· Cidade do Vaticano ·

Amar significa escolher a responsabilidade da vida

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07 dezembro 2021

«Amar não significa esperar que a outra pessoa ou vida corresponda à nossa imaginação; significa, antes, escolher com total liberdade assumir a responsabilidade pela vida tal como nos é oferecida», frisou o Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira, 1 de dezembro, continuando a catequese dedicada a São José na sala Paulo vi . Centrando-se em particular na sua figura de homem justo e esposo de Maria, o Pontífice dirigiu-se em particular aos noivos e aos recém-casados.

Estimados irmãos e irmãs
bom dia!

Continuemos o nosso caminho de reflexão sobre a figura de São José. Hoje gostaria de explorar o seu ser “justo” e “noivo de Maria”, e assim dar uma mensagem a todos os noivos, incluindo os recém-casados. Muitos acontecimentos ligados a José são contados nos evangelhos apócrifos, ou seja, evangelhos não canónicos, que também influenciaram a arte e vários lugares de culto. Estes escritos, que não estão na Bíblia — são histórias que a piedade cristã narrava naquele tempo — respondem ao desejo de preencher as lacunas narrativas dos Evangelhos canónicos, aqueles que estão na Bíblia, os quais nos proporcionam tudo o que é essencial para a fé e a vida cristã.

O evangelista Mateus. Isto é importante: o que diz o Evangelho sobre José? Não o que dizem os evangelhos apócrifos, que não são negativos nem maus; são bonitos, mas não são a Palavra de Deus. Ao contrário, os Evangelhos, que estão na Bíblia, são a Palavra de Deus. Entre eles está o evangelista Mateus que define José um homem “justo”. Ouçamos a sua narração: «Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua Mãe, desposada com José, antes de coabitarem, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. José, seu marido, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente» (1, 18-19). Pois os noivos, quando a noiva não era fiel ou engravidava, deviam denunciá-la! E as mulheres naquele tempo eram apedrejadas. Mas José era justo. E disse: “Não, eu não farei isto. Ficarei calado”.

Para compreender o comportamento de José em relação a Maria, é útil recordar os costumes matrimoniais do antigo Israel. O matrimónio incluía duas fases bem definidas. A primeira era um noivado oficial, que já implicava uma nova situação: em particular, a mulher, embora continuasse a viver na casa paterna por mais um ano, era de facto considerada a “esposa” do noivo. Ainda não viviam juntos, mas era como se ela fosse sua esposa. O segundo ato era a transferência da noiva da casa paterna para a casa do noivo. Isto acontecia com uma procissão festiva, que completava o matrimónio. E as amigas da noiva acompanhavam-na até lá. De acordo com estes costumes, o facto que «antes que fossem viver juntos, Maria estava grávida», expunha a Virgem à acusação de adultério. E esta culpa, segundo a Lei antiga, devia ser punida com a lapidação (cf. Dt 22, 20-21). No entanto, na prática judaica posterior, uma interpretação mais moderada tinha-se tornado realidade e apenas impunha o ato de repúdio, com consequências civis e penais para a mulher, mas não a lapidação.

O Evangelho diz que José era “justo” precisamente porque estava sujeito à lei como qualquer israelita piedoso. Mas dentro dele, o amor por Maria e a confiança nela sugeriam um modo de salvar a observância da lei e a honra da sua esposa: ele decidiu dar-lhe o ato de repúdio em segredo, sem clamor, sem a sujeitar à humilhação pública. Escolheu o caminho do segredo, sem julgamento nem vingança. Mas quanta santidade em José! E nós, que quando sabemos de notícias folclóricas ou negativas sobre alguém, vamos imediatamente bisbilhotar! José, ao contrário, permanece calado.

Mas o evangelista Mateus acrescenta: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que Ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados» (1, 20-21). A voz de Deus intervém no discernimento de José e, através de um sonho, revela-lhe um significado maior do que a sua própria justiça. E como é importante para cada um de nós cultivar uma vida justa e, ao mesmo tempo, sentir que estamos sempre a precisar da ajuda de Deus! Para poder alargar os nossos horizontes e considerar as circunstâncias da vida sob um ponto de vista diferente e mais amplo. Muitas vezes sentimo-nos prisioneiros pelo que nos aconteceu: “Mas vejam o que me aconteceu!” e continuamos prisioneiros daquela situação má que nos aconteceu; mas precisamente perante algumas circunstâncias da vida, que inicialmente parecem dramáticas, existe uma Providência que com o tempo ganha forma e ilumina com significado até a dor que nos atingiu. A tentação é fecharmo-nos nessa dor, nesse pensamento das coisas desagradáveis que nos aconteceram. E isto não é bom. Leva à tristeza e à amargura. É tão triste um coração amargo.

Gostaria que fizéssemos uma pausa e refletíssemos sobre um pormenor desta história narrada no Evangelho que muitas vezes ignoramos. Maria e José são dois noivos que provavelmente tinham sonhos e expetativas sobre as suas vidas e o seu futuro. Deus parece intervir como um acontecimento inesperado na sua vicissitude, embora com alguma dificuldade inicial, ambos abrem o coração para a realidade que lhes é apresentada.

