· Cidade do Vaticano ·

Audiência ao grupo misto de trabalho ortodoxo-católico

Ireneu «Doctor unitatis»

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19 outubro 2021

O Papa declarará Santo Ireneu Doutor da Igreja com o título de «Doctor unitatis». O anúncio foi dado pelo próprio Francisco durante a audiência — realizada na manhã de 7 de outubro, na Sala Clementina — ao grupo misto de trabalho ortodoxo-católico intitulado ao grande teólogo e bispo de Lião. A seguir o discurso proferido pelo Pontífice.

Estimados irmãos e irmãs
bom dia!

Dou-vos com alegria as boas-vindas a Roma, onde pela primeira vez vos reunis para a vossa sessão anual. Estou grato pelo trabalho teológico que estais a fazer ao serviço da comunhão entre Católicos e Ortodoxos. Agradeço ao Cardeal Koch as suas palavras de apresentação. Impressionou-me o que ele disse sobre a vossa tarefa específica: procurar juntos as modalidades nas quais as diversas tradições podem enriquecer-se mutuamente sem perder a própria identidade. Foi interessante o que disse sobre a interpretação como Gegensätze: apreciei, obrigado. É bom cultivar uma unidade enriquecida pelas diferenças, que não ceda à tentação de uma uniformidade homologadora: isto é sempre negativo, não é bom espírito. Animados por este espírito, confrontais-vos a fim de compreender como os aspetos contrastantes presentes nas nossas tradições, em vez de alimentar oposições, podem tornar-se oportunidades legítimas para expressar a fé apostólica comum.

Aprecio também o vosso nome: não uma comissão nem um comité, mas um “grupo de trabalho”: um grupo que reúne, em diálogo fraterno e paciente, peritos de várias Igrejas e diferentes países, desejosos de rezar e estudar juntos a unidade. O vosso padroeiro, Santo Ireneu de Lião, que de bom grado declararei Doutor da Igreja proximamente com o título de Doctor unitatis, veio do Oriente e exerceu o seu ministério episcopal no Ocidente; foi uma grande ponte espiritual e teológica entre cristãos orientais e ocidentais. O seu nome, Ireneu, traz impressa a palavra paz. Sabemos que a paz do Senhor não é uma paz “negociável”, fruto de acordos para tutelar interesses, mas uma paz que reconcilia, que restaura a unidade. Esta é a paz de Jesus. Cristo — escreve o apóstolo Paulo — «é a nossa paz, [...] Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava» (Ef 2, 14). Caros amigos, com a ajuda de Deus também vós estais a trabalhar para derrubar muros de separação e elevar pontes de comunhão.

Agradeço-vos por isto e em particular pelo estudo que acabastes de publicar, intitulado Servire la comunione. Ripensare il rapporto tra primato e sinodalità [Servir a comunhão. Reconsiderar a relação entre primazia e sinodalidade]. Através da paciência construtiva do diálogo, especialmente com as Igrejas ortodoxas, compreendemos melhor que a primazia e a sinodalidade na Igreja não são dois princípios concorrentes a serem mantidos em equilíbrio, mas duas realidades que se constituem e se apoiam mutuamente ao serviço da comunhão. Tal como a primazia pressupõe o exercício da sinodalidade, também a sinodalidade inclui o exercício da primazia. É interessante, deste ponto de vista, o que a Comissão teológica internacional escreveu, explicando que a sinodalidade na Igreja católica, em sentido lato, pode ser entendida como a articulação de três dimensões: «“todos”, “alguns” e “um”». De facto, «a sinodalidade requer o exercício do sensus fidei da universitas fidelium (todos), o ministério de liderança do colégio dos bispos, cada um com o seu presbitério (alguns), e o ministério de unidade do bispo e do Papa (um)» (La sinodalità nella vita e nella missione della Chiesa [A sinodalidade na vida e na missão da Igreja], 2018, n. 64).

Nesta perspetiva, o ministério primacial é intrínseco à dinâmica sinodal, assim como o aspeto comunitário que inclui todo o Povo de Deus e a dimensão colegial relacionada com o exercício do ministério episcopal. Assim, uma abordagem frutuosa da primazia nos diálogos teológico e ecuménico só pode basear-se numa reflexão sobre a sinodalidade: não há outra forma. Com efeito, expressei repetidamente a minha convicção de que «numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino poderá receber mais luz» (Discurso no cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015). Espero que, com a ajuda de Deus, o caminho sinodal, que será inaugurado dentro de poucos dias em todas as dioceses católicas, seja uma oportunidade para aprofundar também este importante aspeto, juntamente com outros cristãos.

Estimados irmãos e irmãs, agradeço-vos a vossa visita e desejo-vos uma frutuosa sessão de trabalho em Roma, no Instituto de Estudos Ecuménicos do Angelicum. Ao confiar o meu ministério às vossas orações, invoco sobre vós a bênção do Senhor e a proteção da Santa Mãe de Deus. E agora, se vos agradar, cada um na própria língua, podemos rezar juntos o Pai-Nosso.

[Pai nosso]