· Cidade do Vaticano ·

Viagem do Papa Francisco em Chipre

À comunidade eclesial na catedral maronita de Nossa Senhora das Graças em Nicósia

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07 dezembro 2021

Na tarde de 3 de dezembro, depois de aterrar no aeroporto internacional de Larnaca, o Papa transferiu-se de carro para Nicósia onde, na catedral maronita de Nossa Senhora das Graças, se encontrou com os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, os diáconos, os catequistas, as associações e os movimentos eclesiais de Chipre. A seguir à saudação que lhe foi dirigida pelo patriarca de Antioquia dos maronitas e aos testemunhos de duas religiosas, uma franciscana e uma josefina, Francisco pronunciou o seu primeiro discurso em terra cipriota. Eis as suas palavras.

Beatitudes, queridos irmãos Bispos
Queridos sacerdotes
religiosas e religiosos
Caros catequistas, irmãos e irmãsΧαίρετε [Salve]!

Estou feliz por estar no meio de vós. Desejo expressar a minha gratidão ao Cardeal Béchara Boutros Raï pelas palavras que me dirigiu e saudar com afeto o Patriarca Pierbattista Pizzaballa. Obrigado a todos vós pelo vosso ministério e serviço; e de modo particular a vós, Irmãs, pela obra educativa que realizais na escola, muito frequentada pelas crianças e adolescentes da ilha, lugar de encontro, de diálogo, de aprendizagem da arte de construir pontes. Obrigado! Obrigado a todos pela vossa proximidade às pessoas, especialmente nos contextos sociais e laborais onde é mais difícil.

Confidencio-vos a alegria que sinto por visitar esta terra, caminhando como peregrino pelas pegadas do grande apóstolo Barnabé, filho deste povo, discípulo enamorado de Jesus, intrépido arauto do Evangelho que, ao passar pelas comunidades cristãs recém-nascidas, se regozijou vendo a graça de Deus em ação «e exortou-os a todos a que se conservassem unidos ao Senhor, de coração firme» (At 11, 23). E eu venho com o mesmo desejo: ver a graça de Deus em ação na vossa Igreja e na vossa terra, alegrar-me convosco pelas maravilhas que o Senhor realiza e exortar-vos a perseverar sempre, sem vos cansardes, sem nunca desanimardes. Deus é maior! Deus é maior do que as nossas contradições. Avante!

Contemplo-vos e vejo a riqueza da vossa diversidade. É verdade; uma bela «salada de fruta»! Todos diferentes. Saúdo a Igreja Maronita, que ao longo dos séculos desembarcou várias vezes na ilha e, atravessando frequentemente muitas provações, perseverou na fé. Quando penso no Líbano, sinto tanta preocupação com a crise em que o país se encontra e dou-me conta da grande tribulação de um povo cansado e provado pela violência e o sofrimento. Levo à minha oração o desejo de paz que sobe do coração daquele país. Agradeço-vos pelo que fazeis na Igreja, por Chipre. Na Sagrada Escritura, refere-se muitas vezes os cedros do Líbano como modelos de beleza e grandiosidade. Mas mesmo um cedro grande começa pelas raízes e germina lentamente. Vós sois estas raízes, transplantadas para Chipre a fim de espalhar a fragrância e a beleza do Evangelho. Obrigado!

Saúdo também a Igreja latina, aqui presente há milénios, que ao longo do tempo viu crescer, na pessoa dos seus filhos, o entusiasmo da fé e que hoje, graças à presença de muitos irmãos e irmãs migrantes, se apresenta como um povo «multicolor», um verdadeiro e concreto lugar de encontro entre etnias e culturas diferentes. Este rosto eclesial reflete o papel de Chipre no continente europeu: uma terra com os campos dourados, uma ilha acariciada pelas ondas do mar, mas sobretudo uma história que é entrelaçamento de povos e mosaico de encontros. Assim é também a Igreja: católica, isto é, universal, espaço aberto onde todos são acolhidos e abrangidos pela misericórdia de Deus e pelo convite a amar. Não há — e oxalá nunca existam — muros na Igreja católica. Não nos esqueçamos disto: ninguém de nós aqui foi chamado por proselitismo de um pregador. Nunca o esqueçamos! O proselitismo é estéril, não dá vida. Todos nós fomos chamados pela misericórdia de Deus, que não Se cansa de chamar, não Se cansa de estar perto, não Se cansa de perdoar. Onde estão as raízes da nossa vocação cristã? Na misericórdia de Deus. É preciso que nunca o esqueçamos. O Senhor não desilude; a sua misericórdia não dececiona. Sempre espera por nós. Não há — e oxalá nunca existam — muros na Igreja católica. Vo-lo peço por favor! É uma casa comum, é o lugar das relações, é a convivência da diversidade: este rito, aquele rito...; um pensa assim, esta irmã viu de um modo, aquela viu de outro… A diversidade de todos e, nesta diversidade, a riqueza da unidade. E quem faz a unidade? O Espírito Santo. E quem faz a diversidade? O Espírito Santo. Quem puder compreender, compreenda. Ele é o autor da diversidade, tal como é o autor da harmonia. Assim o dizia São Basílio: «Ipse harmonia est — ele próprio é a harmonia». É Ele quem faz a diversidade dos dons e a unidade harmoniosa da Igreja.

