· Cidade do Vaticano ·

O bispo de Roma encontrou-se com os fiéis da sua diocese

Todos protagonistas para caminhar juntos

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05 outubro 2021

«Não se trata de recolher opiniões», nem de «um inquérito, mas de ouvir o Espírito Santo»: frisou o bispo de Roma, a 18 de setembro na Sala Paulo vi, ao encontrar-se com os fiéis da sua diocese alguns dias antes do início do «processo sinodal» — «um caminho no qual toda a Igreja está comprometida», explicou — articulado em «três fases, que se realizarão entre outubro de 2021 e outubro de 2023». Um itinerário, disse, «concebido como dinamismo de escuta recíproca, conduzido a todos os níveis da Igreja, que concerne todo o povo de Deus». No início da audiência, o cardeal vigário Angelo De Donatis manifestou ao Papa Francisco a sua alegria por este encontro no qual, assegurou, toda a diocese de Roma está «espiritualmente presente». O purpurado acrescentou ainda que a diocese o acompanhou com a oração tanto pela recente cirurgia como pela viagem apostólica realizada a Budapeste e à Eslováquia. Uma visita internacional da qual, comentou o cardeal, «vimos manifestar-se os bons frutos do espírito». O cardeal vigário observou que o pedido do Papa Bergoglio — «por favor rezai por mim» — entrou «no coração de todos». E, agradecendo-lhe o encontro — no qual participaram também os cardeais Vallini e Feroci, o arcebispo vice-regente Palmieri e os bispos auxiliares de Roma — concluiu a sua saudação do seguinte modo: «Ouvimos Vossa Santidade de bom grado com todo o coração no início deste ano pastoral». Em seguida, publicamos o discurso proferido pelo Pontífice.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Como sabeis — não é uma novidade! — está prestes a iniciar um processo sinodal, um caminho no qual toda a Igreja está comprometida ao redor do tema: «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão»: três pilares. Estão previstas três fases, que terão lugar entre outubro de 2021 e outubro de 2023. Este itinerário foi concebido como dinamismo de escuta recíproca, gostaria de o frisar: um dinamismo de escuta recíproca, conduzido a todos os níveis da Igreja, que concerne todo o povo de Deus. O Cardeal vigário e os Bispos auxiliares devem ouvir-se, os sacerdotes devem ouvir-se, os religiosos devem ouvir-se, os leigos devem ouvir-se. E depois, devem ouvir-se uns aos outros, todos. Ouvir-se; falar uns com os outros e ouvir-se uns aos outros. Não é uma questão de recolher opiniões, não. Não é um inquérito, mas trata-se de ouvir o Espírito Santo, como lemos no livro do Apocalipse: «Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas» (2, 7). Ter ouvidos, ouvir, é o primeiro compromisso. Trata-se de ouvir a voz de Deus, colher a sua presença, intercetar a sua passagem e sopro de vida. Aconteceu ao profeta Elias descobrir que Deus é sempre um Deus de surpresas, até no modo como passa e se faz ouvir:

«Passou diante do Senhor um furacão, tão violento que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto» (1 Rs 19, 11-13).

Eis como Deus nos fala. E é por esta «brisa ligeira» — que os exegetas também traduzem como “voz subtil de silêncio” e outros como “um fio de silêncio sonoro” — que devemos preparar os nossos ouvidos para ouvir esta brisa de Deus.

A primeira etapa do processo (outubro de 2021 — abril de 2022) refere-se às Igrejas diocesanas. E é por isso que estou aqui, como vosso bispo, para partilhar, pois é muito importante que a Diocese de Roma se comprometa com convicção neste caminho. Se a Diocese do Papa não se comprometesse nisto faria uma má figura, não é? Uma má figura para o Papa e também para vós.

O tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado sobre eclesiologia, e muito menos uma moda, um slogan ou um novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão. E assim falamos de Igreja sinodal, evitando, no entanto, considerar que seja um título entre outros, um modo de a considerar que preveja alternativas. Não digo isto com base numa opinião teológica, nem sequer como um pensamento pessoal, mas seguindo o que podemos considerar o primeiro e mais importante “manual” de eclesiologia, que é o livro dos Atos dos Apóstolos.

