· Cidade do Vaticano ·

Viagem do Papa Francisco em Chipre

Gestos de força e retaliações

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07 dezembro 2021

Depois de sair da catedral maronita de Nicósia, no final da tarde de 2 de dezembro, Francisco foi ao Palácio presidencial para a cerimónia de boas-vindas a Chipre e a visita de cortesia ao presidente da República Nicos Anastasiades. No final, o chefe de Estado e o Papa dirigiram-se ao salão cerimonial da residência para o encontro com as autoridades políticas e religiosas, os representantes da sociedade civil e os membros do corpo diplomático acreditados na capital cipriota. Após a saudação do presidente Anastadies, o Pontífice proferiu o seguinte discurso.

Senhor Presidente da República
Ilustres Membros do Governo
e do Corpo Diplomático
Distintas Autoridades
religiosas e civis
Insignes Representantes
da sociedade
e do mundo da cultura
Senhoras e Senhores!

Saúdo-vos cordialmente, testemunhando a minha alegria por estar aqui. Agradeço-lhe, Senhor Presidente, o acolhimento que me reservou em nome de todo o povo. Vim como peregrino a um país geograficamente pequeno, mas grande pela história; a uma ilha que ao longo dos séculos não isolou as pessoas, mas interligou-as; a uma terra cuja fronteira é o mar; a um lugar que assinala a porta oriental da Europa e a porta ocidental do Médio Oriente. Sois uma porta aberta, um porto que une: Chipre, encruzilhada de civilizações, traz em si a vocação inata ao encontro, favorecida pelo caráter acolhedor dos cipriotas.

Acabamos de homenagear o primeiro Presidente desta República, o Arcebispo Makarios, e, na realização deste gesto, quis homenagear todos os cidadãos. O seu nome, Makarios, evoca as palavras iniciais do primeiro discurso de Jesus: as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12). Quem é makarios, quem é verdadeiramente bem-aventurado segundo a fé cristã, à qual está indivisivelmente ligada esta terra? Todos podem ser bem-aventurados, mas são-no em primeiro lugar os pobres em espírito, os feridos pela vida, os que vivem com mansidão e misericórdia, os que sem dar nas vistas praticam a justiça e constroem a paz. As bem-aventuranças, queridos amigos, são a Constituição perene do cristianismo. Vivê-las permite ao Evangelho ser sempre jovem e fecundar de esperança a sociedade. As bem-aventuranças são a bússola que orienta, em todas as latitudes, as rotas que os cristãos empreendem na viagem da vida.

Precisamente daqui, onde se encontram Europa e Oriente, começou a primeira grande inculturação do Evangelho no continente, sendo com profunda emoção que percorro os passos dos grandes missionários das origens, em particular de São Paulo, São Barnabé e São Marcos. Aqui estou peregrino entre vós para caminhar convosco, queridos cipriotas; com todos vós, no desejo de que a boa nova do Evangelho daqui leve uma mensagem feliz à Europa sob o signo das bem-aventuranças. De facto, aquilo que os primeiros cristãos deram ao mundo, com a força suave do Espírito, foi uma mensagem de beleza sem precedentes. Foi a surpreendente novidade da bem-aventurança ao alcance de todos que conquistou os corações e a liberdade de muitos. Este país possui uma herança particular em tal sentido, como mensageiro de beleza entre os continentes. Chipre refulge de beleza no seu território, que deve ser protegido e salvaguardado com oportunas políticas ambientais concordadas com os vizinhos. A beleza transparece também na arquitetura, na arte — especialmente sacra —, no artesanato religioso, nos inúmeros tesouros arqueológicos. Tomando uma imagem do mar que nos rodeia, gostaria de dizer que esta ilha representa uma pérola de grande valor no coração do Mediterrâneo.

Com efeito, uma pérola torna-se naquilo que é, porque se forma com o tempo: requer anos para que as várias estratificações a tornem compacta e reluzente. De igual modo a beleza desta terra deriva das culturas que se cruzaram e misturaram ao longo dos séculos. Mesmo hoje a luz de Chipre tem muitas tonalidades: muitos são os povos e as raças que, com cores diferentes, compõem a gama cromática desta população. Penso também na presença de muitos imigrantes, a percentagem mais significativa entre os países da União Europeia. Guardar a beleza multicolor e poliédrica do conjunto não é fácil; requer, como na formação da pérola, tempo e paciência, exige um olhar amplo que abrace a variedade das culturas e se incline para o futuro com clarividência. Neste sentido, é importante tutelar e promover todas as componentes da sociedade, de forma especial aquelas que são estatisticamente minoritárias. Penso também nos vários entes católicos que poderiam beneficiar de um oportuno reconhecimento institucional, de modo que o contributo prestado à sociedade através das suas atividades, nomeadamente educativas e caritativas, esteja bem definido sob o ponto de vista legal.

