· Cidade do Vaticano ·

Novo apelo do Papa em prol do cuidado da casa comum

Urge uma verdadeira mudança de rumo

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05 outubro 2021

«Não há mais tempo para esperar, é preciso agir» para promover «uma verdadeira mudança de rumo» nas políticas para o cuidado da casa comum. Foi o novo apelo urgente lançado pelo Papa Francisco numa mensagem enviada aos participantes no evento de alto nível da assembleia parlamentar do Conselho da Europa sobre «Environment and human rights: right to safe, healthy and sustainable environment», realizado em Estrasburgo a 29 de setembro.

Antes de mais, gostaria de agradecer ao Senhor Rik Daems, Presidente da Assembleia Parlamentar, o seu convite apaixonado para falar sobre o tema do cuidado do meio ambiente, a nossa casa comum, este dom que recebemos e que devemos cuidar, preservar e levar por diante.

A Santa Sé, como País Observador, acompanha com particular atenção e interesse todas as atividades do Conselho da Europa a este respeito, na certeza de que as iniciativas e decisões concretas desta Organização, que podem melhorar a situação dramática em que se encontra a saúde do nosso planeta, devem ser apoiadas e bem valorizadas.

Precisamente nesse hemiciclo, a 25 de novembro de 2014, sublinhei a estreita e frutuosa cooperação entre a Santa Sé e o Conselho da Europa, e reiterei que «entre os temas que requerem a nossa reflexão e a nossa colaboração, temos a defesa do meio ambiente, desta nossa amada Terra, o grande recurso que Deus nos deu e está à nossa disposição, não para ser deturpada, explorada e vilipendiada, mas para que, gozando da sua beleza imensa, possamos viver com dignidade».1

Sucessivamente, na Carta Encíclica Laudato si’, voltei à importância de cuidar da casa comum, um princípio universal que envolve não só os fiéis cristãos, mas todas as pessoas de boa vontade que se preocupam com a proteção do meio ambiente. O presente evento, que tem lugar em vésperas da Cop26, previsto para novembro próximo em Glasgow, poderá oferecer, graças a uma maior consideração do princípio fundamental do multilateralismo, uma contribuição válida também para a próxima Reunião das Nações Unidas. A Santa Sé está convicta também de que qualquer iniciativa do Conselho da Europa não se deve limitar apenas à área geográfica deste Continente mas, partindo da nossa amada Europa, deve chegar ao mundo inteiro. Neste sentido, a decisão que o Conselho da Europa tomará de criar um novo instrumento jurídico que ligue o cuidado ambiental ao respeito pelos direitos humanos fundamentais é vista com interesse.

Não se pode esperar ainda mais, temos de agir. Qualquer instrumento que respeite os direitos humanos e os princípios da democracia e do Estado de direito, que são valores fundamentais do Conselho da Europa, pode ser útil para responder a este desafio global.

Ninguém pode negar o direito fundamental de cada ser humano a «viver com dignidade e desenvolver-se integralmente»;2 e se «todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade [...] por conseguinte, como comunidade, temos o dever de garantir que cada pessoa viva com dignidade e disponha de adequadas oportunidades para o seu desenvolvimento integral».3

Quando, por outro lado, o ser humano se considera o senhor do universo e não o seu administrador responsável, quando já não reconhece a sua justa posição em relação ao mundo, justifica todo o tipo de desperdício, tanto ambiental como humano, e trata as outras pessoas e a natureza como meros objetos.

Já os antigos diziam: «Esse oportet ut vivas, non vivere ut edas» — “Deve-se comer para viver, não viver para comer”. Deve-se consumir para viver, não viver para consumir. Acima de tudo, nunca se deve consumir em excesso, como acontece atualmente. Cada pessoa deve usar da terra o que é necessário para o seu sustento.

Tudo está interligado, e como família das nações devemos ter uma preocupação comum: «Fazer com que o meio ambiente seja mais limpo, mais puro e preservado. E cuidar da natureza, a fim de que ela cuide de nós».4

Portanto, há necessidade de uma verdadeira mudança de rumo, de uma nova consciência da relação do ser humano consigo mesmo, com os outros, com a sociedade, com a criação e com Deus.

Certamente, esta crise ecológica, que é «uma única e complexa crise socioambiental»,5 convida-nos a um diálogo interdisciplinar e operacional a todos os níveis, desde o local até ao internacional, mas também a uma responsabilidade individual e coletiva. Por conseguinte, deveríamos falar também sobre os deveres de cada ser humano de viver num ambiente sadio, saudável e sustentável. Ao contrário, quando falamos apenas de direitos, pensamos só no que nos é devido. Devemos pensar também na responsabilidade que temos para com as gerações futuras, e no mundo que queremos deixar às nossas crianças e jovens.

Espero que esta Assembleia Parlamentar e o Conselho da Europa possam identificar, promover e implementar, com determinação, todas as iniciativas necessárias para construir um mundo mais saudável, mais justo e mais sustentável: «Das mãos de Deus recebemos um jardim; aos nossos filhos não podemos deixar um deserto».6

Procedamos com esperança, coragem e vontade, tomando decisões concretas. Não podem ser adiadas para amanhã, se tiverem como finalidade proteger a casa comum e a dignidade de cada ser humano.

Francisco

1. Discurso ao Conselho da Europa, Estrasburgo, 25 de novembro de 2014.

2. Carta Encíclica Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 107.

3. Ibid., 118.

4. Mensagem em vídeo aos participantes na cúpula internacional.

“Leaders summit on climate”, 22 de abril de 2021.

5. Carta Enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 139.

6. Mensagem em vídeo para o lançamento da plataforma de ação Laudato si’, 25 de maio de 2021.