· Cidade do Vaticano ·

Festa de aniversário com as crianças do Dispensário Santa Marta

O dedo no bolo com Francisco

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21 dezembro 2021

Se o Papa Francisco pega delicadamente na mão de uma criança e “a ajuda” a pôr um dedo no creme do seu bolo de aniversário e depois não se zanga — aliás, sorri, compreende — quando, quase em coro, os mais pequeninos respondem pouco convictos ao convite para ajudar também as pessoas que não nos amam... pois bem, há todos os ingredientes da simplicidade e franqueza de uma festa em família. E que festa, na manhã de domingo 19 de dezembro, na Sala Paulo vi! E que família!

Uma festa, sim... mas, na realidade, houve duas festas numa! O tradicional encontro de Natal das famílias pobres com crianças assistidas no Vaticano pelo Dispensário Santa Marta coincide com a festa de aniversário do Papa Francisco, que na sexta-feira passada, 17 de dezembro, completou 85 anos. Aniversário, portanto, deveras em família: a comunidade do Dispensário é “vizinha de casa” do Pontífice no Vaticano: a “uni-los”, de facto, é o estreito beco do Perugino.

As crianças, depois de um vídeo ter mostrado a vida diária no Dispensário, deram vida a uma pequena “peça de Natal” cheia de sinais claros e compreensíveis, tal como se faz nas paróquias. Concentrando-se nalguns gestos e palavras para recordar a escuta, a atenção, a gratuidade, a gratidão. “Palavras-chave” que Francisco fez suas no diálogo que estabeleceu diretamente com as crianças. Também em tom de brincadeira, “como pároco”, precisamente para os envolver o mais possível.

«Olhar e ouvir para ajudar os outros» foi a sugestão essencial que, com simplicidade, Francisco partilhou com as crianças, juntamente com o bolo preparado pelo chef Emanuele Simone, com a sua Societas panis solidária. «Ajudar-se como bons amigos, como irmãos. Mas pergunto: se eu sair à rua e vir uma pessoa má, mas que sente frio, fome, o que devo fazer? O que é melhor: vou embora ou paro?». mesmo que aquela pessoa «dispare contra mim?». A algumas das respostas das crianças «se for mau é melhor não parar», o Papa — sempre com o sorriso pela “sinceridade” das crianças — respondeu com um encorajamento, inspirando-se precisamente nas palavras e gestos da peça: «Vimos aqui alguns que fizeram um pouco de teatro: um personagem estava com frio, estava lá, outro tinha fome, estava ali, e as pessoas passavam e olhavam mas não viam: um lia o jornal, outro ia embora. Significa que devemos olhar e ouvir as necessidades das pessoas. Há sempre pessoas que precisam de nós, mas se não as olharmos no rosto, nunca compreenderemos as suas necessidades. E ouvir é uma palavra importante. Uma pessoa que não ouve os outros, só ouve a si mesma. Aborrece ouvir-se a si mesmo: é melhor ouvir os outros. E quando ouves os outros, consegues compreender as necessidades e os desejos».

O Papa Francisco chegou à Sala Paulo vi por volta das 9h45, através da pequena “aldeia” simbólica de Natal montada no átrio para dar dignidade e espírito comunitário à entrega de roupas, brinquedos, panetones, doces e também do almoço. Para assegurar que, como é o estilo do Dispensário, o ato de solidariedade não seja “de cima” mas verdadeiramente fraterno e partilhado. Este é o significado da colaboração com os voluntários do Dispensário de 40 representantes da Athletica Vaticana, associação desportiva oficial da Santa Sé: estar juntos, como uma verdadeira família e não apenas a dizer que somos “todos irmãos”.

Na Sala, ao lado do cardeal esmoler Konrad Krajewski, presidente da Fundação do Dispensário, estava a diretora, irmã Antonietta Collacchi, que recordou a Francisco o sentido desta «festa em família, como se estivéssemos no oratório de uma paróquia: sem formalidades, sem desperdícios, mas com uma grande vontade de festejar o dom da vida, a beleza do Natal verdadeiro». Ao seu lado, os muitos protagonistas do Dispensário que não interromperam as atividades nem sequer durante a pandemia: Javier, Valentina, os voluntários, os médicos...

E foi precisamente Fabrizio Michielan — com os seus 27 anos de trabalho voluntário e fortalecido pelo facto de ser membro da Associação dos Santos Pedro e Paulo, representada na Sala pelo presidente — que deu voz à experiência dos cinquenta médicos que prestam gratuitamente o seu serviço profissional a crianças e mães: «O Dispensário oferece escuta, assistência médica, psicológica, serviços de secretariado social e apoio a famílias de todas as origens e crenças religiosas, sem qualquer distinção nem preferência, como sinal do máximo acolhimento e generosidade que distingue a Santa Sé e todos os bons cristãos».

E exatamente sobre a generosidade, insistiu Michielan, há cem anos — o “aniversário será a 8 de maio de 2022” — «foi fundado o Dispensário onde nós, voluntários, procuramos do melhor modo possível tornar-nos úteis, pondo-nos ao serviço do próximo». E assim «doamos sobretudo escuta, afeto, compreensão e proximidade às famílias que acompanhamos, sem qualquer pretensão embora, confesso, seja sempre particularmente apreciado o sorriso que nos é oferecido, não obstante infelizmente, hoje, sejamos obrigados pela pandemia a lê-lo através da expressão dos olhos, que são igualmente explícitos».

A generosidade, salientou o médico, deriva do compromisso de seguir os ensinamentos de Jesus que deu a vida por todos. «Também Vossa Santidade, Papa Francisco, nos convida a este caminho», disse Michielan, dirigindo-se ao Pontífice. «As suas exortações a amar e ajudar o próximo sem distinção guiam-nos no serviço voluntário e na vida quotidiana. Vossa Santidade impele-nos — concluiu o médico — a oferecer generosidade para combater o egoísmo, a hipocrisia, exorta-nos a abater muros e a remover arames farpados para criar pontes de fraternidade, como nos ensinou na encíclica Fratelli tutti».

O Papa deixou a Sala após cerca de uma hora, acompanhado pelas canções, centradas nas suas palavras, do “Minicoro” de Rovereto — há anos amigo do Dispensário — que, contudo, devido à Covid, não pôde estar fisicamente presente no Vaticano para a festa. Mas ser comunidade significa abraçar-se também “à distância”, recordou Francisco.

Giampaolo Mattei