· Cidade do Vaticano ·

Discurso às famílias reunidas na associação Retrouvaille

A crise como ocasião que ajuda a crescer

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23 novembro 2021

Hoje há necessidade de famílias capazes de testemunhar que «a crise não é uma maldição», mas «uma oportunidade» que «ajuda a crescer», afirmou o Papa Francisco dirigindo-se aos membros da associação Retrouvaille, recebidos em audiência na manhã de 6 de novembro, na sala Paulo vi .

Estimados irmãos e irmãs
bom dia e bem-vindos!

Agradeço a D. Dal Cin e aos cônjuges as palavras de saudação e de introdução. Apraz-me que durante este “Ano da Família Amoris laetitia” se realize também este encontro, dedicado aos casais que vivem uma crise, uma crise séria na sua relação. Isto é muito importante, não devemos ter medo da crise. A crise ajuda-nos a crescer, e o que devemos evitar é cair em conflito, pois quando caímos em conflito fecha-se o coração e não há, ou dificilmente há, solução para o conflito. No entanto, a crise faz-nos “dançar” um pouco, às vezes faz-nos sentir mal, mas podemos sair da crise, contanto que saiamos melhores. Não podemos sair iguais: ou saímos melhores ou piores. Isto é importante! E dificilmente podemos sair da crise sozinhos, devemos sair sempre todos da crise. Gosto disso. Não temamos a crise, tenhamos medo do conflito!

A primeira palavra que gostaria de compartilhar convosco é precisamente crise. Sobre esta palavra refletimos muitas vezes neste período de pandemia (cf. Discurso à Cúria, 21 de dezembro de 2020). E identifico-me com a vossa experiência, que convida a considerar a crise como oportunidade, sim, uma oportunidade dolorosa, mas uma oportunidade, neste caso uma oportunidade para dar um salto de qualidade na relação. Na Exortação Amoris laetitia há uma parte dedicada às crises familiares (cf. nn. 232-238). E aqui gostaria de acrescentar imediatamente outra palavra: feridas. Pois as crises das pessoas causam feridas, produzem chagas no coração e na carne. “Feridas” é uma palavra-chave para vós, faz parte do vocabulário diário de Retrouvaille. Faz parte da vossa história: com efeito, sois casais feridos que passaram pela crise e sararam; e exatamente por isso sois capazes de ajudar outros casais feridos. Não saístes, não vos afastastes na crise — “isto não funciona... volto para a casa da mãe” — enfrentastes a crise e procurastes uma solução.

Este é o vosso dom, a experiência que vivestes e pusestes ao serviço dos outros. Agradeço-vos muito por isto. É um dom precioso, tanto a nível pessoal como eclesial. Hoje há muita necessidade de pessoas, de cônjuges que saibam dar testemunho de que a crise não é uma maldição, faz parte do caminho e constitui uma oportunidade. E também nós, sacerdotes e bispos, devemos seguir este caminho, mostrar que a crise é uma oportunidade. Caso contrário, seríamos sacerdotes ou bispos fechados em nós mesmos, sem um verdadeiro diálogo com as outras pessoas. Há sempre crise no diálogo real. Mas para ser credível, é preciso ter experimentado isto. Não pode ser um discurso teórico, uma “piedosa exortação”; não seria credível. Ao contrário, dais um testemunho de vida. Estivestes em crise, fostes feridos; graças a Deus e com a ajuda dos irmãos e das irmãs, sarastes; e decidistes compartilhar esta vossa experiência, colocá-la ao serviço do próximo. Obrigado por isto, pois é um gesto que faz crescer, que faz amadurecer os outros casais.

Impressionou-me — na vossa “bagagem” experiencial — o confronto entre os dois textos bíblicos: o do Bom Samaritano e o de Jesus Ressuscitado que mostra as suas chagas aos discípulos (cf. Lc 10, 25-37; Jo 20, 19-29). Agradeço-vos porque me ajudou a ver melhor a ligação que existe entre o Bom Samaritano e Cristo Ressuscitado; e a ver que esta ligação passa através das feridas, das chagas. No personagem do Bom Samaritano foi sempre reconhecido Jesus, a partir dos escritos dos Padres da Igreja. A vossa experiência ajuda a ver que aquele Samaritano é Cristo Ressuscitado, que conserva as chagas no seu corpo glorioso e precisamente por isso — como diz a Carta aos Hebreus (cf. 5, 2) — sente compaixão por aquele homem ferido, abandonado ao longo do caminho, pelas feridas de todos nós.

Após o binómio “crise-feridas”, gostaria de compartilhar outra palavra, que é “chave” na pastoral familiar: acompanhar. Foi uma das palavras mais importantes no processo sinodal de 2014-2015 sobre a família, da qual saiu a Exortação Amoris laetitia (cf. nn. 217; 223; 232-246). Acompanhar. Naturalmente isto diz respeito aos pastores, faz parte do seu ministério; mas envolve em primeira pessoa também os cônjuges, como protagonistas de uma comunidade que “acompanha”. A vossa experiência dá testemunho específico disto. Uma experiência que nasceu “de baixo”, como muitas vezes acontece quando o Espírito Santo suscita na Igreja renovadas realidades que respondem a novas exigências. Assim foi para “Retrouvaille”. Perante a realidade de tantos casais em dificuldade ou já divididos, a resposta é, antes de tudo, acompanhar.

E aqui ajuda-nos outro ícone bíblico: Jesus Ressuscitado com os discípulos de Emaús. Jesus não aparece do alto, do céu, para dizer com voz retumbante: “Para onde ides vós, os dois? Voltai!”. Não! Caminha ao lado deles ao longo da estrada, sem ser reconhecido. Ouve a crise deles. Convida-os a contar, a manifestar-se. E depois desperta-os da sua insensatez, surpreende-os, revelando-lhes uma perspetiva diferente, que já existia, já estava escrita, mas eles não a tinham compreendido: não entenderam que Cristo devia sofrer e morrer na cruz, que a crise faz parte da história da salvação... Isto é importante: a crise faz parte da história da salvação! E a vida humana não é uma vida de laboratório, nem uma vida assética... como que imersa em álcool, para que não haja coisas estranhas... A vida humana é uma vida em crise, uma vida com todos os problemas que surgem todos os dias. E depois aquele homem, que era Jesus, aquele Viandante que se detém para comer com eles, permanece com eles: perde tempo com eles. Para acompanhar, perder tempo e não continuar a olhar para o relógio. Acompanhar significa “perder tempo” para estar perto das situações de crise. E frequentemente é necessário muito tempo, é preciso paciência, respeito, disponibilidade... Tudo isto é acompanhar. Como vós bem sabeis!

Caros amigos, agradeço-vos o vosso compromisso e encorajo-vos a prossegui-lo. Confio-o ao amparo da Virgem Maria e de São José. Abençoo todos vós, as vossas famílias e rezo pelos casais que acompanhais. E também vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!