· Cidade do Vaticano ·

Nunca me esqueço de vós ouço os vossos gritos

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26 outubro 2021

«Nunca me esqueço de vós; ouço os vossos gritos e rezo por vós», assegurou o Papa Francisco «aos milhares de migrantes, refugiados e outros necessitados de proteção na Líbia», onde «há verdadeiros lagers», disse no final do Angelus aos fiéis presentes na praça de São Pedro ao meio-dia de 24 de outubro. Anteriormente, comentando como é habitual no Evangelho do domingo, da janela do Palácio apostólico do Vaticano, o Pontífice explicou o episódio da cura do cego Bartimeu.

Estimados irmãos e irmãs
bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje narra sobre Jesus que, saindo de Jericó, restitui a vista a Bartimeu, um cego que mendiga à beira da estrada (cf. Mc 10, 46-52). É um encontro importante, o último antes da entrada do Senhor em Jerusalém para a Páscoa. Bartimeu tinha perdido a vista, mas não a voz! De facto, quando soube que Jesus estava prestes a passar, começou a gritar: «Filho de David, Jesus, tem piedade de mim!» (v. 47). E grita, grita mesmo. Os discípulos e a multidão irritaram-se com os seus gritos e repreenderam-no para que se calasse. Mas ele grita ainda mais alto: «Filho de David, tem piedade de mim!» (v. 48). Jesus ouve, e pára imediatamente. Deus ouve sempre o grito dos pobres, e não ficou absolutamente perturbado pela voz de Bartimeu, aliás, dá-se conta de que está cheio de fé, uma fé que não tem medo de insistir, de bater à porta do coração de Deus, apesar da incompreensão e das repreensões. E aqui reside a raiz do milagre. Com efeito, Jesus diz-lhe: «A tua fé te salvou» (v. 52).

A fé de Bartimeu transparece da sua oração. Não se trata de uma oração tímida, convencional. Antes de tudo, chama ao Senhor “Filho de David”: ou seja, reconhece-o como Messias, Rei que vem ao mundo. Depois chama-o pelo nome, com confiança: “Jesus”. Não tem medo d’Ele, não se distancia. E assim, do coração, grita ao Deus amigo todo o seu drama: “Tem piedade de mim”. Apenas aquela oração: “Tem piedade de mim”. Não lhe pede algumas moedas, como faz com os transeuntes. Não. Àquele que tudo pode, pede tudo. Às pessoas pede moedas, a Jesus que pode fazer tudo, pede tudo: “Tem piedade de mim, tem piedade de tudo o que eu sou”. Não pede uma graça, mas apresenta-se: pede misericórdia para a sua pessoa, para a sua vida. Não é um pedido insignificante, mas é muito bonito, pois invoca a piedade, isto é, a compaixão, a misericórdia de Deus, a sua ternura.

Bartimeu não usa muitas palavras. Diz o essencial e confia-se ao amor de Deus, que pode fazer a sua vida florescer novamente, realizando o que é impossível aos homens. Por isso ele não pede esmola ao Senhor, mas manifesta tudo, a sua cegueira e o seu sofrimento, que superava o facto de não poder ver. A cegueira era a ponta do iceberg, mas no seu coração deve ter havido feridas, humilhações, sonhos despedaçados, erros, remorsos. Ele rezava com o coração. E nós? Quando pedimos uma graça a Deus, será que colocamos na oração a nossa história, feridas, humilhações, sonhos desfeitos, erros, remorsos?

“Filho de David, Jesus, tem piedade de mim!”. Façamos hoje esta oração. E perguntemo-nos: “Como está a minha oração?”. Cada um de nós se pergunte: “Como vai a minha oração?”. É corajosa, tem a boa insistência de Bartimeu, sabe “alcançar” o Senhor que passa, ou contenta-se em dar-lhe uma saudação formal de vez em quando, quando me lembro? Essas orações tíbias não ajudam minimamente. Ou então: a minha oração é “substanciosa”, expõe o meu coração diante do Senhor? Apresento-lhe a história e os rostos da minha vida? Ou é anémica, superficial, constituída por rituais sem afeto nem coração? Quando a fé está viva, a oração é sentida: não mendiga tostões, não se reduz às necessidades do momento. A Jesus, que tudo pode, deve ser pedido tudo. Não vos esqueçais disto. A Jesus que tudo pode, deve-se pedir tudo, com a minha insistência perante Ele. Ele não vê a hora de derramar a sua graça e alegria nos nossos corações, mas infelizmente somos nós que mantemos a distância, talvez por timidez, ou preguiça ou incredulidade.

