· Cidade do Vaticano ·

No Angelus o Pontífice exortou a servir quem não pode restituir

Para ser o primeiro é preciso pôr-se no final da fila

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
21 setembro 2021

Foi um verdadeiro exame de consciência sobre o significado do serviço, o que o Papa Francisco propôs na meditação de domingo, 19 de setembro, durante a recitação do Angelus com os fiéis na Praça de São Pedro. «Será que entendo a vida como um concurso para arranjar espaço para mim próprio à custa dos outros, ou será que penso que sobressair significa servir?» disse o Pontífice da janela do Palácio Apostólico do Vaticano. Convidando a perguntarem-se se também dão tempo àqueles que «não têm os meios para retribuir». Publicamos as suas palavras comentando o Evangelho do dia.

Estimados irmãos e irmãs bom dia!

O Evangelho da liturgia de hoje (Mc 9, 30-37) narra que, a caminho de Jerusalém, os discípulos de Jesus estavam a discutir sobre quem «era o maior entre eles» (v. 34). Jesus dirigiu-lhes então uma frase vigorosa, que se aplica também a nós hoje: «Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos» (v. 35). Se quiseres ser o primeiro, deves pôr-te no final da fila, ser o último, e servir a todos. Com esta frase lapidária, o Senhor inaugura uma inversão: ele derruba os critérios que marcam o que realmente conta. O valor de uma pessoa já não depende do papel que desempenha, do sucesso que tem, do trabalho que faz, do dinheiro no banco; não, não; não depende disso; a grandeza e o sucesso, aos olhos de Deus, têm uma medida diferente: são calculados pelo serviço. Não pelo que se tem, mas pelo que se dá. Queres ser o primeiro? Serve. Este é o caminho.

Hoje a palavra “serviço” parece um pouco desbotada, desgastada pelo uso. Mas no Evangelho tem um significado exato e concreto. Servir não é uma expressão de cortesia: é fazer como Jesus fez, o qual, resumindo a sua vida em poucas palavras, disse que veio «não para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). Assim disse o Senhor. Portanto, se quisermos seguir Jesus, devemos percorrer o caminho que ele mesmo traçou, a via do serviço. A nossa fidelidade ao Senhor depende da nossa disponibilidade para servir. E isto, sabemos, custa, pois “sabe a cruz”. Mas à medida que os nossos cuidados e disponibilidade para com os outros crescem, tornamo-nos mais livres por dentro, mais semelhantes a Jesus. Quanto mais servimos, mais sentimos a presença de Deus. Sobretudo quando servimos aqueles que nada têm para nos devolver, os pobres, abraçando as suas dificuldades e necessidades com terna compaixão: e assim descobrimos que somos, por nossa vez, amados e abraçados por Deus.

Jesus, precisamente para ilustrar isto, depois de ter falado da primazia do serviço, faz um gesto. Vimos que os gestos de Jesus são mais fortes do que as palavras que usa. E qual foi o gesto? Ele pega num menino e coloca-a no meio dos discípulos, no centro, no lugar mais importante (cf. v. 36). O menino, no Evangelho, não simboliza a inocência, mas a pequenez. Porque os mais pequeninos, como as crianças, dependem dos outros, dos adultos, precisam de receber. Jesus abraça aquele menino e diz que quem acolhe um pequenino, uma criança, é a Ele que acolhe (cf. v. 37). Eis, antes de mais, quem servir: quantos precisam de receber e não têm como restituir. Servir aqueles que precisam de receber e não têm como restituir. Ao acolher aqueles que estão à margem, negligenciados, acolhemos Jesus, porque Ele está ali. E num pequenino, num pobre a quem servimos, também nós recebemos o terno abraço de Deus.

Amados irmãos e irmãs, interpelados pelo Evangelho, perguntemo-nos: será que eu, que sigo Jesus, me interesso por aqueles que são mais negligenciados? Ou, como os discípulos daquele dia, procuro gratificação pessoal? Será que entendo a vida como uma competição para criar espaço para mim mesmo à custa dos outros, ou será que acredito que sobressair é servir? E, concretamente: dedico tempo a algum “pequenino”, a uma pessoa que não tem os meios para restituir? Ocupo-me de alguém que não me pode restituir, ou apenas dos meus parentes e amigos? São perguntas que podemos formular a nós mesmos.

Que a Virgem Maria, humilde serva do Senhor, nos ajude a compreender que servir não nos diminui, mas faz-nos crescer. E que há mais alegria em dar do que em receber (cf. At 20, 35).

No final da oração mariana, o Papa expressou a sua proximidade às vítimas das inundações no México e às pessoas injustamente detidas em países estrangeiros, recordou o 175º aniversário da aparição de Nossa Senhora em La Salette e dirigiu saudações a vários grupos de peregrinos.

Estimados irmãos e irmãs!

Estou próximo das vítimas das inundações no Estado de Hidalgo, México, especialmente dos doentes que morreram no hospital de Tula e dos seus familiares.

Desejo assegurar a minha oração pelas pessoas que estão injustamente detidas em países estrangeiros. Infelizmente há vários casos, com causas diferentes e por vezes complexas; espero que, no devido cumprimento da justiça, estas pessoas possam regressar à sua pátria o mais depressa possível.

Saúdo todos vós, romanos e peregrinos de vários países — polacos, eslovacos, das Honduras... Muito bem! — famílias, grupos, associações e fiéis. Em particular, saúdo os crismandos de Scandicci e a Associação de Estudantes do Servo de Deus Padre Gianfranco Maria Chiti, frade capuchinho cujo centenário do nascimento se comemora hoje.

O meu pensamento dirige-se a quantos estão reunidos no Santuário de La Salette, na França, para recordar o 175º aniversário da aparição de Nossa Senhora, que se mostrou em lágrimas a dois jovens. As lágrimas de Maria trazem à mente aquelas de Jesus sobre Jerusalém e a sua angústia no Getsémani. São um reflexo da dor de Cristo pelos nossos pecados e um apelo sempre oportuno à confiança na misericórdia de Deus.

Desejo a todos bom domingo. E por favor não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista! Um aplauso aos jovens da Imaculada!