A palavra “sínodo” contém tudo o que nos serve para compreender: “caminhar juntos”. O livro dõs Atos é a história de um caminho que começa em Jerusalém e, através da Samaria e da Judeia, continua nas regiões da Síria e da Ásia Menor e depois na Grécia, concluindo-se em Roma. Este percurso narra a história em que caminham juntos a Palavra de Deus e as pessoas que àquela Palavra dedicam atenção e fé. A Palavra de Deus caminha connosco. Todos são protagonistas, ninguém pode ser considerado um mero figurante. Isto deve ser bem compreendido: todos são protagonistas. O protagonista já não é o Papa, o Cardeal vigário, os Bispos auxiliares; não: somos todos protagonistas, e ninguém pode ser considerado um mero figurante. Naquela época, os ministérios ainda eram considerados serviços autênticos. E a autoridade nasceu da escuta da voz de Deus e do povo — nunca devem ser separados — que mantinha “em baixo” aqueles que a recebiam. O “baixo” da vida, ao qual o serviço da caridade e da fé tinha de ser prestado. Mas essa história não está apenas em movimento por causa dos lugares geográficos que atravessa. Exprime uma contínua inquietação interior: esta é uma palavra-chave, inquietação interior. Se um cristão não sente esta inquietação interior, se não a vive, falta-lhe algo; e esta inquietação interior nasce da própria fé e convida-nos a considerar o que é melhor fazer, o que deve ser mantido ou mudado. Essa história ensina-nos que ficar parado não pode ser uma boa condição para a Igreja (cf. Evangelii gaudium, 23). E o movimento é consequência da docilidade ao Espírito Santo, que é o cineasta desta história em que todos são protagonistas inquietos, nunca parados.

Pedro e Paulo não são apenas duas pessoas com as próprias personalidades, são visões inseridas em horizontes maiores do que eles, capazes de se repensarem em relação ao que acontece, testemunhas de um impulso que os põe em crise — outra expressão a lembrar sempre: pôr em crise — que os leva a ousar, questionar, reconsiderar, cometer erros e aprender com eles, sobretudo a ter esperança apesar das dificuldades. São discípulos do Espírito Santo, que os faz descobrir a geografia da salvação divina, abrindo portas e janelas, abatendo muros, quebrando correntes, libertando fronteiras. Então pode ser necessário partir, mudar de direção, superar as convicções que nos retêm e nos impedem de nos mover e caminhar juntos.

Podemos ver o Espírito que impele Pedro a ir à casa de Cornélio, o centurião pagão, apesar da sua hesitação. Lembrai-vos: Pedro teve uma visão que o perturbou, na qual lhe era pedido para comer alimentos considerados impuros, e, não obstante a certeza de que o que Deus purifica já não é considerado impuro, permanecia perplexo. Procurava compreender, e eis que chegaram os homens enviados por Cornélio. Também ele tinha tido uma visão e uma mensagem. Era um oficial romano, piedoso, simpatizante do judaísmo, mas ainda não era suficiente para ser totalmente judeu ou cristão: nenhuma “alfândega” religiosa o deixaria passar. Era um pagão, e no entanto, é-lhe revelado que as suas orações chegaram a Deus, e que deve enviar alguém para dizer a Pedro que vá à sua casa. Nesta suspensão, por um lado Pedro com as suas dúvidas, e por outro Cornélio à espera naquela zona sombria, é o Espírito que dissolve a resistência de Pedro e abre uma nova página da missão. É assim que o Espírito se move. O encontro entre os dois sela uma das mais belas frases do cristianismo. Cornélio tinha ido ao seu encontro, tinha-se prostrado aos seus pés, mas Pedro ergueu-o e disse: «Levanta-te, também eu sou um homem» (At 10, 26), e todos dizemos o seguinte: “sou um homem, sou uma mulher, somos humanos”, e todos deveríamos dizê-lo, também os Bispos, todos nós: “Levanta-te: também eu sou um homem”. E o texto evidencia que conversou com ele de uma forma familiar (cf. v. 27). O cristianismo deve ser sempre humano, e humanizante, conciliando diferenças e distâncias, transformando-as em familiaridade, em proximidade. Um dos males da Igreja, na verdade uma perversão, é este clericalismo que separa o sacerdote, o Bispo, do povo. O Bispo e o sacerdote destacado do povo é um funcionário, não é um pastor. São Paulo vi gostava de citar a máxima de Terêncio: «Sou homem, nada do que é humano considero estranho a mim». O encontro entre Pedro e Cornélio resolveu um problema, fomentou a decisão de se sentir livre para pregar diretamente aos pagãos, na convicção — estas são as palavras de Pedro — «que Deus não faz distinção de pessoas» (At 10, 34). Em nome de Deus, não se pode discriminar. E a discriminação é um pecado também entre nós: “somos os puros, somos os eleitos, somos deste movimento que sabe tudo, nós somos...”. Não. Somos Igreja, todos juntos.

