· Cidade do Vaticano ·

Aos participantes num congresso promovido pela Fundação Migrantes da Cei

Não ferir a casa comum europeia com preconceitos

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16 novembro 2021

Graças também aos «milhões de emigrantes italianos e de outros países que estão a renovar o rosto das cidades», a Europa está a tornar-se «um bonito mosaico» e não deve ser ferida nem corrompida «com preconceitos ou com aquele ódio velado de respeitabilidade», afirmou o Papa Francisco dirigindo-se aos participantes no congresso «Os italianos na Europa e a missão cristã» — promovido pela Fundação Migrantes da Conferência episcopal italiana — durante a audiência realizada a 11 de novembro, na Sala Clementina.

Estimados irmãos e irmãs!

Dou-vos as boas-vindas e agradeço ao Cardeal Bassetti as suas palavras de saudação e introdução. Saúdo o Secretário-Geral da Cei, o Presidente da Fundação Migrantes com o seu Diretor e colaboradores, e dirijo uma grata saudação a todos vós, sacerdotes e colaboradores pastorais, que estais ao serviço das comunidades e das missões de língua italiana na Europa.

O tema que guia os trabalhos do vosso encontro é «Os italianos na Europa e a missão cristã». Vejo nisto, por um lado, a preocupação pastoral que nos impele sempre a conhecer a realidade, neste caso a mobilidade italiana; e, por outro, o desejo missionário de que isto possa ser fermento, levedura de nova evangelização na Europa. Neste contexto, gostaria de partilhar três reflexões que espero vos possam ajudar no presente e no futuro.

A primeira diz respeito à mobilidade, migração. Muitas vezes vemos os migrantes apenas como “outros” no meio de nós, como estranhos. Na realidade, também lendo os dados sobre o fenómeno, descobrimos que os migrantes são uma parte significativa do “nós”, bem como, no caso dos emigrantes italianos, de pessoas próximas de nós: as nossas famílias, os nossos jovens estudantes, os licenciados, os desempregados, os nossos empresários. A migração italiana revela — como escreveu o grande Bispo Geremia Bonomelli, fundador da Obra de assistência aos emigrantes na Europa e no Médio Oriente — uma “Itália filha”, em movimento na Europa, sobretudo, e no mundo. É uma realidade à qual me sinto particularmente próximo, pois a minha família também emigrou para a Argentina. O “nós”, portanto, para ler a mobilidade.

A segunda reflexão diz respeito à Europa. A leitura da emigração italiana para o continente europeu deve tornar-nos cada vez mais conscientes de que a Europa é uma casa comum. Também a Igreja na Europa não pode deixar de considerar os milhões de emigrantes italianos e os de outros países que estão a renovar a face das cidades e dos países. E, ao mesmo tempo, alimentam «o sonho duma Europa unida, capaz de reconhecer raízes comuns e regozijar-se com a diversidade que a habita» (Enc. Fratelli tutti, 10). Trata-se de um bonito mosaico, que não deve ser ferido nem corrompido por preconceitos ou ódios velados de respeitabilidade. Hoje a Europa é chamada a revitalizar a sua vocação para a solidariedade na subsidiariedade.

A terceira reflexão refere-se ao testemunho de fé das comunidades de emigrantes italianos nos países europeus. Graças à sua religiosidade popular profundamente enraizada, comunicaram a alegria do Evangelho, tornaram visível a beleza de serem comunidades abertas e acolhedoras, partilharam os caminhos das comunidades cristãs locais. Um estilo de comunhão e de missão caraterizou a sua história, e espero que também molde o seu futuro. Trata-se de um bonito fio que nos liga à memória das nossas famílias. Como não pensar nos nossos avós que emigraram e na sua capacidade de serem generativos também em termos de vida cristã? É uma herança a ser preservada e cuidada, encontrando formas de revitalizar a proclamação e o testemunho de fé. E isto depende muito do diálogo entre gerações: especialmente entre avós e netos. Isto é muito importante, friso: avós e netos. De facto, os jovens italianos que hoje se deslocam pela Europa são muito diferentes, em termos de fé, dos seus avós, mas, contudo, são geralmente muito apegados a eles. E é crucial que permaneçam ligados às suas raízes: precisamente quando se encontram a viver noutros contextos europeus, a seiva que retiram das suas raízes, dos seus avós, uma seiva de valores humanos e espirituais, é preciosa. Portanto, se existir este diálogo entre gerações, entre avós e netos, então de facto «as expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar [...] particularmente na hora de pensar a nova evangelização» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 126).

À luz da experiência latino-americana, pude afirmar que «os imigrantes são uma bênção, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer» (Enc. Fratelli tutti, 135). Acolher, acompanhar, promover e integrar, são os quatro passos. Se não conseguirmos a integração pode haver problemas, e graves. Lembro-me sempre da tragédia de Zaventem: quantos fizeram aquilo eram belgas, mas filhos de migrantes não integrados, guetizados. Acolher, acompanhar, promover e integrar. O mesmo se pode dizer da Europa. Os migrantes são uma bênção também para e nas nossas Igrejas na Europa. Se forem integrados, podem ajudar a respirar o ar de uma diversidade que regenera a unidade; podem alimentar o rosto da catolicidade; podem dar testemunho da apostolicidade da Igreja; podem gerar histórias de santidade. Não esqueçamos, por exemplo, que Santa Francisca Saverio Cabrini, religiosa lombarda emigrante entre emigrantes, foi a primeira santa cidadã dos Estados Unidos da América. Ao mesmo tempo, as migrações acompanharam e podem apoiar, através do encontro, a relação e a amizade, o caminho ecuménico nos vários países europeus onde os fiéis pertencem maioritariamente a comunidades reformadas ou ortodoxas.

Neste sentido, apraz-me registar que o caminho sinodal das Igrejas em Itália, também graças ao trabalho pastoral da Fundação Migrantes, propõe-se considerar os migrantes como um recurso importante para a renovação e a missão das Igrejas na Europa. Especialmente o mundo dos jovens em migração, muitas vezes desorientado e sozinho, deveria ver uma Igreja atenta, com os seus Pastores, que caminha com eles e entre eles.

Que o Beato Bispo João Batista Scalabrini, cuja ação entre os migrantes alimentou a missão das Igrejas em Itália, e Santa Francisca Cabrini, padroeira dos migrantes, guiem e protejam o vosso caminho nas Igrejas da Europa para um novo, jubiloso e profético anúncio do Evangelho.

Estimados irmãos e irmãs, agradeço-vos o que fazeis. Encorajo-vos a continuar o vosso empenho e a pensar criativamente numa missão que olhe para o futuro das nossas comunidades, para que possam estar cada vez mais enraizadas no Evangelho, ser fraternas e acolhedoras. Abençoo-vos e acompanho-vos. E vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim.

Obrigado!