· Cidade do Vaticano ·

Mensagem do Pontífice a um congresso sobre a tutela dos menores

Erradicar a cultura de morte que deriva de todas as formas de abuso

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09 novembro 2021

«Só com uma ação sistemática de aliança preventiva» é «possível erradicar a cultura de morte portadora de todas as formas de abuso», escreveu o Papa Francisco na mensagem que enviou aos participantes num congresso de estudos dedicada ao trabalho de tutela dos menores nas organizações de inspiração religiosa, realizado a 4 de novembro na sede do Dicastério para a comunicação. Publicamos a seguir o texto pontifício que foi lido por Giovanni Paolo Ramonda, presidente da Comunidade Papa João xxiii.

Estimados irmãos e irmãs!

Dirijo a minha saudação a todos vós que participais — em presença e à distância — no Congresso “Promover child safeguarding no tempo da Covid-19 e após”, organizado pela Comunidade Papa João xxiii com a Ação Católica Italiana e o Centro Desportivo Italiano, em colaboração com o Centro de Vitimologia e Segurança da Universidade de Bolonha. Saúdo com gratidão os Representantes dos Parlamentos Europeu e Italiano e de outras Instituições, de maneira particular a Polícia Postal.

Como disse na Carta ao Povo de Deus (20 de agosto de 2018), «olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas». Hoje estais a refletir juntos e a colher os frutos de dois anos de escuta, investigação e formação. Este trabalho começou “por baixo”, como expressão da participação ativa do povo de Deus no caminho de conversão pessoal e comunitária. Como Igreja, somos chamados a percorrer juntos este caminho, suscitados pela dor e pela vergonha de não termos sido sempre bons guardiões, protegendo os menores que nos são confiados nas nossas atividades educativas e sociais.

Este processo de conversão requer urgentemente uma formação renovada de todos aqueles que têm responsabilidades educativas e trabalham em ambientes com menores, na Igreja, na sociedade, na família. Somente desta maneira, com uma ação sistemática de aliança preventiva, será possível erradicar a cultura de morte portadora de qualquer forma de abuso, sexual, de consciência ou de poder.

Se o abuso é um ato de traição da confiança, que condena à morte quem dele é vítima e gera fendas profundas no contexto em que ocorre, a prevenção deve ser um processo permanente de promoção de uma fiabilidade sempre renovada e certa em relação à vida e ao futuro, com a qual os menores devem poder contar. E é isto que nós, como adultos, somos chamados a garantir-lhes, redescobrindo a nossa vocação de “artífices da educação” e esforçando-nos por ser lhe fiéis. Isto significa favorecer a expressão dos talentos daqueles que acompanhamos; respeitar os seus tempos, a sua liberdade e a sua dignidade; opor-se com todos os meios às tentações de sedução e indução, que só aparentemente podem facilitar as relações com as gerações mais jovens.

Olho com confiança e esperança, em particular, para os muitos jovens que foram formados neste vosso Projeto. São especialmente eles que nos pedem um passo decisivo de renovação face às feridas de abuso encontradas nos seus coetâneos. Vem-me à mente a expressão de São Paulo vi : “jovens apóstolos dos jovens” (cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 72), e penso que também pode ser implementada neste sentido, como proximidade fraterna e solidariedade. Portanto, a contribuição dos jovens será preciosa no reconhecimento das situações de risco e na chamada corajosa de toda a comunidade para a sua responsabilidade na salvaguarda dos menores, para rever o modo como nos relacionamos com as gerações mais jovens, de maneira a poder voltar a garantir-lhes a beleza do encontro, do diálogo, do jogo e do sonho.

Desejo que os adultos que partilharem este percurso com os jovens continuem a ser credíveis, ou seja, responsáveis nos seus cuidados e coerentes no testemunho. Que sejam promotores e guardiões de uma aliança educativa renovada entre as gerações e entre os vários contextos em que os menores crescem, capazes de estimular entre si uma ligação generativa e protetora, de forma particular neste complexo tempo de pandemia.

Por fim, como associações laicais, exorto-vos a perseverar nesta ação de formação em corresponsabilidade, diálogo e transparência. Que a tutela dos menores se torne cada vez mais uma prioridade comum na atividade educativa da Igreja; que seja a promoção de um serviço aberto, fiável e competente, em firme contraste com qualquer forma de domínio, de desonra da intimidade e de silêncio cúmplice.

Estimados irmãos e irmãs, desejo-vos um frutuoso congresso, que seja base sólida para continuar juntos o serviço às crianças e jovens, às famílias e a toda a comunidade eclesial e civil. Asseguro-vos as minhas orações e abençoo-vos de coração.

Roma, São João de Latrão,
21 de outubro de 2021.

Francisco