· Cidade do Vaticano ·

No Angelus o apelo do Pontífice a favor de um mundo cada vez mais inclusivo

Não fechemos as portas

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28 setembro 2021

«Não fechemos as portas à sua esperança»: eis o apelo lançado pelo Papa no final do Angelus de 26 de setembro, por ocasião do Dia mundial do migrante e do refugiado, que este ano teve como tema «Rumo a um nós cada vez maior». Antes de presidir à recitação da prece mariana do meio-dia do Palácio apostólico do Vaticano com os fiéis presentes na praça de São Pedro, o Pontífice comentou o Evangelho do domingo (Mc 9, 38-43.45.47-48).

Amados irmãos e irmãs
bom dia!

O Evangelho da liturgia de hoje narra um breve diálogo entre Jesus e o apóstolo João, que fala em nome de todo o grupo de discípulos. Eles viram um homem que expulsava demónios em nome do Senhor, mas impediram-no de o fazer porque não pertencia ao seu grupo. Jesus, neste momento, convida-os a não impedirem aqueles que praticam o bem, pois concorrem para realizar o projeto de Deus (cf. Mc 9, 38-41). Depois admoesta-os: em vez de dividir as pessoas em boas e más, somos todos chamados a vigiar o nosso coração, para não sucumbirmos ao mal e dar escândalo aos outros (cf. vv. 42-45, 47-48).

As palavras de Jesus revelam uma tentação e oferecem uma exortação. A tentação é o fechamento. Os discípulos desejavam impedir uma obra de bem só porque a pessoa que a realizava não pertencia ao seu grupo. Eles pensam que têm “direitos exclusivos sobre Jesus” e que são os únicos autorizados a trabalhar pelo Reino de Deus. Mas deste modo acabam por se sentir prediletos e consideram os outros como estranhos, a ponto de se tornarem hostis para com eles. Com efeito, irmãos e irmãs, cada fechamento afasta quantos não pensam como nós. E isto – como sabemos – é a raiz de tantos males da história: a partir do absolutismo que muitas vezes gerou ditaduras e de tantas violências para com aqueles que são diferentes.

Mas também devemos vigiar sobre o fechamento na Igreja. Porque o diabo, que é o divisor – é isso que a palavra “diabo” significa, ele faz divisão – insinua sempre suspeitas para dividir e excluir pessoas. Ele tenta com astúcia, e pode acontecer como com aqueles discípulos, que chegam ao ponto de excluir até quantos tinham expulsado o próprio diabo! Por vezes também nós, em vez de sermos comunidades humildes e abertas, podemos dar a impressão de sermos “os melhores da classe” e manter os outros à distância; em vez de procurarmos caminhar com todos, podemos exibir a nossa “carta de condução de crentes”: “sou crente”, “sou católico”, “sou católica”, “pertenço a esta associação, àquela outra...”; e os outros, pobrezinhos, não. Isto é um pecado. Exibir a “carta de condução de crentes” para julgar e excluir. Peçamos a graça de superar a tentação de julgar e de catalogar, e que Deus nos preserve da mentalidade do “ninho”, a de nos preservarmos ciosamente no pequeno grupo daqueles que se consideram bons: o sacerdote com os seus fidelíssimos, os agentes pastorais fechados entre si para que ninguém se infiltre, os movimentos e as associações no próprio carisma particular, e assim por diante. Fechados. Tudo isto corre o risco de tornar as comunidades cristãs lugares de separação e não de comunhão. O Espírito Santo não quer fechamentos; quer abertura, comunidades acolhedoras onde haja lugar para todos.

E depois, no Evangelho, há a exortação de Jesus: em vez de julgarmos tudo e todos, prestemos atenção a nós mesmos! Na verdade, o risco é sermos inflexíveis para com os outros e indulgentes com nós próprios. E Jesus exorta-nos a não fazer acordos com o mal, com imagens que impressionam: “Se algo em ti é motivo de escândalo, corta-o”! (cf. vv. 43-48). Se algo te faz mal, corta-o! Ele não diz: “Se algo é motivo de escândalo, pára, reflete, melhora um pouco...”. Não: “Corta-o! Imediatamente!”. Nisto Jesus é radical, exigente, mas para o nosso bem, como um bom médico. Cada corte, cada poda, é para crescer melhor e dar frutos no amor. Então perguntemo-nos: o que há em mim que contrasta com o Evangelho? O que quer Jesus que eu corte concretamente na minha vida?

Rezemos à Imaculada Virgem Maria para que nos ajude a sermos acolhedores para com os outros e vigilantes em relação a nós mesmos.

Após o Angelus, o bispo de Roma falou sobre o Dia do migrante e do refugiado, manifestando solidariedade para quantos, nas ilhas Canárias, foram atingidos por uma erupção vulcânica; depois, recordou a beatificação, ocorrida em Bolonha, do sacerdote mártir Giovanni Fornasini; e no final saudou os vários grupos presentes.

Estimados irmãos e irmãs!

Hoje celebramos o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que este ano tem como tema “Rumo a um nós cada vez maior”. É necessário caminhar juntos, sem preconceitos nem temores, colocando-nos ao lado daqueles que são mais vulneráveis: migrantes, refugiados, pessoas deslocadas, vítimas de tráfico e abandonados. Somos chamados a construir um mundo cada vez mais inclusivo, sem excluir ninguém.

Uno-me a quantos, nas várias partes do mundo, estão a celebrar este Dia; saúdo os fiéis reunidos em Loreto para a iniciativa da Conferência Episcopal Italiana a favor dos migrantes e refugiados. Saúdo e agradeço às diversas comunidades étnicas aqui presentes na Praça com as suas bandeiras; saúdo os representantes do projeto “APRI” da Cáritas Italiana; bem como o Departamento “Migrantes” da Diocese de Roma e o Centro Astalli. Obrigado a todos pelo vosso generoso compromisso!

E antes de deixar a praça, convido-vos a aproximar-vos daquele monumento – onde está o Cardeal Czerny – o barco com os migrantes, e a fitar o olhar daquelas pessoas e a ver naquele olhar a esperança que hoje cada migrante tem para recomeçar a viver. Ide ver aquele monumento. Não fechemos as portas à esperança deles.

Exprimo proximidade e solidariedade a quantos foram atingidos pela erupção do vulcão na ilha de La Palma, nas Canárias. Penso especialmente naqueles que foram forçados a abandonar as suas casas. Rezemos a Nossa Senhora, venerada naquela ilha como Nuestra Señora de las Nieves, por estas pessoas tão provadas e pelos socorristas.

Hoje será beatificado em Bolonha o padre Giovanni Fornasini, sacerdote e mártir. Pároco zeloso na caridade, não abandonou o seu rebanho durante o período trágico da segunda guerra mundial, mas defendeu-o até ao derramamento do sangue. Que o seu heroico testemunho nos ajude a enfrentar com fortaleza as provações da vida. Aplaudamos o novo Beato!

E saúdo todos vós, romanos e peregrinos de vários países. Em particular, saúdo o Movimento laical da Obra de Don Orione e a representação de pais e jovens associados à luta contra o cancro.

Desejo a todos bom domingo. E por favor, por favor não vos esqueçais de rezar por mim.

Bom almoço e até à vista!