Reparai, não podemos compreender a “catolicidade” sem nos referirmos a este campo amplo e hospitaleiro, que nunca marca limites. Ser Igreja é um caminho para entrar nesta amplitude de Deus. Depois, voltando aos Atos dos Apóstolos, há os problemas que surgem na organização do número crescente de cristãos, e especialmente na satisfação das necessidades dos pobres. Alguns apontam para o facto de que as viúvas estão a ser negligenciadas. O modo com o qual se encontrará uma solução será reunir a assembleia dos discípulos e tomar a decisão de nomear os sete homens que se comprometeriam a tempo inteiro com a diaconia, no serviço às mesas (At 6, 1-7). E assim, com discernimento, com necessidades, com a realidade da vida e com o poder do Espírito, a Igreja vai em frente, caminha junta, é sinodal. Mas há sempre o Espírito como o grande protagonista da Igreja.

Além disso, há também o confronto entre diferentes visões e expetativas. Não devemos temer que isto ainda aconteça hoje. Se pelo menos pudéssemos fazer debates desta forma! Estes são sinais de docilidade e abertura ao Espírito. Também pode haver confrontos que atingem aspetos dramáticos, como aconteceu com o problema da circuncisão dos pagãos, até à deliberação do que chamamos o Concílio de Jerusalém, o primeiro Concílio. Como acontece também hoje, existe um modo rígido de considerar as circunstâncias, que mortifica a makrothymía de Deus, ou seja, aquela paciência do olhar que se alimenta de visões profundas, visões amplas e visões longas: Deus vê longe, Deus não tem pressa. A rigidez é outra perversão que é um pecado contra a paciência de Deus, é um pecado contra esta soberania de Deus. Isto acontece também hoje.

Aconteceu naquele tempo: alguns convertidos do judaísmo consideravam, na sua autorreferencialidade, que não poderia haver salvação sem se submeterem à Lei de Moisés. Desta forma, Paulo, que proclamou a salvação diretamente em nome de Jesus, era contestado. Opor-se à sua ação teria comprometido a aceitação dos pagãos, que, entretanto, estavam a converter-se. Paulo e Barnabé foram enviados a Jerusalém pelos Apóstolos e pelos anciãos. Não foi fácil: face a este problema, as posições pareciam irreconciliáveis, e houve muitos debates. Tratava-se de reconhecer a liberdade da ação de Deus, e que não havia obstáculos que o pudessem impedir de chegar ao coração das pessoas, qualquer que fosse a sua origem moral ou religiosa. O que desbloqueou a situação foi a adesão à evidência de que «Deus, que conhece os corações», o cardiognosta, conhece os corações, Ele próprio defendeu a possibilidade de os gentios serem admitidos à salvação, «concedendo-lhes também o Espírito Santo, como a nós» (At 15, 8), concedendo assim também aos gentios, como a nós, o Espírito Santo. Desta forma, prevaleceu o respeito por todas as sensibilidades, moderando os excessos; a experiência de Pedro com Cornélio foi preciosa: assim, no documento final, encontramos o testemunho do protagonismo do Espírito neste caminho de decisões, e da sabedoria que é sempre capaz de inspirar: «Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável» (At 15, 28). “Nós”: Neste Sínodo estamos a percorrer o caminho de poder dizer “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”, porque estareis em contínuo diálogo uns com os outros sob a ação do Espírito Santo, também em diálogo com o Espírito Santo. Não vos esqueçais desta fórmula: «pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso»: pareceu bem ao Espírito Santo e a nós. É assim que deveis procurar expressar-vos, neste caminho, nesta via sinodal. Se o Espírito não estiver presente, será um parlamento diocesano, mas não um Sínodo. Não estamos a fazer um parlamento diocesano, não estamos a fazer um estudo sobre isto ou aquilo, não: estamos a realizar um caminho de escuta recíproca e de escuta do Espírito Santo, de debate e também de debate com o Espírito Santo, que é um modo de orar.

