· Cidade do Vaticano ·

Apelo do Papa aos participantes no 4º Fórum de Paris sobre a paz

Aos participantes no 4º Fórum de Paris sobre a paz

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23 novembro 2021

«Não pode haver cooperação que gere paz sem um compromisso coletivo concreto de desarmamento integral», escreveu Francisco numa mensagem enviada aos participantes no 4º Fórum de Paris sobre a paz, que decorreu de 11 a 13 de novembro.

Distintas Autoridades
Ilustres Senhoras e Senhores!

A cada um de vós, reunidos no 4º Forum de Paris sur la Paix, apresento as minhas cordiais saudações. Estou grato por esta oportunidade de encontro e reflexão; faço votos de que seja frutuosa e contribua para promover a paz, a boa governação e um futuro melhor para todos; que nos ajude a sair melhores da pandemia de Covid-19.

Nesta fase histórica, a família humana vê-se confrontada com uma escolha. A primeira possibilidade é a de um “regresso à normalidade”. Mas a realidade que conhecíamos antes da pandemia era aquela em que a riqueza e o crescimento económico eram reservados a uma minoria, enquanto milhões de pessoas permaneciam incapazes de satisfazer as necessidades mais básicas e de levar uma vida digna; um mundo em que a nossa Terra era pilhada por uma exploração míope dos recursos, pela poluição, pelo consumismo descartável (cf. Laudato si’, 22) e ferida por guerras e experiências com armas de destruição de massa. Um regresso à normalidade significaria também um regresso às velhas estruturas sociais inspiradas pela “autossuficiência, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento”, excluindo os nossos irmãos e irmãs mais pobres.1 Será este um futuro que podemos escolher?

Neste mundo globalizado, mas dilacerado, as decisões que tomamos hoje para sair da crise determinam o “rumo” para as gerações vindouras. Muitas vezes perdemos de vista o facto de sermos uma comunidade global e na qual «ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos» (Enc. Fratelli tutti, 32). Por estes motivos, precisamos de uma nova saída; temos de trabalhar em conjunto para sair melhores do que antes.2

A primeira e mais urgente questão em que devemos concentrar-nos é que não pode haver cooperação geradora de paz sem um compromisso coletivo concreto para o desarmamento integral. As despesas militares a nível mundial ultrapassaram agora o nível alcançado no final da “guerra fria” e estão a aumentar sistematicamente todos os anos. De facto, as classes dirigentes e os governos justificam este rearmamento referindo-se a uma ideia abusiva de dissuasão baseada num equilíbrio de armamentos. Nesta perspetiva, os Estados estão inclinados a prosseguir os seus interesses principalmente com base no uso ou ameaça da força. Tal sistema, porém, não garante a construção e a manutenção da paz. A ideia de dissuasão, de facto, revelou-se, em muitos casos, falaciosa, levando a grandes tragédias humanitárias. O Papa João xxiii já tinha declarado na sua Carta Encíclica Pacem in terris: «Em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua» (n. 113).

Deve-se salientar também que a lógica de dissuasão foi associada à lógica do mercado liberal de que o armamento pode ser considerado da mesma forma que todos os outros produtos manufaturados e, como tal, livremente comercializados em todo o mundo. Não é, por conseguinte, coincidência que durante anos tenhamos assistido, sem qualquer crítica, à expansão global do mercado de armas.

A pandemia foi uma revelação para todos nós sobre as limitações e deficiências das nossas sociedades e estilos de vida. No entanto, no meio desta realidade sombria, precisamos de ter esperança, pois a esperança é «geradora de energia, que estimula a inteligência e confere à vontade todo o seu dinamismo».3 A esperança convida-nos a sonhar grande e a dar espaço à imaginação de novas possibilidades. A esperança é ousada e incentiva a ação com base no conhecimento de que a realidade pode ser mudada.4 Os meus votos são para que a tradição cristã, particularmente a doutrina social da Igreja, bem como outras tradições religiosas, possam ajudar a dar-vos a esperança fiável de que a injustiça e a violência não são inevitáveis, não são o nosso destino.

Portanto, face às consequências da grande tempestade que abalou o mundo, a nossa consciência chama-nos a uma esperança responsável, ou seja, não a seguir o caminho confortável de regressar a uma “normalidade” marcada pela injustiça, mas a aceitar o desafio de assumir a crise como uma «oportunidade real para a conversão, a transformação, para repensar o nosso modo de vida e os nossos sistemas económicos e sociais».5 A esperança responsável permite-nos rejeitar a tentação de soluções fáceis e dá-nos a coragem de prosseguir no caminho do bem comum, cuidar dos pobres e da casa comum.

Não desperdicemos esta oportunidade de melhorar o nosso mundo; de adotar com decisão modalidades mais justas para alcançar o progresso e construir a paz. Animados por esta convicção, é possível gerar modelos económicos que sirvam as necessidades de todos, preservando os dons da natureza, bem como políticas clarividentes que promovam o desenvolvimento integral da família humana.6

Ilustres Senhoras e Senhores, enfrentemos juntos esta crise enquanto procuramos curar as feridas profundas da família humana. Que nos inspiremos nesta palavra que o profeta Jeremias dirigiu ao povo numa época de grande crise: «Sustai vossos passos e escutai; / informai-vos sobre os caminhos de outrora, / vede qual é a senda da salvação; segui-a, e encontrareis a quietude para vossas almas» (Jr 6, 16).

Desejo-vos bom trabalho e invoco sobre vós as bênçãos celestiais.

Vaticano, 30 de outubro de 2021

Francisco

1. Cf. Mensagem de vídeo por ocasião da 75ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, 25 de setembro de 2020.

2. Cf. Catequese “Curar o mundo”, 5. A solidariedade e a virtude da fé, 2 de setembro de 2020.

3. B ento xvi , Discurso às autoridades, Cotonou — Benim, 19 de novembro de 2011.

4. Cf. Catequese “Curar o mundo”, 9. Preparar o futuro com Jesus que salva e cura, 30 de setembro de 2020.

5. Mensagem de vídeo por ocasião da 75ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.

6. Cf. ibid.