletir a bondade, a beleza e a verdade que Deus quis imprimir nas realidades por si criadas. Por isso, não podemos olhar para o Natal do Senhor sem aceitar a dimensão ecológica (integral) que isso implica, que se deve manifestar no cuidado que devemos ter na proteção do “criado”, do qual Deus nos fez guardiães, e de forma particular na defesa da integridade e dignidade de todos os seres humanos, dos quais Deus nos fez irmãos.

Em segundo lugar, celebrar o Natal implica reconhecermo-nos membros de um povo, de uma história e de um património religioso ímpar. Somos herdeiros de uma promessa que vem desde Abraão e, apesar de acolhermos Jesus como Messias, contrariamente a outros irmãos nossos, não devemos perder de vista o horizonte da fraternidade humana e da amizade social, como nos convidava o Papa Francisco na sua mais recente carta encíclica, a Fratelli tutti. A linhagem de David, de acordo com a genealogia de Mateus, não excluiu a presença de prostitutas (Tamar, Raab), de estrangeiras (Rut) e de adúlteras (a mulher de Urias). O presépio permite que nele estejam representados pastores (socialmente marginalizados) e Magos (espiritualmente pagãos); Deus não se importa de fazer da manjedoura, o local onde comem os animais, ou seja, os impuros, o lugar teológico do horizonte universal da salvação oferecida em Jesus. A Igreja deve ser, por isso, esta casa de portas abertas onde todos podem acolher e adorar o Senhor.

Em terceiro lugar, celebrar o Natal é permitir que também o santuário sagrado que é o nosso coração (e porque não dizer, toda a nossa pessoa) possa ser a hospedaria disponível e livre para se tornar o “acampamento” do Verbo de Deus. Se nós vimos a Sua glória, não só nas alturas, como cantam os anjos, mas também na terra, como nos diz São João, então o desafio maior que o Natal nos coloca é o de nos deixarmos humanizar e cristificar por Aquele que quer nascer em nós de forma renovada, para que se cumpra o que Santo Ireneu imortalizou na expressão «a glória de Deus é o Homem vivo». Assim Deus permita que reescrevamos o evangelho e transformemos em aceitação, no presente, o que evangelicamente é referido como rejeição, no passado, de Jesus.

*Docente de Sagrada Escritura
na Faculdade de Teologia
da Universidade católica portuguesa

David Palatino *