“O Espírito Santo e nós”. Por outro lado, há sempre a tentação de ir sozinho, expressando uma eclesiologia substituta — há tantas eclesiologias substitutas — como se, subindo ao Céu, o Senhor tivesse deixado um vazio a ser preenchido, e nós preenchemo-lo. Não, o Senhor deixou-nos o Espírito! Mas as palavras de Jesus são claras: «Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco [...] Não vos deixarei órfãos» (Jo 14, 16-18). Para o cumprimento desta promessa, a Igreja é sacramento, como se afirma na Lumen gentium, 1: «A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano». Nesta frase, que retoma o testemunho do Concílio de Jerusalém, há a negação daqueles que insistem em tomar o lugar de Deus, pretendendo modelar a Igreja sobre as próprias convicções culturais, históricas, forçando-a às fronteiras armadas, às alfândegas culpabilizantes, às espiritualidades que blasfemam a gratuidade da ação envolvente de Deus. Quando a Igreja é testemunha, em palavras e ações, do amor incondicional de Deus, da sua amplitude hospitaleira, ela exprime verdadeiramente a própria catolicidade. E é impelida, interior e exteriormente, a atravessar espaços e tempos. O impulso e a capacidade vêm do Espírito: «Descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo» (At 1, 8). Receber o poder do Espírito Santo para sermos testemunhas: este é o nosso caminho como Igreja, e seremos Igreja se seguirmos este caminho.

Igreja sinodal significa Igreja sacramento desta promessa — que o Espírito estará connosco — que se manifesta através do cultivo da intimidade com o Espírito e com o mundo vindouro. Haverá sempre debates, graças a Deus, mas as soluções devem ser procuradas dando a palavra a Deus e às suas vozes no meio de nós; orando e abrindo os olhos a tudo o que nos rodeia; praticando uma vida fiel ao Evangelho; questionando a Revelação segundo uma hermenêutica peregrina que sabe preservar o caminho iniciado nos Atos dos Apóstolos. E isto é importante: o modo de compreender, de interpretar. Uma hermenêutica peregrina, ou seja, que está a caminho. O caminho que começou depois do Concílio? Não. Começou com os primeiros Apóstolos, e continua. Quando a Igreja pára, já não é Igreja, mas uma bela associação piedosa, porque enjaula o Espírito Santo. Hermenêutica peregrina que sabe preservar o caminho iniciado nos Atos dos Apóstolos. Caso contrário, o Espírito Santo seria humilhado. Gustav Mahler — já o disse noutras ocasiões — afirmava que a fidelidade à tradição não consiste em adorar as cinzas, mas em preservar o fogo. Pergunto-vos: “Antes de iniciar este caminho sinodal, para o que estais mais inclinados: guardar as cinzas da Igreja, isto é, da vossa associação, do vosso grupo, ou preservar o fogo? Estais mais inclinados para adorar as vossas coisas, que vos fecham — sou de Pedro, sou de Paulo, pertenço a esta associação, vós àquela outra, sou sacerdote, sou bispo — ou sentis-vos chamados a guardar o fogo do Espírito? Gustav Mahler foi um grande compositor, mas é também mestre de sabedoria com esta reflexão. Dei Verbum (n. 8), citando a Carta aos Hebreus, afirma: «Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho». Há uma fórmula feliz de São Vicente de Lérins que, comparando o ser humano em crescimento e a Tradição transmitida de uma geração a outra, afirma que não se pode preservar o “depósito da fé” sem o fazer progredir: «consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo, aprofundando-se com a idade» (Commonitorium primum, 23, 9) — “ut annis consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate”. Este é o estilo do nosso caminho: as realidades, se não caminharem, são como a água. As realidades teológicas são como a água: se a água não fluir e permanecer parada, é a primeira a apodrecer. Uma Igreja parada começa a ser putrefacta.