Estimados irmãos e irmãs, muitas vezes as nossas vidas não são como as imaginamos. Especialmente nas relações de amor, de afeto, temos dificuldade em passar da lógica do enamoramento para a do amor maduro. Devemos passar do enamoramento para o amor maduro. Vós, recém-casados, pensai bem nisto. A primeira fase é sempre marcada por um certo encanto, que nos faz viver imersos num mundo imaginário que muitas vezes não corresponde à realidade dos factos. Mas precisamente quando o enamoramento com as suas expetativas parece chegar ao fim, nesse momento o verdadeiro amor pode começar. Com efeito, amar não é pretender que o outro ou a vida corresponda à nossa imaginação; pelo contrário, significa antes de tudo escolher com plena liberdade de assumir a responsabilidade pela vida que nos é oferecida. É por isso que José nos dá uma lição importante, ele escolheu Maria “de olhos abertos”. E podemos dizer que com todos os riscos. Pensai, o Evangelho de João narra a seguinte reprimenda que fazem os doutores da lei a Jesus: “Não somos filhos que provêm de lá”, referindo-se à prostituição. Porque sabiam como Maria tinha engravidado e queriam difamar a mãe de Jesus. Para mim este é o trecho mais sórdido e demoníaco do Evangelho. E o risco de José dá-nos esta lição: assumir a vida como vem. Deus interveio nela? Assumo-a. E José comportou-se como o anjo do Senhor lhe ordenara: de facto o Evangelho diz: «Despertando José do sono, fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua. E, sem que a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus» (Mt 1, 24-25). Os noivos cristãos são chamados a dar testemunho deste amor, que tem a coragem de passar da lógica do enamoramento para a do amor maduro. E esta é uma escolha exigente que, em vez de aprisionar a vida, pode fortalecer o amor para que seja duradouro face às provações do tempo. O amor de um casal continua na vida e amadurece todos os dias. O amor do noivado é um pouco — permiti que o diga — um pouco romântico. Vós o vivestes, mas depois começa o amor maduro, quotidiano, o trabalho, as crianças que chegam. E, por vezes, aquele romantismo desaparece um pouco. Mas não há amor? Sim, mas amor maduro. “Mas sabe, padre, por vezes discutimos...”. Isto acontece desde o tempo de Adão e Eva até aos dias de hoje: que os esposos discutam é o pão nosso de cada dia. “Mas não deveríamos discutir?”. Sim, é possível. “E padre, mas por vezes levantamos a voz” — “Acontece”. “E também por vezes voam os pratos” — “Acontece”. Mas o que fazer pata não prejudicar a vida do matrimónio? Escutai bem: nunca termineis o dia sem fazer as pazes. Tivemos uma discussão, disse-te coisas más, meu Deus, disse-te palavras feias. Mas agora o dia acaba: tenho de fazer as pazes. Sabeis porquê? Porque a guerra fria do dia seguinte é muito perigosa. Não deixeis que no dia seguinte comece uma guerra. É por isso que se deve fazer as pazes antes de ir dormir. Lembrai-vos sempre: nunca termineis o dia sem fazer as pazes. E isto irá ajudar-vos na vida matrimonial. Este percurso do enamoramento para o amor maduro é uma escolha exigente, mas devemos seguir por esse caminho.

E também desta vez concluímos com uma oração a São José.

São José,
Tu que amaste Maria
com liberdade e optaste
por renunciar à tua imaginação
para dar espaço à realidade,
ajuda cada um de nós
a deixar-nos surpreender
por Deus e acolher a vida
não como um imprevisto
do qual nos defender,
mas como um mistério
que esconde o segredo
da verdadeira alegria.
Obtém alegria e radicalidade
para todos os noivos cristãos,
mas conservando sempre
a consciência de que só
a misericórdia e o perdão tornam
possível o amor. Amém!

No Dia mundial contra a sida, o Papa Francisco recordou «as muitas pessoas afetadas por este vírus, para muitas das quais... o acesso ao tratamento essencial não está disponível», apelando a «um compromisso renovado de solidariedade para garantir cuidados de saúde equitativos». O Pontífice lançou o apelo saudando os fiéis presentes no final da catequese, entre os quais os de língua portuguesa.

Celebra-se hoje o Dia Mundial contra a Sida. É uma ocasião importante para recordar as muitas pessoas atingidas por este vírus, para muitas das quais, nalgumas partes do mundo, não está disponível o acesso às curas essenciais. Espero que haja um renovado compromisso de solidariedade para garantir tratamentos sanitários justos e eficazes.

Amanhã irei a Chipre e depois à Grécia para visitar as queridas populações desses países, ricos de história, espiritualidade e civilização. Será uma viagem às fontes da fé apostólica e da fraternidade entre cristãos de várias confissões. Terei também a oportunidade de me aproximar de uma humanidade ferida na carne de tantos migrantes em busca de esperança: irei a Lesbos. Peço-vos, por favor, que me acompanheis com a oração. Obrigado!

Queridos fiéis de língua portuguesa, uma saudação fraterna para todos vós, em particular para o grupo de enfermeiras, enfermeiros e outros profissionais de saúde em serviço no «Centro de Vacinação anti-Covid, de Braga». Faço votos de que a visita hodierna ao Túmulo de Pedro e este encontro com o seu Sucessor vos infundam uma grande coragem para abraçardes diariamente a vossa cruz e um vivo anseio de santidade para poderdes encher de esperança a cruz dos outros. Confio nas vossas orações. Obrigado pela visita!