· Cidade do Vaticano ·

Viagem do Papa Francisco na Grécia

«Por favor, paremos este naufrágio de civilização!»

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
07 dezembro 2021

Um apelo sincero a não deixar que o “mare nostrum” se torne um desolador “mare mortuum” e a parar o que ele chamou um “naufrágio da civilização” foi lançado pelo Papa Francisco na manhã de domingo, 5 de dezembro, da ilha de Lesbos. O Pontífice regressou ali durante a sua 35ª viagem internacional, cinco anos após a visita de 16 de abril de 2016. Voou de Atenas para Mytilene, capital da ilha grega, onde o ordinário local D. Josif Printezis, arcebispo de Naxos, Andros, Tinos e Míconos se uniu ao séquito. Em seguida o bispo de Roma transferiu-se para o Centro de acolhimento e identificação para visitar os refugiados. Após os testemunhos de um hóspede do centro e de um voluntário que presta assistência, Francisco proferiu o seguinte discurso.

Queridos irmãos e irmãs!

Obrigado pelas vossas palavras! Agradeço-lhe, Senhora Presidente, a presença e as suas palavras. Irmãs, irmãos, vim de novo aqui para vos encontrar. Estou aqui para vos certificar da minha proximidade, e faço-o com o coração. Estou aqui para contemplar os vossos rostos, para ver-vos olhos nos olhos. Olhos cheios de medo e ansiedade, olhos que viram violência e pobreza, olhos sulcados por demasiadas lágrimas. Há cinco anos, nesta ilha, o Patriarca Ecuménico e querido Irmão Bartolomeu disse algo que me impressionou: «Quem tem medo de vós, não vos fixou nos olhos. Quem tem medo de vós, não viu os vossos rostos. Quem tem medo de vós, não vê os vossos filhos. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e a divisão. Esquece que a migração não é um problema do Médio Oriente e do norte da África, da Europa e da Grécia. É um problema do mundo inteiro» (Discurso, 16 de abril de 2016).

Sim, é um problema mundial, uma crise humanitária que diz respeito a todos. A pandemia atingiu-nos globalmente, fez com que todos nos sentíssemos no mesmo barco, fez-nos experimentar o que significa ter os mesmos temores. Compreendemos que as grandes questões devem ser enfrentadas em conjunto, porque, no mundo atual, são inadequadas as soluções fragmentadas. Mas, enquanto as vacinações se estão a efetuar fadigosamente a nível planetário e algo parece mover-se, embora por entre inúmeros atrasos e incertezas, na luta contra as mudanças climáticas, tudo parece baldar-se terrivelmente no que diz respeito às migrações. E, no entanto, há pessoas, vidas humanas em jogo. Está em jogo o futuro de todos, que, só poderá ser sereno, se for integrador. Só se aparecer reconciliado com os mais frágeis é que o futuro será próspero. Pois quando são repelidos os pobres, repele-se a paz. Fechamentos e nacionalismos — a história no-lo ensina — levam a consequências desastrosas. Com efeito, como recordou o Concílio Vaticano ii , são «absolutamente necessárias para a edificação da paz (...) a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens e povos e a prática assídua da fraternidade» (Gaudium et spes, 78). É uma ilusão pensar que seja suficiente salvaguardar-se a si mesmo, defendendo-se dos mais frágeis que batem à porta. O futuro colocar-nos-á ainda mais em contacto uns com os outros. Para bem encaminhá-lo, não servem ações unilaterais, mas políticas de longo alcance. A história — repito — no-lo ensina, mas ainda não aprendemos. Não se volte as costas à realidade, acabe o contínuo descarregar de responsabilidades para os outros, nem se delegue sempre para outros a questão migratória, como se a ninguém importasse e fosse apenas um peso inútil que alguém é obrigado a carregar.

