· Cidade do Vaticano ·

Francisco inaugurou o novo espaço de exposições da Biblioteca apostólica do Vaticano

O mundo precisa de novos mapas de fraternidade e de beleza

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09 novembro 2021

Um percurso que começa pela cartografia de viagens e chega aos mapas utópicos e alegóricos: tal é a exposição «T utti . Umanità in Cammino» (“T odos . Humanidade a caminho”), visitada pelo Papa Francisco na tarde de 5 de novembro, por ocasião da inauguração do novo espaço permanente de exposições da Biblioteca apostólica do Vaticano (B av ). Inspirando-se nas reflexões propostas pelo Pontífice na encíclica «sobre a fraternidade e a amizade social», a exposição foi realizada em colaboração com o artista romano Pietro Ruffo. Curada pelo padre Giacomo Cardinali, por Simona De Crescenzo e por Delio Proverbio, tem como objetivo instaurar um diálogo entre os tesouros da Bav e as novas instâncias da arte contemporânea. A seguir, o discurso pronunciado pelo Papa.

Prezados irmãos e irmãs!

A minha cordial saudação a todos vós. Agradeço ao Cardeal Arquivista e Bibliotecário as suas palavras. Saúdo o Cardeal Farina, que desejou honrar-nos com a sua presença. Saúdo o Prefeito, o Vice-Prefeito, os membros da comunidade de trabalho da Biblioteca Apostólica do Vaticano e todos os ilustres convidados e amigos presentes.

No Evangelho de João, o adjetivo kalós (belo) é usado exclusivamente com referência a Jesus e à sua missão. É aqui, por exemplo, que aparece nos lábios de Jesus o epíteto cristológico «Eu sou o belo pastor» (10, 11), que normalmente traduzimos como «Eu sou o bom pastor». É verdade, Jesus é o bom pastor, mas também belo. No Evangelho de Mateus, ao contrário, Jesus fala da beleza dos seus discípulos: desafia-os a resplandecer, a tornar visível a beleza das suas obras, como forma de louvor a Deus: «Que a vossa luz brilhe diante dos homens, a fim de que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus» (5, 16).

A beleza não é a ilusão fugaz de uma aparência ou um ornamento: ao contrário, brota da raiz de bondade, de verdade e de justiça, que são os seus sinónimos. Mas não devemos deixar de pensar e falar de beleza, pois o coração humano não precisa unicamente de pão, não tem necessidade só daquilo que garante a sua sobrevivência imediata: precisa também de cultura, daquilo que toca a alma, que aproxima o ser humano da sua profunda dignidade. Por isso, a Igreja deve dar testemunho da importância da beleza e da cultura, dialogando com a particular sede de infinito que define o ser humano.

Também por estes motivos, estou feliz por inaugurar hoje o sala expositiva da Biblioteca do Vaticano, e os meus votos são de que a sua luz resplandeça. Brilhe certamente através da ciência, mas também mediante a beleza. E agradeço a todos aqueles que trabalharam tanto na realização deste espaço, que se tornou possível graças à generosidade de amigos e benfeitores, e à atenção e cuidado arquitetónico e científico de profissionais.

Quisestes que a exposição de abertura fosse uma reflexão sobre a Encíclica Fratelli tutti. Definiste-la como diálogo construído em volta de obras que pertencem à Biblioteca e de obras de um artista contemporâneo, a quem saúdo e agradeço. Aprecio esta aposta de realizar um diálogo. A vida é arte do encontro. As culturas adoecem quando se tornam autorreferenciais, quando perdem a curiosidade e a abertura ao outro. Quando excluem em vez de integrar. Que vantagem temos em tornar-nos guardiões de fronteiras, e não guardiões dos nossos irmãos? A pergunta que Deus nos repete é a seguinte: «Onde está o teu irmão?» (cf. Gn 4, 9).

Caros amigos, o mundo precisa de novos mapas. Nesta mudança epocal que a pandemia acelerou, a humanidade tem necessidade de novos mapas para descobrir o sentido da fraternidade, da amizade social e do bem comum. A lógica dos blocos fechados é estéril e cheia de equívocos. Precisamos de uma renovada beleza, que já não seja o habitual reflexo do poder de alguns, mas o corajoso mosaico da diversidade de todos. Que não seja o espelho de um antropocentrismo despótico, mas um novo cântico das criaturas, onde uma ecologia integral encontre consistência real.

Desde o início do meu pontificado, chamei a Igreja a tornar-se «Igreja em saída» (cf. Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 20-24) e protagonista da cultura do encontro. O mesmo é válido para a Biblioteca. Serve ainda melhor a Igreja se, além de preservar o passado, ousar ser uma fronteira do presente e do futuro. Sei que estais ciente disto: que a nossa responsabilidade consiste em manter vivas as raízes, a memória, sempre orientados para as flores e os frutos. Sonhemos juntos com “novos mapas”. Penso em particular na necessidade de passar do analógico para o digital, de traduzir cada vez mais o nosso acervo para novas linguagens. É verdade, trata-se de um desafio histórico que devemos enfrentar com sabedoria e audácia. Conto com a Biblioteca Apostólica para traduzir o depósito do cristianismo e a riqueza do humanismo nas linguagens de hoje e de amanhã!

Agradeço-vos por este bom resultado do vosso trabalho e pelo bem que fazeis. Que a minha Bênção vos acompanhe. E, por favor, orai por mim. Obrigado!

No final do encontro, o Papa Francisco dirigiu aos funcionários da Biblioteca as seguintes palavras.

Muito obrigado pelo vosso trabalho, pelo vosso testemunho: trata-se de um trabalho escondido, mas para sustentar tudo... Às vezes pensamos no valor das coisas ou das pessoas que vemos, mas há muitas, tantas pessoas escondidas que levam em frente a vida, a família, o mundo, a sociedade, tudo, a cultura... Obrigado por este trabalho, obrigado! E peço ao Senhor que vos abençoe, a vós e às vossas famílias. [Bênção]. E obrigado, mais uma vez obrigado!