Uma pérola gera a sua beleza em circunstâncias difíceis. Nasce na obscuridade, quando a ostra «padece» depois de ter sofrido uma visita inesperada que mina a sua incolumidade, como, por exemplo, um grão de areia que a irrita. Para se proteger, reage assimilando aquilo que a feriu: envolve o que é perigoso e estranho para ela e transforma-o em beleza, numa pérola. A pérola de Chipre viu-se obscurecida pela pandemia, que impediu muitos visitantes de entrar e ver a sua beleza, agravando — como noutros lugares — as consequências da crise económico-financeira. Neste período de retoma, porém, não há de ser a ânsia de recuperar o perdido que pode garantir um desenvolvimento sólido e duradouro, mas o empenho em promover a sanidade da sociedade, particularmente através de uma decidida luta à corrupção e às pragas que lesam a dignidade da pessoa; penso, por exemplo, no tráfico de seres humanos.

Mas a ferida que mais faz sofrer esta terra, é causada pela terrível laceração que padeceu nas últimas décadas. Penso no sofrimento interior de quantos não podem voltar para as suas casas e locais de culto. Rezo pela vossa paz, pela paz de toda a ilha, e almejo-a com todas as forças. O caminho da paz, que sara os conflitos e regenera a beleza da fraternidade, está marcado por uma palavra — diálogo — que Vossa Excelência, Senhor Presidente, repetiu várias vezes. Devemos ajudar-nos a crer na força paciente e serena do diálogo (a força da paciência, de «carregar às costas», hypomoné), haurindo-a das bem-aventuranças. Sabemos que não é uma estrada fácil; é longa e tortuosa, mas não há alternativa para se chegar à reconciliação. Alimentemos a esperança com a força dos gestos, em vez de esperar em gestos de força. Pois há um poder dos gestos que prepara a paz: não o dos gestos de poder, das ameaças de retaliação e das demonstrações de força, mas o dos gestos de distensão, dos passos concretos de diálogo. Penso, por exemplo, no empenho de se predispor para um debate sincero que coloque em primeiro lugar as necessidades da população, num envolvimento cada vez mais ativo da comunidade internacional, na salvaguarda do património religioso e cultural, na restituição de quanto neste sentido é particularmente caro às pessoas, como os lugares ou pelo menos as alfaias sagradas. A este respeito, gostaria de exprimir apreço e encorajamento relativamente ao Religious Track of the Cyprus Peace Project, promovido pela Embaixada da Suécia, para que se cultive o diálogo entre os líderes religiosos.

São precisamente os tempos que não parecem propícios e em que definha o diálogo que podem preparar para a paz. Recorda-no-lo ainda a pérola, que se torna tal na paciência obscura de tecer novas substâncias juntamente com o agente que a feriu. Nestas situações, não se deixe prevalecer o ódio, não se desista de curar as feridas, não se esqueça a situação das pessoas desaparecidas. E quando vier a tentação de desanimar, pense-se nas gerações futuras, que desejam herdar um mundo pacificado, colaborador, coeso, não habitado por rivalidades perenes e poluído por disputas não resolvidas. Para isso serve o diálogo, sem o qual crescem a suspeita e o ressentimento. Tomemos como referência o Mediterrâneo, agora lugar infelizmente de conflitos e tragédias humanitárias; na sua beleza profunda, é o mare nostrum, o mar de todos os povos que se banham nele para estar ligados, não divididos. Chipre, encruzilhada geográfica, histórica, cultural e religiosa, tem esta posição para implementar uma ação de paz. Seja um estaleiro aberto de paz no Mediterrâneo.

Com frequência, a paz não nasce dos grandes personagens, mas da determinação diária — a determinação de todos os dias — dos mais pequenos. O continente europeu precisa de reconciliação e unidade, tem necessidade de coragem e ímpeto para seguir em frente. Pois não serão os muros do medo e os vetos ditados por interesses nacionalistas que ajudarão o seu progresso, nem a recuperação económica por si só poderá garantir a sua segurança e estabilidade. Olhemos a história de Chipre e vejamos como o encontro e o acolhimento deram frutos benéficos a longo prazo: não só no que se refere à história do cristianismo, para a qual Chipre foi «a rampa de lançamento» no continente, mas também para a construção de uma sociedade que encontrou a sua riqueza na integração. Este espírito de alargamento, esta capacidade de olhar para além das próprias fronteiras rejuvenesce, permite reencontrar o brilho perdido.

Referindo-se a Chipre, os Atos dos Apóstolos contam que Paulo e Barnabé «percorreram toda a ilha até Pafos» (13, 6). Para mim é uma alegria atravessar nestes dias a história e a alma desta terra, com a esperança que o seu anseio de unidade e a sua mensagem de beleza lhe continuem a guiar o caminho. O Theós na evloghí tin Kípro [Deus abençoe Chipre]!