Vede como a nossa Tradição é uma massa fermentada, uma realidade em fermentação onde podemos reconhecer o crescimento, e na massa uma comunhão que se implementa em movimento: caminhar juntos realiza a verdadeira comunhão. Mais uma vez é o livro dos Atos dos Apóstolos que nos ajuda, mostrando-nos que a comunhão não suprime as diferenças. É a surpresa do Pentecostes, quando línguas diferentes não são obstáculos: embora fossem estrangeiros uns e outros, graças à ação do Espírito «cada um ouve na própria língua» (At 2, 8). Sentir-se em casa, diferentes, mas solidários no caminho. Desculpai-me por me ter prolongado tanto, mas o Sínodo é um assunto sério e é por isso que tomei a liberdade de falar...

Voltando ao processo sinodal, a fase diocesana é muito importante, porque realiza a escuta da totalidade dos batizados, sujeito do sensus fidei infalível in credendo. Há muitas resistências em superar a imagem de uma Igreja rigidamente dividida entre líderes e subordinados, entre os que ensinam e os que têm de aprender, esquecendo que Deus gosta de inverter posições: «Derrubou os poderosos dos seus tronos, elevou os humildes» (Lc 1, 52), disse Maria. Caminhar juntos evidencia como linha mais a horizontalidade do que a verticalidade. A Igreja sinodal restaura o horizonte a partir do qual o sol Cristo surge: erguer monumentos hierárquicos significa cobri-lo. Os pastores caminham com o povo: nós pastores caminhamos com o povo, às vezes à frente, outras no meio, e outras atrás. O bom pastor deve mover-se deste modo: na frente para guiar, no meio para encorajar e não esquecer o cheiro do rebanho, atrás porque também o povo tem “faro”. Tem olfato para encontrar novas vias para o caminho, ou para encontrar novamente a vereda perdida. Quero sublinhar isto, e também aos bispos e sacerdotes da diocese. No seu caminho sinodal, que se perguntem: “Mas sou capaz de caminhar, de me mover, na frente, no meio e atrás, ou estou só na cátedra, com a mitra e o báculo?”. Pastores misturados, mas pastores, não rebanho: o rebanho sabe que somos pastores, o rebanho conhece a diferença. Na frente para indicar o caminho, no meio para sentir o que as pessoas sentem, e atrás para ajudar aqueles que estão um pouco atrás e para deixar que o povo veja com o seu intuito onde estão as melhores relvas.

O sensus fidei qualifica todos na dignidade da função profética de Jesus Cristo (cf. Lumen gentium, 34-35), para que possamos discernir quais são os caminhos do Evangelho no presente. É o “olfato” das ovelhas, mas estejamos atentos, pois na história da salvação somos todos ovelhas em relação ao Pastor que é o Senhor. A imagem ajuda-nos a compreender as duas dimensões que contribuem para este “olfato”. Uma pessoal e outra comunitária: somos ovelhas e fazemos parte do rebanho, que, neste caso, representa a Igreja. Lemos no Breviário, no Ofício das Leituras, o “De pastoribus” de Agostinho, e ele diz-nos: “Convosco sou ovelha, para vós sou um pastor”. Estes dois aspetos, pessoal e eclesial, são inseparáveis: não pode haver sensus fidei sem participação na vida da Igreja, que não é apenas ativismo católico, deve haver sobretudo aquele “sentir” que se nutre dos «sentimentos de Cristo» (Fl 2, 5).

