· Cidade do Vaticano ·

Mensagem por ocasião do segundo evento mundial de “The Economy of Francesco”

«Sois a última geração que pode salvar o planeta»

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19 outubro 2021

Hoje os jovens representam «a última geração que pode salvar» o planeta da catástrofe ecológica, afirmou o Papa Francisco numa mensagem vídeo enviada aos jovens que participaram no segundo evento mundial de “The Economy of Francesco”, que teve lugar no dia 2 de outubro e foi transmitida ao vivo em streaming do palácio «Monte Frumentario» de Assis.

Estimados jovens!

Saúdo-vos com afeto, feliz por me encontrar convosco — embora virtualmente — neste vosso segundo evento. Nestes últimos meses recebi muitas notícias das experiências e iniciativas que construístes em conjunto, e gostaria de vos agradecer o entusiasmo com que desempenhais esta missão de dar nova alma à economia.

A pandemia de Covid-19 não só nos revelou as profundas desigualdades que infetam as nossas sociedades, mas também as amplificou. Do aparecimento de um vírus proveniente do mundo animal, as nossas comunidades sofreram um grande aumento do desemprego, da pobreza, das desigualdades, da fome e da exclusão dos necessários cuidados médicos. Não esqueçamos que uns poucos se aproveitaram da pandemia para se enriquecer e para se fechar na própria realidade. Todos estes sofrimentos recaem de modo desproporcional sobre os nossos irmãos e irmãs mais pobres.

Nos últimos dois anos, já pudemos confrontar-nos com todos os nossos fracassos no cuidado da nossa casa e da nossa família comum. Esquecemos frequentemente a importância da cooperação humana e da solidariedade global; esquecemos também com frequência a existência de uma relação de reciprocidade responsável entre nós e a natureza. A Terra precede-nos e foi-nos concedida, e este é um elemento-chave na nossa relação com os bens da Terra e, portanto, uma premissa fundamental para os nossos sistemas económicos. Somos administradores dos bens, não senhores. Apesar disto, a economia doentia que mata nasce da suposição que somos proprietários da criação, capazes de a explorar para os nossos interesses e crescimento. A pandemia recordou-nos este profundo vínculo de reciprocidade; lembra-nos que fomos chamados a cuidar dos bens que a criação oferece a todos; recorda-nos o dever de trabalhar e distribuir estes bens de modo que ninguém seja excluído. Por fim, recorda-nos também que, imersos num mar comum, devemos aceitar a exigência de uma nova fraternidade. Trata-se de um tempo favorável para sentir mais uma vez que precisamos uns dos outros, que temos responsabilidade pelo próximo e pelo mundo.

A qualidade do desenvolvimento dos povos e da Terra depende acima de tudo dos bens comuns. Por isso, devemos procurar novos modos para regenerar a economia na era pós-Covid-19, de tal maneira que ela seja mais justa, sustentável e solidária, isto é, mais comum. Precisamos de processos mais circulares, para produzir e não desperdiçar os recursos da nossa Terra, modos mais equitativos de vender e distribuir os bens, e comportamentos de consumo mais responsáveis. Precisamos também de um novo paradigma integral, capaz de formar as novas gerações de economistas e empresários, respeitando a nossa interconexão com a Terra. Vós, tanto na “Economia de Francisco” como em muitos outros grupos juvenis, trabalhais com o mesmo propósito. Podeis oferecer este novo olhar e este exemplo de uma nova economia.

Hoje a nossa mãe Terra geme e adverte-nos que nos aproximamos de limiares perigosos. Sem exagerar, talvez sejais a última geração que nos pode salvar. À luz desta emergência, a vossa criatividade e resiliência requerem uma grande responsabilidade. Espero que possais lançar mão destes vossos dons para corrigir os erros do passado e para nos orientar rumo a uma nova economia mais solidária, sustentável e inclusiva.

No entanto, esta missão da economia abrange a regeneração de todos os nossos sistemas sociais: instilando os valores da fraternidade, da solidariedade, do cuidado da nossa Terra e dos bens comuns em todas as nossas estruturas, conseguiremos enfrentar os maiores desafios do nosso tempo, desde a fome e a subnutrição até à distribuição equitativa de vacinas anticovid-19. Devemos trabalhar juntos e ter sonhos grandiosos. Com o olhar fixo em Jesus, encontraremos a inspiração para idealizar um novo mundo e a coragem de caminhar juntos rumo a um futuro melhor.

A vós, jovens, renovo a tarefa de recolocar a fraternidade no centro da economia. Nunca como nesta época sentimos a necessidade de jovens que saibam, mediante o estudo e a prática, demostrar que existe uma economia diferente. Não desanimeis: deixai-vos guiar pelo amor do Evangelho, que é o trampolim para qualquer mudança e que nos exorta a entrar nas feridas da história e ressuscitar. Lançai-vos com criatividade na construção de novos tempos, sensíveis à voz dos pobres e comprometei-vos a incluí-los na edificação do nosso futuro comum. Devido à importância e à urgência que tem para a economia, o nosso tempo precisa de uma nova geração de economistas que vivam o Evangelho no seio das empresas, das escolas, das fábricas, dos bancos e dos mercados. Segui o testemunho dos novos mercadores que Jesus não expulsa do templo, porque sois seus amigos e aliados do seu Reino.

Caros jovens, fazei sobressair as vossas ideias, os vossos sonhos, e através deles levai ao mundo, à Igreja e a outros jovens a profecia e a beleza das quais sois capazes. Não sois o futuro, sois o presente. Outro presente. O mundo precisa da vossa coragem agora.

Obrigado!