· Cidade do Vaticano ·

Francisco pediu aos catequistas que se abram ao impulso do Espírito para ser apaixonados e criativos

Em busca de novos “alfabetos” de fé

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28 setembro 2021

Publicamos o discurso dirigido pelo Papa aos responsáveis das comissões para a catequese das Conferências episcopais europeias — que participaram num encontro promovido pelo pontifício Conselho para a promoção da nova evangelização — durante a audiência realizada a 17 de setembro, na Sala Clementina.

Queridos irmãos e irmãs
bom dia, bem-vindos!

Acolho-vos com prazer, nesta ocasião em que tivestes a oportunidade de refletir, como responsáveis pela catequese das Igrejas particulares na Europa, sobre a receção do novo Diretório para a catequese, publicado no ano passado. Agradeço a D. Rino Fisichela esta iniciativa, que certamente se estenderá também às Conferências episcopais dos outros continentes, para que o caminho catequético comum seja enriquecido por muitas experiências locais.

Acabei de voltar da celebração do Congresso Eucarístico Internacional, que se realizou em Budapeste nos últimos dias, e a ocasião é propícia para verificar de que forma o grande empenho da catequese pode ser eficaz na obra de evangelização se mantiver o olhar fixo no mistério eucarístico. Não podemos esquecer que o lugar privilegiado da catequese é precisamente a celebração eucarística, onde os irmãos e as irmãs se encontram reunidos para descobrir cada vez mais as diferentes modalidades da presença de Deus na sua vida.

Apraz-me pensar naquele trecho do Evangelho de Mateus, em que os discípulos perguntam a Jesus: «Onde queres que preparemos a Ceia pascal?» (26, 17). A resposta de Jesus manifesta claramente que Ele já tinha pensado em tudo: conhecia o percurso que iria fazer um homem com uma bilha de água, sabia da sala grande já mobilada no andar de cima da casa (cf. Lc 22, 10-12); e, sem o dizer, dava-se plenamente conta de tudo o que estava no coração dos seus amigos devido ao que iria acontecer nos dias seguintes.

As palavras iniciais com que os envia são: «Ide à cidade» (Mt 26, 18). Este pormenor — pensando em vós e no vosso serviço — leva-nos a reler o caminho da catequese como momento através do qual os cristãos, que se preparam para celebrar o ápice do mistério da fé, são convidados a ir primeiro “à cidade”, para se encontrar com as pessoas atarefadas nos seus compromissos quotidianos. A catequese — como sublinha o novo Diretório — não é uma comunicação abstrata de conhecimentos para aprender de cor, como se fossem fórmulas de matemática ou de química. É, sobretudo, a experiência mistagógica de todos os que aprendem a encontrar-se com os irmãos no lugar onde vivem e trabalham, porque eles próprios se encontraram com Cristo, que os chamou a tornar-se discípulos missionários. Precisamos de insistir em indicar o coração da catequese: Jesus Cristo ressuscitado ama-te e nunca te abandona! Este primeiro anúncio nunca pode encontrar-nos cansados nem repetitivos nas várias fases do caminho catequético.

Por este motivo, instituí o ministério de catequista. Estão a preparar o ritual para a “criação”, por assim dizer, dos catequistas. Para que a comunidade cristã sinta a exigência de suscitar esta vocação e de experimentar o serviço de alguns homens e mulheres que, vivendo da celebração eucarística, sintam mais viva a paixão de transmitir a fé como evangelizadores. O catequista e a catequista são testemunhas que se colocam ao serviço da comunidade cristã, para apoiar o aprofundamento da fé no concreto da vida quotidiana. São pessoas que anunciam incansavelmente o Evangelho da misericórdia; pessoas capazes de criar os laços necessários de acolhimento e de proximidade que permitem saborear melhor a Palavra de Deus e celebrar o mistério eucarístico, oferecendo frutos de boas obras.

Como eu disse na segunda-feira passada na Catedral de Bratislava, a evangelização nunca é repetição do passado. Os grandes santos evangelizadores, como Cirilo e Metódio, como Bonifácio, foram criativos, com a criatividade do Espírito Santo. Abriram caminhos novos, inventaram novas linguagens, novos “alfabetos”, para transmitir o Evangelho, para a inculturação da fé. Isto exige que saibamos escutar as pessoas, os povos a quem anunciamos: escutar a sua cultura, a sua história; escutar não superficialmente, pensando já nas respostas pré-fabricadas que trazemos na maleta, não! Escutar verdadeiramente e confrontar essas culturas, essas linguagens, também e sobretudo o que não se diz, o que não se exprime, com a Palavra de Deus, com Jesus Cristo, Evangelho vivo. E repito a pergunta: não é esta a tarefa mais urgente da Igreja entre os povos da Europa? A grande tradição cristã do continente não deve transformar-se num achado histórico; caso contrário, deixa de ser “tradição”! A tradição ou é viva ou não é. E a catequese é tradição, é tradere, mas tradição viva, de coração a coração, de mente a mente, de vida a vida. Portanto: apaixonados e criativos, com o impulso do Espírito Santo. Utilizei a palavra “pré-fabricada” para a linguagem, mas assustam-me os catequistas que têm o coração, a atitude e a cara “pré-fabricadas”. Não! Ou o catequista é livre ou não é catequista. O catequista deixa-se impressionar pela realidade que encontra e transmite o Evangelho com grande criatividade, ou não é catequista. Pensai bem nisto!

Caríssimos, através de vós, gostaria de fazer chegar o meu agradecimento pessoal aos milhares de catequistas da Europa. Penso de modo particular naqueles que, a partir das próximas semanas, dedicarão muito trabalho às crianças e aos adolescentes que se preparam para completar o seu percurso de iniciação cristã. Mas penso em todos e em cada um. Que a Virgem Maria interceda por vós, para que o Espírito Santo vos assista sempre. Acompanho-vos com a minha oração e com a Bênção Apostólica. E também vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!