O exercício do sensus fidei não pode ser reduzido à comunicação e ao confronto de opiniões que possamos ter sobre este ou aquele tema, aquele aspeto único da doutrina, ou aquela regra de disciplina. Não, esses são instrumentos, são verbalizações, são expressões dogmáticas ou disciplinares. Mas não deve e não pode prevalecer para distinguir maiorias e minorias: é isso que um parlamento faz. Quantas vezes os “descartados” se tornaram “pedra angular” (cf. Sl 118, 22; Mt 21, 42), os «distantes» tornaram-se «próximos» (Ef 2, 13). Os marginalizados, os pobres, os desanimados foram eleitos como sacramento de Cristo (cf. Mt 25, 31-46). A Igreja é assim. E quando alguns grupos se quiseram destacar mais, acabaram sempre mal, também na negação da Salvação, nas heresias. Pensemos naquelas heresias que pretendiam levar a Igreja avante, como o pelagianismo, depois o jansenismo. Todas as heresias acabaram mal. O gnosticismo e o pelagianismo são tentações contínuas na Igreja. Preocupamo-nos muito, e com razão, que tudo possa honrar as celebrações litúrgicas, e isto é bom — embora muitas vezes acabemos por nos confortar apenas a nós mesmos — mas São João Crisóstomo admoesta-nos: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja objeto de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm com que se cobrir. Não o honres aqui na igreja com panos de seda, enquanto fora o negligencias quando sofre de frio e nudez. Aquele que disse: “Este é o meu corpo”, confirmando o facto com a palavra, também disse: “Vistes-me com fome e não me destes de comer”, e: “Sempre que não fizestes isto a um dos pequeninos, foi a mim que não o fizestes”». (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3). “Mas, Padre, o que está a dizer? Os pobres, os mendigos, os jovens toxicodependentes, todos estes que a sociedade descarta, são parte do Sínodo?”. Sim, caro, sim, cara: não o digo eu, é o Senhor quem o diz: são parte da Igreja. A ponto que, se não os chamarmos, veremos o modo, ou se não os procurarmos para estar algum tempo com eles, para ouvir não o que dizem, mas o que sentem, até os insultos que nos dirigem, não estamos a fazer bem o Sínodo. O Sínodo vai até aos limites, inclui todos. O Sínodo também tem a ver com criar espaço para o diálogo sobre as nossas misérias, as misérias que eu tenho como vosso bispo, as misérias que os bispos auxiliares têm, as misérias que os sacerdotes e os leigos têm, e aqueles que pertencem a associações; considerar toda esta miséria! Mas se não incluirmos os miseráveis — entre aspas — da sociedade, aqueles que são descartados, nunca seremos capazes de assumir a nossa miséria. E isto é importante: que no diálogo possam sobressair as nossas misérias, sem justificação. Não tenhais medo!

Devemos sentir que fazemos parte de um grande povo que é o destinatário das promessas divinas, aberto a um futuro que espera todos para participar no banquete preparado por Deus para todos os povos (cf. Is 25, 6). Gostaria de salientar que também sobre o conceito de “povo de Deus” pode haver uma hermenêutica rígida e antagónica, permanecendo presos na ideia de uma exclusividade, de um privilégio, como aconteceu com a interpretação do conceito de “eleição” que os profetas corrigiram, indicando como deve ser corretamente compreendido. Não se trata de um privilégio — ser o povo de Deus — mas de um dom que alguém recebe... para si? Não: para todos, o dom deve ser oferecido: esta é a vocação. É um presente que alguém recebe para todos, que nós recebemos para os outros, é um dom que é também uma responsabilidade. A responsabilidade de dar testemunho com ações e não apenas com palavras das maravilhas de Deus, que, se conhecidas, ajudam as pessoas a descobrir a sua existência e a aceitar a sua salvação. A eleição é um dom, e a questão é: o meu ser cristão, a minha confissão cristã, como é que a ofereço? A vontade salvífica universal de Deus é oferecida à história, a toda a humanidade através da encarnação do seu Filho, para que todos, através da mediação da Igreja, possam tornar-se seus filhos e irmãos e irmãs entre si. É assim que se realiza a reconciliação universal entre Deus e a humanidade, aquela unidade de todo o género humano da qual a Igreja é sinal e instrumento (cf. Lumen gentium, 1). Já antes do Concílio Vaticano ii tinha amadurecido a reflexão, elaborada sobre o estudo cuidadoso dos Padres, de que o Povo de Deus está inclinado para a realização do Reino, para a unidade do género humano criado e amado por Deus. E a Igreja tal como a conhecemos e experimentamos, na sucessão apostólica, esta Igreja deve sentir-se em relação com esta eleição universal e, portanto, cumprir a sua missão. Foi com este espírito que escrevi Fratelli tutti. A Igreja, como disse São Paulo vi, é mestra de humanidade, que hoje pretende tornar-se uma escola de fraternidade.

