· Cidade do Vaticano ·

Uma admoestação contra a loucura do ódio que desonra o nome de Deus

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
21 setembro 2021

Depois da sua visita ao Centro «Belém», na tarde de 13 de setembro, Francisco encontrou-se com a comunidade judaica eslovaca na praça Rybné námestie, em Bratislava. Depois da saudação introdutória e dos testemunhos, o Santo Padre proferiu o discurso que publicamos a seguir.

Queridos irmãos e irmãs, boa tarde!

Agradeço as palavras de boas-vindas e os testemunhos que destes. Estou aqui como peregrino para tocar este lugar e ser tocado por ele. A praça onde nos encontramos é muito significativa para a vossa comunidade. Mantém viva a memória de um rico passado: durante vários séculos, fez parte do bairro judeu; aqui trabalhou o célebre rabino Chatam Sofer. Aqui havia uma sinagoga, mesmo junto da Catedral da Coroação. Diz-se que a arquitetura exprimia a convivência pacífica das duas comunidades, símbolo raro e altamente sugestivo, sinal estupendo de unidade no nome do Deus de nossos pais. Aqui sinto também eu, como tantos outros, a necessidade de “tirar as sandálias”, porque me encontro num lugar abençoado pela fraternidade entre os homens no nome do Altíssimo.

Mais tarde, porém, o nome de Deus foi desonrado: na loucura do ódio, durante a segunda guerra mundial, foram mortos mais de cem mil judeus eslovacos. E depois, quando se quis cancelar os vestígios da comunidade, foi demolida a sinagoga que havia aqui. Está escrito: «Não usarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão» (Êx 20, 7). O nome divino, ou seja, a sua própria realidade pessoal, é nomeado em vão quando se viola a dignidade única e incomparável do homem, criado à imagem d’Ele. Aqui o nome de Deus foi desonrado, porque a pior blasfémia que se lhe pode fazer é usá-lo para os próprios fins em vez de servir para respeitar e amar os outros. Aqui, tendo diante dos olhos a história do povo judeu marcada por esta trágica e inaudita afronta, sentimos vergonha em admiti-lo: quantas vezes o nome inefável do Altíssimo foi usado para indescritíveis atos de desumanidade! Quantos opressores declararam “Deus está connosco”, mas eram eles que não estavam com Deus...

Queridos irmãos e irmãs, a vossa história é a nossa história, os vossos sofrimentos são os nossos sofrimentos. Para alguns de vós, este Memorial do Shoah é o único lugar onde podeis honrar a memória dos vossos entes queridos. Também eu me uno a vós. No Memorial, está inscrito, em hebraico, “Zachor — Recorda!”. A memória não pode nem deve ceder lugar ao esquecimento, porque não haverá alvorada duradoura de fraternidade sem antes se ter compartilhado e dissipado as trevas da noite. Também para nós ressoa esta pergunta do profeta: «Sentinela, que vês na noite?» (Is 21, 11). Para nós, este é o tempo em que não se pode obscurecer a imagem de Deus que brilha no homem. Ajudemo-nos nisto, porque também hoje não faltam ídolos vãos e falsos que desonram o nome do Altíssimo. São os ídolos do poder e do dinheiro que prevalecem sobre a dignidade do homem, da indiferença que volta o olhar para o outro lado, das manipulações que instrumentalizam a religião, tornando-a uma questão de supremacia ou então reduzindo-a à irrelevância. E existem ainda o esquecimento do passado, a ignorância que justifica tudo, a raiva e o ódio. Estejamos unidos — repito — na condenação de toda a violência, de todas as formas de antissemitismo, e no empenho por que não seja profanada a imagem de Deus na criatura humana.

Mas esta praça, queridos irmãos e irmãs, é também um lugar onde brilha a luz da esperança. Aqui vindes, todos os anos, acender a primeira chama no castiçal Chanukiá. Assim, na obscuridade, aparece a mensagem de que não são a destruição e a morte a ter a última palavra, mas a renovação e a vida. E se a sinagoga deste lugar foi demolida, a comunidade está ainda presente; está viva e aberta ao diálogo. Aqui cruzam-se de novo as nossas histórias. Aqui afirmamos juntos, diante de Deus, a vontade de prosseguir no caminho da aproximação e amizade.

A propósito, continua viva em mim a memória do encontro em Roma, no ano de 2017, com os representantes das vossas comunidades judaicas e cristãs. Alegro-me por se ter instituído depois uma Comissão para o diálogo com a Igreja católica, tendo-se publicado em conjunto importantes documentos. É bom partilhar e comunicar o que nos une. E é bom continuar, na verdade e com sinceridade, o caminho fraterno de purificação da memória para curar as feridas do passado, bem como a recordação do bem recebido e oferecido. Segundo o Talmud, quem destrói um só homem destrói o mundo inteiro, e quem salva um só homem salva o mundo inteiro. Cada um é importante, como o é também aquilo que fazeis através da vossa preciosa partilha. Agradeço-vos as portas que abristes de ambos os lados.

O mundo precisa de portas abertas. São sinais de bênção para a humanidade. Deus disse ao pai Abraão: «Todas as famílias da terra serão abençoadas em ti» (Gn 12, 3). É um refrão que marca as vidas dos pais (cf. Gn 18, 18; 22, 18; 26, 4). A Jacob, ou seja, Israel, Deus disse: «A tua posteridade será tão numerosa como o pó da terra; estender-te-ás para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o sul. E todas as famílias da terra serão abençoadas em ti e na tua descendência» (Gn 28, 14). Aqui, na Eslováquia, terra de encontro entre oriente e ocidente, norte e sul, que a família dos filhos de Israel continue a cultivar esta vocação, o chamamento a ser sinal de bênção para todas as famílias da terra. A bênção do Altíssimo derrama-se sobre nós, quando vê uma família de irmãos que se respeitam, amam e colaboram entre si. Abençoe-vos o Todo-Poderoso para que unidos, no meio de tanta discórdia que polui o nosso mundo, possais ser sempre testemunhas de paz.

Shalom!