Muitos de nós, quando rezamos, não acreditamos que o Senhor possa fazer um milagre. Lembro-me da história — que constatei — daquele pai a quem os médicos disseram que a sua filha de nove anos não superaria aquela noite; estava no hospital. Ele, de autocarro, percorreu setenta quilómetros até ao santuário de Nossa Senhora. Estava fechado e ele, agarrado ao portão, passou a noite inteira a rezar: “Senhor, salva-a! Senhor, dá-lhe a vida!”. Rezava a Nossa Senhora, toda a noite, gritando a Deus, gritando do coração. Depois, de manhã, quando regressou ao hospital, encontrou a sua esposa a chorar. E pensou: “Morreu”. E a esposa disse: “Não se entende, não se entende, os médicos dizem que é uma coisa estranha, parece que sarou”. O grito daquele homem que pedia tudo foi ouvido pelo Senhor que lhe deu tudo. Isto não é uma história: eu mesmo presenciei isto, na outra diocese. Temos esta coragem na oração? Àquele que nos pode dar tudo, peçamos tudo, como Bartimeu, que foi um grande mestre, um grande mestre de oração. Ele, Bartimeu, seja para nós um exemplo com a sua fé concreta, insistente e corajosa. E que Nossa Senhora, Virgem orante, nos ensine a dirigirmo-nos a Deus de todo o coração, na confiança de que Ele ouve atentamente cada oração.

Após a recitação do Angelus, o Papa apelou a favor dos migrantes, recordando depois as beatificações em Itália da irmã Lúcia da Imaculada e da jovem leiga Sandra Sabattini e o Dia mundial das missões. Por fim, saudou os presentes, entre os quais os fiéis das comunidades peruana e filipina que vivem em Roma.

Amados irmãos e irmãs!

Expresso a minha proximidade aos milhares de migrantes, refugiados e outros que necessitam de proteção na Líbia: nunca esqueço de vós; ouço os vossos gritos e rezo por vós. Muitos destes homens, mulheres e crianças são submetidos a uma violência desumana. Uma vez mais apelo à comunidade internacional para que mantenha as suas promessas de procurar soluções comuns, concretas e duradouras para a gestão dos fluxos migratórios na Líbia e em todo o Mediterrâneo. E como sofrem aqueles que são repelidos! Há lá verdadeiros lagers. Devemos pôr fim ao regresso de migrantes para países inseguros e dar prioridade ao socorro de vidas no mar com dispositivos de salvamento e de desembarque previsível, garantindo-lhes condições de vida dignas, alternativas à detenção, percursos regulares de migração e acesso aos procedimentos de asilo. Sintamo-nos todos responsáveis por estes nossos irmãos e irmãs, que há demasiados anos são vítimas desta situação muito grave. Rezemos juntos por eles em silêncio.

Ontem em Brescia, foi beatificada a Irmã Lúcia da Imaculada, religiosa das Servas da Caridade. Mulher gentil e acolhedora, faleceu em 1954 aos 45 anos, depois de uma vida dedicada ao serviço do próximo, inclusive quando a doença tinha enfraquecido o seu corpo mas não o seu espírito. E hoje, está a ser beatificada em Rimini a jovem Sandra Sabattini, estudante de medicina que morreu num acidente de automóvel aos 22 anos. Jovem alegre, animada por grande caridade e oração diária, dedicou-se com entusiasmo ao serviço dos mais fracos no seguimento do carisma do Servo de Deus Padre Oreste Benzi. Um aplauso às duas beatas! Todos juntos!

Hoje, Dia Mundial das Missões, olhemos para estas duas novas Beatas como testemunhas que anunciaram o Evangelho com a própria vida. E com gratidão saúdo os muitos missionários e missionárias — sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos — que, na primeira linha, dedicam as suas energias ao serviço da Igreja, pagando em primeira pessoa — por vezes um alto preço — o seu testemunho. E fazem-no não por proselitismo, mas para dar testemunho do Evangelho na própria vida em terras que não conhecem Jesus. Muito obrigado aos missionários! Também a eles um grande aplauso, todos! Saúdo também os seminaristas do Colégio Urbano.

E saúdo todos vós, caros romanos e peregrinos de vários países. Em particular, saúdo a comunidade peruana — muitas bandeiras do Peru! — que celebra a festa do Señor de los Milagros. Também, o presépio deste ano será da comunidade peruana. Saúdo uma comunidade filipina de Roma; saúdo o Centro Académico Romano Fundación (Espanha); as Filhas do Sagrado Coração de Jesus reunidas em Capítulo e o grupo da Comunidade do Emmanuel. Saúdo também os participantes na “maratona” de Treviso a Roma e os que percorrem o “Caminho” de Sacra di San Michele a Monte Sant’Angelo; a peregrinação ciclística em memória de São Luís Guanella; saúdo os fiéis de Palmi, de Asola e San Cataldo. E uma saudação especial aos participantes na Semana Social dos Católicos Italianos, reunidos em Taranto sobre o tema “O Planeta que esperamos”.

Desejo a todos bom domingo. O tempo está bom. E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!