Caríssimos, gostaria agora de partilhar convosco algo sobre São Barnabé, vosso irmão e padroeiro, tirando da sua vida e missão duas palavras.

A primeira é paciência. Fala-se de Barnabé como um grande homem de fé e equilíbrio, que foi escolhido pela Igreja de Jerusalém — pode-se dizer pela Igreja Mãe — como a pessoa mais idónea para visitar uma nova comunidade, a de Antioquia, formada por recém-convertidos do paganismo. Foi enviado para ir ver o que estava a acontecer, quase como um explorador. Encontra lá pessoas originárias de um mundo diferente, com outra cultura, outra sensibilidade religiosa; pessoas que acabaram de se converter e por isso têm uma fé cheia de entusiasmo, mas ainda frágil, como ao princípio. Em toda esta situação, o comportamento de Barnabé é de grande paciência. Sabe esperar. Sabe esperar que a árvore cresça. É a paciência de se pôr constantemente em viagem; a paciência de entrar na vida de pessoas até então desconhecidas; a paciência de acolher a novidade sem formular juízos apressados; a paciência do discernimento, que sabe captar por toda a parte os sinais da ação de Deus; a paciência de «estudar» outras culturas e tradições. Barnabé tem sobretudo a paciência do acompanhamento: deixa crescer, acompanhando. Não esmaga a fé frágil dos recém-chegados com atitudes rigorosas, inflexíveis, nem com solicitações demasiado exigentes quanto à observância dos preceitos. Não. Deixa-os crescer, acompanha-os, toma-os pela mão, conversa com eles. Barnabé não se escandaliza, tal como um pai e uma mãe não se escandalizam com os filhos, acompanham-nos, ajudam-nos a crescer. Guardai isto na vossa mente: as divisões, o proselitismo dentro da Igreja não ajudam. Deixa crescer e acompanha. E se tiveres de repreender alguém, repreende, mas com amor, em paz. É o homem da paciência.

Precisamos de uma Igreja paciente, queridos irmãos e irmãs, de uma Igreja que não se deixa abalar e perturbar pelas mudanças, mas serenamente acolhe a novidade e discerne as situações à luz do Evangelho. Nesta ilha, é precioso o trabalho que vós realizais no acolhimento dos novos irmãos e irmãs que chegam doutras margens do mundo: como Barnabé, também vós sois chamados a cultivar um olhar paciente e solícito, ser sinais visíveis e credíveis da paciência de Deus que nunca deixa ninguém fora de casa, nunca deixa ninguém privado do seu terno abraço. A Igreja em Chipre vive de braços abertos: acolhe, integra, acompanha. É uma mensagem importante também para a Igreja em toda a Europa, marcada pela crise da fé: não adianta ser impulsivos, não adianta ser agressivos ou nostálgicos ou lamurientos, mas sim progredir lendo os sinais dos tempos e também os sinais da crise. É preciso recomeçar a anunciar o Evangelho com paciência, tomar na mão as bem-aventuranças, anunciá-las sobretudo às novas gerações. A vós, irmãos Bispos, gostaria de dizer: sede pastores pacientes na proximidade, nunca vos canseis de procurar Deus na oração, procurar os sacerdotes no encontro, os irmãos doutras Confissões cristãs com respeito e solicitude, os fiéis no local onde moram. E a vós, queridos sacerdotes que aqui vos encontrais, gostaria de dizer: sede pacientes com os fiéis, sempre prontos a encorajá-los, sede ministros incansáveis do perdão e da misericórdia de Deus. Nunca sejais juízes rigorosos, mas sempre pais amorosos.