Por que vos estou a dizer isto? Porque no caminho sinodal, a escuta deve ter em conta o sensus fidei, mas não deve ignorar todos aqueles “pressentimentos” encarnados onde não os esperaríamos: pode haver um “intuito sem cidadania”, mas não é menos eficaz. O Espírito Santo na sua liberdade não conhece fronteiras, nem se deixa limitar pelas pertenças. Se a paróquia é a casa de todos os habitantes do bairro, e não um clube exclusivo, recomendo: deixai as portas e as janelas abertas, não vos limiteis a considerar apenas aqueles que frequentam ou pensam como vós – que serão 3, 4 ou 5%, não mais. Deixai que todos entrem... Deixai-vos encontrar e deixai que vos interpelem, deixai que as suas perguntas sejam as vossas perguntas, caminhai juntos: o Espírito conduzir-vos-á, confiai no Espírito. Não tenhais medo de entrar em diálogo e deixai-vos perturbar pelo diálogo: é o diálogo da salvação.

Não vos desencanteis, preparai-vos para as surpresas. Há um episódio no livro dos Números (cap. 22) que fala de uma jumenta que se tornará profetisa de Deus. Os judeus estão a concluir a longa viagem que os conduzirá à terra prometida. A sua passagem assusta o rei Balak de Moab, que confia nos poderes do mago Balaão para deter o povo, na esperança de evitar uma guerra. O mago, à sua maneira de acreditar, pergunta a Deus o que fazer. Deus diz-lhe que não se alinhe com o rei, que insiste, por isso ele cede e monta numa jumenta para cumprir a ordem que recebeu. Mas a jumenta muda de direção porque vê um anjo com uma espada desembainhada ali parado para representar a oposição de Deus. Balaão puxa-a, bate nela, sem conseguir fazê-la retomar o caminho. Até que a jumenta começa a falar, iniciando um diálogo que abrirá os olhos do mago, transformando a sua missão de maldição e morte numa missão de bênção e vida.

Esta história ensina-nos a ter confiança que o Espírito fará sempre ouvir a sua voz. Até uma jumenta pode tornar-se a voz de Deus, abrindo os nossos olhos e convertendo os nossos rumos errados. Se uma jumenta pode fazer isto, muito mais um batizado, uma batizada, um sacerdote, um Bispo, um Papa. Basta confiarmo-nos ao Espírito Santo que usa todas as criaturas para nos falar: ele pede-nos unicamente que limpemos os nossos ouvidos para ouvir bem.

Vim aqui para vos encorajar a levar a sério este processo sinodal e para vos dizer que o Espírito Santo precisa de vós. E isto é verdade: o Espírito Santo precisa de nós. Escutai-o escutando-vos. Não deixeis ninguém de fora ou para trás. Será bom para a Diocese de Roma e para toda a Igreja, que não se reforça só reformando as estruturas — este é o grande engano — dando instruções, oferecendo retiros e conferências, ou à força de diretivas e programas — isto é positivo, mas como parte de outra coisa — mas se redescobrir que é um povo que quer caminhar junto, entre nós e com a humanidade. Um povo, o de Roma, que contém a variedade de todos os povos e de todas as condições: que riqueza extraordinária, na sua complexidade! Mas precisamos de sair dos 3-4% que representam os mais próximos, e ir além disso para ouvir os outros, que por vezes vos insultarão, vos perseguirão, mas precisamos de ouvir o que eles pensam, sem querer impor as nossas coisas: deixar que o Espírito nos fale.

Neste tempo de pandemia, o Senhor impulsiona a missão de uma Igreja que seja um sacramento de cura. O mundo elevou o seu clamor, manifestou a sua vulnerabilidade: o mundo precisa de cura.

Coragem e em frente! Obrigado!