· Cidade do Vaticano ·

Histórias de dor e de resgate

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16 novembro 2021

A experiência de uma família em missão entre os necessitados num dos bairros mais carentes da periferia de Paris abriu a série de sete testemunhos apresentados ao Papa Francisco durante o encontro em Assis.

Nos subúrbios parisienses

Com a sua filhinha, Celeste, nos braços, Florence e Thibault Jarry narraram a sua história pessoal, o motivo que os levou a entregar-se ao Senhor e aos necessitados. «Há seis anos — disseram — não nos conhecíamos ainda. Tínhamos partido para um ano de missão no Chile, num bairro no norte de Santiago, com a associação Misericórdia». Fundada pelo casal franco-brasileiro Roman e Renate de Chateauvieux, a associação, explicaram ao Pontífice, é «o fruto das suas palavras», proferidas no primeiro Angelus a 17 de março de 2013: «A misericórdia muda o mundo, torna-o menos frio e mais justo». Uma realidade que, acrescentaram, tem «por vocação projetos sociais de compaixão e evangelização». Tudo isto «ao serviço da Igreja nas periferias das grandes capitais do mundo». Após um ano no Chile, regressaram a França e casaram-se, pedindo ao Senhor «para guiar o rumo» das suas vidas, infundindo «a coragem de nos abandonarmos à sua vontade para nos levar onde Ele queria que estivéssemos». E com o desejo de «levar uma vida simples, enraizada em Cristo e no serviço aos pequeninos», após o casamento disseram «um novo grande “sim” a serem enviados novamente pela Misericórdia como casal missionário». Por isso também a pequena Celeste, que chegou em julho passado, «à sua maneira já é uma missionária». Com efeito, todo o bairro parisiense no qual decidiram viver, «aguardava o seu nascimento com impaciência», pelo que «ainda no ventre, já tinha aberto portas e corações». Daí a aspiração do casal de poder partilhar «a vida quotidiana dos nossos vizinhos numa realidade por vezes ferida por uma grande pobreza material, mas também por aquela espiritual e relacional». Porque, observaram, o Senhor fala «através dos pobres: são eles que Ele escolheu para transmitir a sua ternura e bondade». De resto, apesar das dúvidas e exigências, concluíram, «um sentimento profundo vive nos nossos corações, como um calor reconfortante, ousado e fiel, o calor de Deus».

Nova vida após a prisão

Em segundo lugar falou o espanhol Sebastián Del Valle Díaz, que vive em Toledo há um ano e meio. Recordou a sua família, graças à qual aprendeu a acreditar e a rezar, especialmente o Rosário, e recordou o treino militar que recebeu durante a adolescência. O que provocou nele uma mudança: deixou «de ser uma criança» sentindo-se «superior aos outros» e tornou-se «um rapaz violento», presa dos traficantes de droga do seu bairro. «Sem o perceber, já me tinha tornado um deles», comentou. Por isso, depois de ter abandonado a escola aos 15 anos, começou a drogar-se: «Apercebi-me de que podia ganhar dinheiro rapidamente e viver no luxo». E sem me dar conta, «causava o mal a mim e aos outros: tinha-me tornado uma pessoa diferente, já não me reconhecia». Numa espiral de degradação, acabou por cometer uma série de crimes que o levaram à prisão. No seu primeiro dia na prisão, outro recluso tirou-lhe o terço que tinha ao pescoço. Naquele momento, disse: «Senti que Deus me tinha abandonado». Depois de cumprir a pena, quis mudar de vida e através de um amigo encontrou um emprego, mas caiu de novo nos “vícios”, incapaz de levantar a cabeça novamente. Depois, devido à pandemia de covid-19, foi deixado sozinho e sem emprego, acabando na rua. Então, pediu ajuda ao pároco de uma pequena aldeia, o padre Santiago Conde, que o acolheu e ajudou. Num centro da Cáritas, contou, «finalmente senti-me bem-vindo, e nunca me faltou o necessário para viver. Eu tinha um teto, comida e sobretudo estava protegido contra a pandemia». Após o lockdown, redescobriu o encanto da oração e assim sentiu «o amor de Deus depois de tantos anos». A participação num seminário chamado «Vida no Espírito» transformou definitivamente a sua vida: «O bem que vivi foi indescritível: fui confessar-me durante três horas e senti-me realmente amado». Recebeu então o batismo no Espírito e continuou neste «percurso de louvor e amor a Jesus Cristo», compreendendo que «Jesus está vivo, salvou-me e doou-me uma nova vida. Por um tempo mendiguei para sobreviver: hoje sou um mendigo do amor e da misericórdia de Deus».

Batizado com sessenta anos

Depois foi a vez do idoso Gabriel Barbier, proveniente de Paris, pertencente à Associação para a Amizade ( apa ), que propõe experiências de coabitação entre desabrigados e voluntários que têm um emprego. O homem falou de fraquezas e fragilidade face a tantas humilhações. Por esta razão, assegurou, os pobres de espírito podem encontrar força em Deus, que é «a nossa maior riqueza. Devemos ser sempre fiéis no júbilo, na alegria, no amor, mesmo que por vezes nos vejamos um pouco ridicularizados ou perseguidos por causa do Reino», porque «a recompensa é grande», acrescentou. «Sou um lutador e como a maioria de vós conheci o desespero, o abandono». Mas a «travessia do deserto» deu-lhe a oportunidade de perceber, depois de muito tempo, o amor de Deus. Procurando «manter sempre um caráter benévolo, penso que é em situações de grande precariedade que o Senhor chama para uma grande alegria aqueles que sabem ouvir a sua chamada». Com 60 anos, «tive o grande desejo de ser batizado, eu que vinha de uma família ateia: Jesus transformou-me ao ponto de me fazer desejar a santidade».