Quando leio a parábola do filho pródigo, vejo que o irmão mais velho era um juiz rigoroso, enquanto o pai era misericordioso, a imagem do Pai que sempre perdoa; mais, que sempre está à espera de nós para nos perdoar! No ano passado, um grupo de jovens que faz espetáculos, com música pop, quiseram apresentar a parábola do filho pródigo cantada em música pop e criando diálogos... Muito lindo! Mas o mais bonito foi a discussão final, quando o filho pródigo vai ter com um amigo e diz-lhe: «Não posso continuar assim. Quero voltar para casa, mas tenho medo que o pai me feche a porta na cara, me expulse. Tenho medo disto e não sei como fazer» — «Mas o teu pai é bom!» — «Sim, mas — sabes? — está lá o meu irmão, que lhe dá voltas à cabeça». Quase no final daquela ópera pop sobre o filho pródigo, o amigo diz-lhe: «Faz assim: escreve ao teu pai e diz-lhe que queres regressar, mas tens medo de ser mal acolhido por ele. Diz ao teu pai que, se quiser acolher-te bem, coloque um lenço na janela mais alta da casa; assim o teu pai te dirá, antes, se te acolherá bem ou te expulsará». E termina aquele Ato. No Ato seguinte, o filho está a caminho da casa do pai. E quando ele percorria a estrada, ao fazer uma curva, dá com os olhos na casa do pai: estava cheia de lenços brancos! Cheia! Assim é Deus para nós. Assim é Deus para nós. Não Se cansa de perdoar. E quando o filho começa a falar: «Ai, senhor! Eu fiz...» — «Calado»; tapa-lhe a boca.

Vós, sacerdotes, por favor, não sejais rigoristas na Confissão. Quando virdes que uma pessoa está com dificuldade, dizei: «Compreendi, já compreendi». Isso não significa ser de «manga larga», não. Significa coração de pai, tal como Deus é coração de pai. A obra que o Senhor realiza na vida de cada pessoa é uma história sagrada: deixemo-nos apaixonar por ela. Na variedade multiforme do vosso povo, ter paciência significa também ter ouvidos e coração para diferentes sensibilidades espirituais, diversas formas de expressar a fé, variadas culturas. A Igreja não quer uniformizar — por favor, isto não! — mas integrar todas as culturas, todas as psicologias das pessoas, com paciência materna, porque a Igreja é mãe. É isto que desejamos fazer, com a graça de Deus, no itinerário sinodal: oração paciente, escuta paciente para uma Igreja dócil a Deus e aberta ao homem. Esta era a paciência, um dos aspetos de Barnabé.

Na história de Barnabé, há um segundo aspeto importante que gostaria de sublinhar: o seu encontro com Paulo de Tarso e a amizade fraterna entre ambos, que os levará a viverem juntos a missão. Depois da conversão de Paulo — antes era um perseguidor implacável dos cristãos, pelo que «todos tinham medo dele, não querendo acreditar que fosse um discípulo» (At 9, 26). Neste ponto, o livro dos Atos dos Apóstolos regista uma coisa belíssima — «Barnabé tomou-o consigo» (9, 27). Apresenta-o à comunidade, conta o que se passou com ele, garante por ele. Debrucemo-nos sobre a frase «tomou-o consigo». A expressão lembra a própria missão de Jesus, que tomou consigo os discípulos pelos caminhos da Galileia, que tomou sobre si a nossa humanidade ferida pelo pecado. É uma atitude de amizade, uma atitude de partilha de vida. Tomar consigo, tomar sobre si é ocupar-se da história do outro, esperar para o conhecer sem rotulá-lo — por favor, evite-se o pecado de rotular o outro — carregá-lo às costas quando está cansado ou ferido, como fez o bom samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Isto chama-se fraternidade. E esta é a segunda palavra, que gostava de vos dizer. A primeira, paciência; a segunda, fraternidade.

