· Cidade do Vaticano ·

À Fundação Centesimus annus o Pontífice pediu modelos de desenvolvimento inspirados na doutrina social

Sementes de uma economia justa no terreno poluído pelo predomínio das finanças

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
03 novembro 2021

«No terreno poluído pelo predomínio das finanças precisamos de muitas pequenas sementes que façam brotar uma economia justa e benéfica, à escala humana e digna do homem», disse o Papa aos participantes no Congresso internacional da Fundação Centesimus Annus — Pro Pontifice, realizado no Vaticano de 21 a 22 de outubro, sobre o tema «Solidariedade, cooperação e responsabilidade: os antídotos para combater as injustiças, desigualdades e exclusões». Francisco encontrou-se com eles na conclusão dos trabalhos no dia 23, na sala Clementina, dirigindo-lhes este discurso.

Estimados irmãos e irmãs

bom dia!

Sinto-me feliz por me encontrar convosco no contexto do vosso Congresso internacional. Obrigado, Senhora Presidente, pelas suas palavras amáveis — e claras — como sempre faz — claras. Nestes dias abordais temas importantes e essenciais: a solidariedade, a cooperação e a responsabilidade como antídotos contra a injustiça, a desigualdade e a exclusão.

São reflexões importantes, num tempo em que as incertezas e a precariedade que marcam a existência de tantas pessoas e comunidades foram agravadas por um sistema económico que continua a descartar vidas em nome do deus dinheiro, instilando atitudes vorazes em relação aos recursos da Terra e alimentando tantas formas de iniquidade. Não podemos ficar indiferentes a isto. Mas a resposta à injustiça e à exploração não é apenas a denúncia; é acima de tudo a promoção ativa do bem: denunciar o mal, mas promover o bem. E por isso expresso-vos o meu apreço: pelas atividades que desenvolveis, especialmente no campo da educação e da formação, em particular pelo compromisso em financiar estudos e pesquisas para os jovens sobre os novos modelos de desenvolvimento económico e social inspirados na doutrina social da Igreja. É importante, temos necessidade disto: no terreno poluído pelo predomínio das finanças, precisamos de muitas pequenas sementes que façam brotar uma economia justa e benéfica, à escala humana e digna do homem. Precisamos de possibilidades que se tornem realidades, de realidades que deem esperança. Isto significa traduzir na prática a doutrina social da Igreja.

Retomo a expressão “predomínio das finanças”. Há quatro anos, recebi a visita de uma grande economista, que também tinha um cargo num governo. E ela disse-me que procurou criar um diálogo entre economia, humanismo, fé e religião, e que correu bem, um diálogo que correu bem e continua a correr bem, num grupo de reflexão. Procurei fazer o mesmo — disse-me ela — com as finanças, humanismo e religião, e não pudemos nem sequer começar. Interessante. Isto faz-me pensar. Aquela mulher fez-me sentir que as finanças eram algo de impraticável, algo “líquido”, “gasoso” que acaba como a corrente de Santo António... Conto-vos esta experiência, talvez possa servir.

Precisamente as três palavras que escolhestes — solidariedade, cooperação e responsabilidade — representam os três pilares da doutrina social da Igreja, que vê a pessoa humana, naturalmente aberta à relação, como o vértice da criação e o centro da ordem social, económica e política. Com esta perspetiva, atenta ao ser humano e sensível ao realismo das dinâmicas históricas, a doutrina social contribui para uma visão do mundo que se opõe à individualista, na medida em que se baseia na interligação entre as pessoas e tem como objetivo o bem comum. Ao mesmo tempo, opõe-se à visão coletivista, que hoje volta a emergir numa nova versão, escondida nos projetos de homologação tecnocrática. Mas, não se trata de uma “vicissitude política”: a doutrina social está ancorada na Palavra de Deus, a fim de orientar processos de promoção humana a partir da fé em Deus que se fez homem. Por isso, deve ser seguida, amada e desenvolvida: apaixonemo-nos novamente pela doutrina social, tornemo-la conhecida: é um tesouro da tradição eclesial! Foi precisamente estudando-a que também vós vos sentistes chamados a comprometer-vos contra as desigualdades, que prejudicam em particular os mais frágeis, e a trabalhar por uma fraternidade real e efetiva.

Solidariedade, cooperação, responsabilidade: três palavras que nestes dias colocais no centro das vossas reflexões e que recordam o mesmo mistério de Deus, que é a Trindade. Deus é uma comunhão de Pessoas e orienta-nos para nos realizarmos através da generosa abertura aos outros (solidariedade), através da colaboração com os outros (cooperação), mediante o compromisso pelos outros (responsabilidade). E fazê-lo em todas as expressões da vida social, através das relações, do trabalho, do compromisso civil, da relação com a criação, da política: em cada âmbito, hoje mais do que nunca, devemos testemunhar a atenção pelos outros, a sair de nós mesmos, a comprometer-nos com gratuidade pelo desenvolvimento de uma sociedade mais justa e equitativa, na qual não prevaleçam o egoísmo e os interesses de parte. Ao mesmo tempo, somos chamados a vigiar sobre o respeito pela pessoa humana, a sua liberdade e a proteção da sua dignidade inviolável. Eis a missão a implementar pela doutrina social da Igreja.

Prezados amigos, ao levarmos em frente estes valores e este estilo de vida — como sabemos — muitas vezes vamos contra a corrente, mas — recordemos sempre — não estamos sozinhos. Deus fez-se próximo de nós. Não com palavras, mas com a sua presença: em Jesus, Deus encarnou-se. E com Jesus, que se tornou nosso irmão, reconheçamos em cada homem um irmão, em cada mulher uma irmã. Animados por esta comunhão universal, como comunidade crente possamos colaborar sem receio com cada um para o bem de todos: sem fechamentos, sem visões que excluem, sem preconceitos. Como cristãos somos chamados a um amor sem fronteiras nem limites, sinal e testemunho de que podemos superar os muros do egoísmo e dos interesses pessoais e nacionais; o poder do dinheiro que muitas vezes decide as causas dos povos; as cercas das ideologias, que dividem e amplificam o ódio; todas as barreiras históricas e culturais e, sobretudo, a indiferença, aquela cultura da indiferença que, infelizmente, é diária. Todos podemos ser irmãos, e por isso podemos e devemos pensar e agir como irmãos de todos. Isto pode parecer uma utopia inatingível. Ao contrário, preferimos acreditar que se trata de um sonho possível, porque é o mesmo sonho do Deus uno e trino. Com a sua ajuda, é um sonho que pode começar a realizar-se até neste mundo.

Portanto, é uma grande tarefa construir um mundo mais solidário, justo e equitativo. Para o crente, não é algo prático desvinculado da doutrina, mas é dar substância à fé, ao louvor de Deus, que ama o homem e a vida. Sim, amados irmãos e irmãs, o bem que se faz por cada pessoa na terra alegra o coração de Deus no céu. Prossegui com coragem o vosso caminho. Acompanho-vos com a oração, abençoo a vós e os vossos esforços. E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!