Desabrigados
por culpa da droga e do álcool

Sebastian Olczak, um polaco de 37 anos, descreveu como a sua vida tinha sido normal até aos 16 anos. Depois experimentou a droga e o álcool. «Os meus amigos tornaram-se a minha família. Começaram os problemas com a lei: perdia o respeito por mim mesmo e pelos outros. Deixei de distinguir entre o que é bom e o que é mau», disse. Ao longo dos anos, a situação agravou-se e em 2007 tornou-se mendigo. Depois, a mudança: «Deus enviou-me» os voluntários de uma organização de ajuda humanitária intitulada a São Padre Pio. «No início mantinha a distância: na cabeça tinha as minhas convicções», caindo de novo nos «maus hábitos» de dormir em bancos, sujo e bêbado. Mas no final, «admiti que não me poderia salvar sozinho». Apresentou-se perante Deus como era e implorou-lhe que lhe desse uma nova vida. E, mais uma vez, Deus ajudou-o. A sua graça é uma experiência diária, «é algo tão belo que não o posso descrever com palavras». Concluiu dizendo que antes se odiava, agora se aceita e «sinto-me um homem vivo que olha para si mesmo e para os outros através do amor de Deus» embora «consciente de que ainda tenho muito trabalho pela frente».

A ex-estudante universitária
de Cabul

Farzana Razavi testemunhou o drama que o povo afegão está a viver, mas também como foi recebida na diocese umbra de Foligno. «Nasci e fui criada numa terra com uma história dolorosa», disse ela apresentando-se ao Pontífice. Vinda ao mundo «na problemática província de Ghazni, numa sociedade patriarcal», chegou à Itália para reconstruir a própria vida. Naturalmente, «trouxe apenas o meu corpo comigo, a minha alma e o meu coração ficaram no Afeganistão, com as minhas irmãs, a minha família e as outras jovens que estudavam comigo na universidade e que perderam tudo: a vida e a liberdade». Preocupada pelos familiares, a jovem afirmou que não sabe como está a sua família agora. «No Afeganistão, alguns grupos étnicos estão sob pressão. Sou hazara e também xiita, por isso tive muitas dificuldades. Agradeço às forças armadas italianas que nos salvaram». E tendo «iniciado uma nova vida», prometeu que procurará «ser uma pessoa». Por fim, concluiu agradecendo à Arca do Mediterrâneo — organização sem fins lucrativos de Foligno que gere alguns projetos de inclusão na Itália, Grécia, África e Médio Oriente — e à Cáritas na cidade umbra.

As lágrimas dos afegãos
Abdul e Salima

Em lágrimas por ter perdido um filho, assassinado pelos talibãs, e em apreensão pelos quatro restantes no Afeganistão, o idoso Qadery Abdul Razaq e a sua esposa Salima pediram ajuda ao Papa «para salvar também a eles».

«Somos uma família que trabalhou com o exército italiano e estamos preocupados» com os filhos, dois rapazes e duas moças entre os vinte e os vinte e quatro anos, que ainda se encontram na pátria, explicou Abdul ao lado da sua esposa. «Sentimo-nos muito felizes por estarmos em Itália — acrescentou Abdul, que no Afeganistão ensinava sociologia e colaborava com a Unicef — e agradecemos ao governo que nos salvou. Aqui estamos bem e agradecemos à Cáritas por nos ter ajudado a fazer os documentos, o acolhimento, a casa e tudo o que precisamos», inclusive porque — concluiu — «os agentes estão próximos de nós e tratam-nos como seus pais».

Mariana que luta contra a doença

O último comovente testemunho foi o de Mariana Maftei, 43 anos, originária da Roménia, chegou à Itália em 2006 para trabalhar como cuidadora da terceira idade. Ela contou que teve que deixar na sua terra os dois filhos, Roswanda e Alessandro, de 6 e 8 anos, contra a sua vontade. Quando o seu marido morreu em 2008, procurou trazer para a Itália os seus filhos. Pouco depois, disse, começou o drama: uma síndrome que atingiu a coluna lombar e os membros inferiores. Isto provocava uma dor devastadora, perturbando a vida familiar e laboral. Foi aconselhada a submeter-se a uma cirurgia que, em vez de resolver o problema, o agravou, forçando-a à semi-enfermidade e causando-lhe grande sofrimento. Ela disse que fez mais dez operações, mas sem resultados, e foi forçada a abandonar o trabalho. Contou que entrou em depressão porque não tinha dinheiro. Graças aos voluntários da Cáritas, recebeu pacotes de alimentos e ajudas económicas que lhe permitiram ir sobrevivendo. Crente desde sempre, rezou a Deus para que pudesse ver os seus filhos crescer, mesmo se com muitas dificuldades. «A força deste Calvário é Jesus — concluiu — pois nestes dez anos, Ele nunca me abandonou», embora tendo de suportar dores constantes que nem mesmo doses maciças de medicamentos conseguem aliviar.