Irmãs, irmãos, os vossos rostos, os vossos olhos pedem-nos para não vos virarmos as costas, não renegarmos a humanidade que nos irmana, para assumirmos as vossas histórias e não esquecermos os vossos dramas. Assim escreveu Elie Wiesel, testemunha da maior tragédia do século passado: «É porque recordo a nossa origem comum que me aproximo dos homens meus irmãos. É porque me recuso a esquecer que o futuro deles é tão importante como o meu» (From the Kingdom of Memory, Reminiscenses, Nova York, 1990, 10). Neste domingo, peço a Deus que nos acorde da indiferença por quem sofre, nos sacuda do individualismo que exclui, desperte os corações surdos às necessidades dos outros. E peço também ao homem, a todo o homem: superemos a paralisia do medo, a indiferença que mata, o desinteresse cínico que, com luvas de veludo, condena à morte quem está colocado à margem. Contrariemos na sua raiz o pensamento dominante, aquele que gira em torno do próprio eu, dos próprios egoísmos pessoais e nacionais que se tornam medida e critério de tudo.

Passaram-se cinco anos desde a visita que aqui fiz com os queridos Irmãos Bartolomeu e Ieronymos. Depois de todo este tempo, constatamos que pouca coisa mudou na questão migratória. Muitos, sem dúvida, se empenharam no acolhimento e na integração, e quero agradecer aos numerosos voluntários e a quantos nos vários níveis — institucional, social, caritativo, político — arcaram com grandes fadigas ocupando-se das pessoas e da questão migratória. Reconheço o esforço realizado para financiar e construir estruturas de acolhimento dignas e de coração agradeço à população local pelo grande bem que fizeram e os inúmeros sacrifícios que suportaram. E quero agradecer também às autoridades locais, que estão empenhadas em receber, abrigar e fazer avançar estas pessoas que chegam aqui. Obrigado! Obrigado por tudo o que fazem! Com amargura, porém, temos de admitir que este país, à semelhança de outros, continua sob pressão e que, na Europa, há quem persista em tratar o problema como um assunto que não lhe diz respeito. Isto é trágico. Recordo, [Senhora Presidente], as suas palavras finais: «Que a Europa faça o mesmo». E quantas condições indignas do homem! Quantos pontos de triagem onde migrantes e refugiados vivem em condições que estão no limite da suportação, sem se vislumbrar no horizonte qualquer solução! E todavia o respeito pelas pessoas e pelos direitos humanos, especialmente no continente que não deixa de os promover no mundo, deveria ser sempre salvaguardado e a dignidade de cada um deveria ter prioridade sobre tudo. É triste ouvir propor, como solução, o uso de fundos comuns para construir muros, para levantar barreiras de arame farpado. Estamos na época dos muros e do arame farpado. Claro, compreendem-se os medos e inseguranças, as dificuldades e perigos. Fazem-se sentir o cansaço e a frustração, agravados pelas crises económica e pandémica, mas não é erguendo barreiras que se resolvem os problemas e melhora a convivência. Antes pelo contrário, é unindo as forças para cuidar dos outros segundo as possibilidades reais de cada um e no respeito da legalidade, colocando sempre em primeiro lugar o valor incancelável da vida de cada homem, de cada mulher, de toda a pessoa. A propósito afirma o referido Elie Wiesel: «Quando as vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está em perigo, as fronteiras nacionais tornam-se irrelevantes» (Discurso ao receber o prémio Nobel da Paz, 10 de dezembro de 1986).