Como irmãos, Barnabé e Paulo viajam juntos para anunciar o Evangelho, mesmo no meio das perseguições. «Durante um ano inteiro, mantiveram-se juntos nesta Igreja [de Antioquia] e ensinaram muita gente» (At 11, 26). Depois, por vontade do Espírito Santo, ambos foram destinados para uma missão maior e «meteram-se num barco, rumo à ilha de Chipre» (At 13, 4). E a Palavra de Deus corria e crescia não só pelas qualidades humanas deles, mas sobretudo porque eram irmãos no nome de Deus e esta sua fraternidade fazia resplandecer o mandamento do amor. Irmãos diversos, diferentes — como os dedos de uma mão, que são todas diferentes — mas todos com a mesma dignidade. Irmãos. Mas, como sucede na vida, deu-se um facto inesperado: os Atos contam que os dois tiveram uma discussão tão violenta que os seus caminhos se separaram (cf. At 15, 39). Entre os irmãos também se discute, e às vezes até se litiga. Contudo Paulo e Barnabé separam-se, não por motivos pessoais, mas por uma divergência sobre o seu ministério, sobre como realizar a missão, e têm visões diferentes. Barnabé deseja levar em missão também o jovem Marcos; Paulo não quer. Discutem, mas a partir dalgumas cartas posteriores intui-se que não ficou rancor entre os dois. Ao escrever a Timóteo, que deve vir ter com ele em seguida, Paulo diz: «Vem ter comigo quanto antes. (…) Traz contigo Marcos [precisamente ele!], pois me será de grande ajuda no ministério» (2 Tm 4, 9.11). Isto é a fraternidade na Igreja: pode-se discutir sobre perspetivas, sobre pontos de vista — e convém fazê-lo, é conveniente, isto faz bem, um pouco de discussão faz bem — sobre sensibilidades e ideias diferentes, porque é mau nunca discutir. Quando existe esta paz demasiado rigorista, não é de Deus. Numa família, os irmãos discutem, trocam pontos de vista. Eu desconfio de quem nunca discute, porque sempre têm «agendas» escondidas. Esta é a fraternidade da Igreja: pode-se discutir sobre perspetivas, sobre sensibilidades, sobre ideias diferentes, e em alguns casos dizer coisas um ao outro com franqueza, isso ajuda em alguns casos, e não dizê-las por trás numa coscuvilhice que não faz bem a ninguém. A discussão é uma oportunidade de crescimento e mudança. Mas lembremo-nos sempre disto: discute-se, não para se fazer guerra nem para se impor, mas para expressar e viver a vitalidade do Espírito, que é amor e comunhão. Discute-se, mas continuamos irmãos. Nas minhas recordações de criança, lembro-me que éramos cinco e discutíamos entre nós, às vezes fortemente, não todos os dias, mas depois, à mesa, estávamos todos juntos. A discussão da família que tem uma mãe, a mãe Igreja: os filhos discutem.

Queridos irmãos e irmãs, temos necessidade de uma Igreja fraterna, que seja instrumento de fraternidade para o mundo. Aqui, em Chipre, existem muitas sensibilidades espirituais e eclesiais, histórias de proveniência diversas, de diferentes ritos, de várias tradições. Mas não devemos sentir a diversidade como uma ameaça à identidade, nem devemos tornar-nos ciumentos e apoquentar-nos com os respetivos espaços. Se cairmos nesta tentação, cresce o medo; o medo gera desconfiança; a desconfiança desemboca na suspeita e, mais cedo ou mais tarde, leva à guerra. Somos irmãos, com um único Pai que nos ama. Estais imersos no Mediterrâneo: um mar de histórias diferentes, um mar que deu o berço a várias civilizações, um mar do qual ainda hoje desembarcam pessoas, povos e culturas de todo o mundo. Com a vossa fraternidade, podeis recordar a todos, à Europa inteira que, para construir um futuro digno da humanidade, é preciso trabalhar juntos, superar as divisões, derrubar os muros e cultivar o sonho da unidade. Temos necessidade de nos acolhermos e integrarmos, de caminharmos juntos, de sermos todos irmãs e irmãos!

Agradeço-vos pelo que sois e pelo que fazeis, pela alegria com que anunciais o Evangelho e pelos esforços e as renúncias com que o sustentais e fazeis progredir. Este é o caminho traçado pelos santos apóstolos Paulo e Barnabé. Faço votos de que sejais sempre uma Igreja paciente, que discerne, que nunca se assusta, mas discerne, que acompanha e que integra; e uma Igreja fraterna, que abre espaço ao outro, discute mas permanece unida e cresce na discussão. Abençoo-vos a cada um de vós. E, por favor, continuai a rezar por mim, porque preciso! Efcharistó [Obrigado]!