Em várias sociedades, há quem esteja, de forma ideológica, a contrapor segurança e solidariedade, local e universal, tradição e abertura. Mais do que tomar partido pelas ideias, ajuda partir da realidade: parar, estender o olhar, fazê-lo penetrar nos problemas da maioria da humanidade, de tantas populações vítimas de emergências humanitárias que não criaram, mas têm de as suportar, frequentemente, depois de longas histórias de exploração ainda em curso. É fácil arrastar a opinião pública incutindo o medo do outro; mas por que motivo não se fala, com o mesmo brio, da exploração dos pobres, das guerras esquecidas e muitas vezes lautamente financiadas, dos acordos económicos feitos na pele do povo, das manobras ocultas para contrabandear armas e fazer proliferar o seu comércio? Por que motivo não se fala disto? Há que enfrentar as causas remotas, não as pessoas pobres que pagam as suas consequências, acabando até por ser usadas para propaganda política. Para remover as causas profundas, não basta apenas resolver as emergências. São necessárias ações concordadas. É preciso abordar as mudanças epocais com grandeza de visão, porque não há respostas fáceis para problemas complexos. Em vez disso, impõe-se acompanhar os processos a partir do seu interior para superar os guetos e favorecer uma integração lenta e indispensável, para acolher de modo fraterno e responsável as culturas e as tradições alheias.

Se quisermos recomeçar, olhemos sobretudo os rostos das crianças. Tenhamos a coragem de nos envergonhar à vista delas, que são inocentes e constituem o futuro. Interpelam as nossas consciências, perguntando-nos: «Que mundo nos quereis dar?» Não fujamos apressadamente das cruas imagens dos seus corpinhos estendidos, inertes, nas praias. O Mediterrâneo, que uniu durante milénios povos diferentes e terras distantes, está a tornar-se um cemitério frio sem lápides. Esta grande bacia hidrográfica, berço de tantas civilizações, agora parece um espelho de morte. Não deixemos que o mare nostrum se transforme num desolador mare mortuum, que este lugar de encontros se transforme no palco de confrontos. Não permitamos que este «mar das memórias» se transforme no «mar do esquecimento». Por favor, irmãos e irmãs, paremos este naufrágio de civilização!

Nas margens deste mar, Deus fez-se homem. A sua Palavra ecoou, trazendo o anúncio de Deus, que é «Pai e guia de todos os homens» ( São Gregório Nazianzeno , Discurso 7 para o irmão Cesário, 24). Ele ama-nos como filhos e quer-nos irmãos. Ao contrário, ofende-se Deus, desprezando o homem criado à sua imagem, deixando-o à mercê das ondas, num vaivém de indiferença, às vezes justificada até em nome de pretensos valores cristãos. Ao contrário, a fé pede compaixão e misericórdia; não esqueçamos qual é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura. A fé exorta à hospitalidade, àquela filoxenia que permeou a cultura clássica, encontrando depois em Jesus a sua manifestação definitiva, sobretudo na parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37) e nas palavras do capítulo 25 do Evangelho de Mateus (cf. vv. 31-46). Não é ideologia religiosa, são raízes cristãs concretas. Jesus afirma solenemente que está ali no estrangeiro, no refugiado, no nu e no faminto. E o programa cristão é encontrar-se onde Jesus está. Sim, porque «o programa do cristão — escreveu o Papa Bento xvi — é “um coração que vê”» (Carta enc. Deus caritas est, 31). E não quero terminar estas minhas palavras sem agradecer o acolhimento praticado pelo povo grego. Muitas vezes este acolhimento torna-se um problema, porque não se encontram vias de saída para as pessoas irem para outro lugar. Obrigado, irmãos e irmãs gregos, por esta generosidade!

Agora rezemos a Nossa Senhora para que nos abra os olhos aos sofrimentos dos irmãos. Ela pôs-se a caminho apressadamente para ir ter com a prima Isabel, que estava grávida. Quantas mães grávidas, apressadas e em viagem, encontraram a morte enquanto levavam no ventre a vida! Que a Mãe de Deus nos ajude a ter um olhar materno, que veja nos homens filhos de Deus, irmãs e irmãos que devemos acolher, proteger, promover, integrar e... amar ternamente. Que a Toda Santa nos ensine a colocar a realidade do homem antes das ideias e das ideologias, e a mover, rápido, os passos ao encontro de quem sofre.

Agora, todos juntos, rezemos a Nossa Senhora.

[recitação do Angelus].