· Cidade do Vaticano ·

Discurso do Papa aos participantes no capítulo geral dos Carmelitas descalços

Amizade com Deus

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21 setembro 2021

«Amizade com Deus, vida fraterna e missão»: a harmonia entre estes três elementos é uma meta fascinante para a grande família religiosa dos Carmelitas descalços, cujos representantes — reunidos de 30 de agosto a 14 de setembro em capítulo geral — foram recebidos em audiência pelo Papa na manhã de 11 de setembro, na sala Clementina.

Prezados irmãos!

É com prazer que vos dou as boas-vindas, a vós que estais reunidos para o Capítulo Geral de diferentes regiões do mundo, em representação dos cerca de quatro mil frades que fazem parte da vossa Ordem. A minha saudação estende-se também a eles, assim como às monjas Carmelitas Descalças e a todos os membros da família carmelita, que nestes dias acompanham o vosso trabalho com a oração. Agradeço ao novo Prior-Geral as suas palavras, e ao Prior-Geral cessante o serviço levado a cabo. Obrigado!

Começastes o Capítulo orientados por três textos bíblicos muito significativos. Primeiro: ouvir o que o Espírito diz (cf. Ap 2, 7); segundo: discernir os sinais dos tempos (cf. Mt 16, 3); terceiro: tornar-se testemunhas até aos confins da terra (cf. At 1, 8).

Ouvir é a atitude fundamental do discípulo, daqueles que se põem na escola de Jesus e querem responder àquilo que Ele nos pede neste momento difícil mas sempre belo, pois se trata do tempo de Deus. Ouvir o Espírito, para poder discernir o que vem do Senhor e o que lhe é contrário e, desta maneira, responder a partir do Evangelho, responder aos sinais dos tempos, através dos quais o Senhor da história nos fala e se revela. Escuta e discernimento, em vista do testemunho, da missão cumprida com o anúncio do Evangelho, quer com palavras, quer sobretudo com a vida.

Neste tempo, em que a pandemia colocou todos nós diante de muitas interrogações e que viu o colapso de tantas certezas, como filhos de Santa Teresa sois chamados a cuidar da vossa fidelidade aos elementos perenes do vosso carisma. Esta crise, se tem algo de bom — e certamente tem — é precisamente o reconduzir-nos ao essencial, e o não viver distraídos por falsas certezas. Este contexto é favorável também para examinardes o estado de saúde da vossa Ordem e para alimentar o fogo das vossas origens.

Às vezes alguém pergunta qual é o futuro da vida consagrada; e alguns profetas da desgraça dizem que este futuro é breve, que a vida consagrada está em fase de extinção. Mas, estimados irmãos, estas visões pessimistas destinam-se a ser desmentidas, assim como aquelas sobre a própria Igreja, pois a vida consagrada é parte integrante da Igreja, da sua índole escatológica, da sua genuinidade evangélica. A vida consagrada faz parte da Igreja, tal como Jesus a quis e como o Espírito a gera continuamente. Portanto, é preciso afastar a tentação de se preocupar em sobreviver, em vez de viver em plenitude, acolhendo a graça do presente, inclusive com os riscos que isto acarreta.

Na escola de Cristo, trata-se de ser fiel ao presente e, ao mesmo tempo, livre e aberto ao horizonte de Deus, imerso no seu mistério de amor. A vida carmelita é uma vida contemplativa. Este é o dom que o Espírito concedeu à Igreja com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, e depois com os numerosos santos e santas carmelitas. Fiel a este dom, a vida carmelita é uma resposta à sede do homem contemporâneo, que no fundo é sede de Deus, sede do eterno e muitas vezes não o compreende, procura-o em toda a parte. E está protegido de psicologismos, espiritualismos, ou falsas atualizações que escondem um espírito de mundanidade. Conheceis bem a tentação dos psicologismos, dos espiritualismos e das atualizações mundanas, o espírito de mundanidade. E sobre isto peço-vos, por favor: cuidado com a mundanidade espiritual, pois é o pior mal que pode acontecer à Igreja. Quando li isto nas últimas páginas da Meditação sobre a Igreja, do padre de Lubac — lede as últimas quatro páginas — eu não queria acreditar: mas por que — eu ainda estava em Buenos Aires — por que acontece isto? O que é esta mundanidade espiritual? É muito sorrateira, é muito sorrateira, entra e não nos apercebemos. O texto cita um padre espiritual beneditino, de Lubac lê aquele texto e diz: “É o pior dos males que pode acontecer à Igreja, na realidade é pior do que aquela época dos Papas concubináros”. Eu disse isto também aos Claretianos, há poucos dias. Pode-se ver que L’Osservatore Romano se assustou com este texto, que não é meu, é de de Lubac, e colocou “pior do que os padres concubináros”; tinha medo da verdade, espero que L’Osservatore se corrija. A mundanidade espiritual é terrível, entra dentro de ti. Está presente no Evangelho, di-lo Jesus, quando fala dos “demónios educados”, dos “diabos educados”, pois Jesus diz assim: quando o espírito imundo é expulso da alma de uma pessoa, começa a vaguear por lugares desertos e depois “aborrece-se”, “não tem trabalho”, e diz: “Voltarei para ver como era aquela minha casa”. Volta e vê que tudo está limpo, tudo está em ordem e, Jesus diz: “Vai e leva consigo sete demónios piores do que ele e entram. E o fim daquele homem é pior do que o início”. Mas como entram aqueles sete demónios? Não como ladrões, não: tocam à campainha, dizem bom dia e entram pouco a pouco, entram gradualmente e não notas que tomaram posse da tua casa. Este é o espírito da mundanidade. Entra pouco a pouco, entra até na oração, entra. Tende cuidado com isto! É o pior mal que pode acontecer à Igreja e, se não acreditardes em mim, lede as últimas quatro páginas da Meditação sobre a Igreja, do padre de Lubac. Cuidado com a mundanidade espiritual!

Recordemos que a fidelidade evangélica não é estabilidade de lugar, mas estabilidade de coração; que não consiste em recusar a mudança, mas em fazer as mudanças necessárias para ir ao encontro do que o Senhor nos pede, aqui e agora. E portanto, a fidelidade exige um compromisso firme acerca dos valores do Evangelho e do próprio carisma, e a renúncia àquilo que nos impede de dar o melhor de nós mesmos ao Senhor e ao próximo.

Nesta perspetiva, encorajo-vos a manter unidas a amizade com Deus, a vida fraterna em comunidade e a missão, como se lê nos documentos preparatórios do vosso Capítulo. Para Santa Teresa, a amizade com o Senhor significa viver em comunhão com Ele, não só rezar, mas fazer da vida uma oração, caminhar — como diz a vossa Regra — “in obsequio Iesu Christi”, e fazê-lo com alegria. Outra coisa que gostaria de salientar: a alegria. É triste ver consagrados e consagradas com cara de velório. É triste, é triste! A alegria deve vir de dentro: aquela alegria que é paz, expressão de amizade. Outra coisa que escrevi na Exortação sobre a santidade: o sentido de humor. Por favor, não percais o sentido de humor. Na Gaudete et exsultate incluí, naquele capítulo, uma prece de S. Tomás More, para pedir o sentido de humor. Recitai-a, far-vos-á bem! Sempre com aquela alegria dos humildes, que aceitam as coisas normais da vida de todos os dias para viver na alegria. Nesta ótica, encorajo-vos a manter unidas a amizade com Deus, a vida fraterna em comunidade e a missão, como eu disse.

A amizade com Deus amadurece no silêncio, no recolhimento, na escuta da Palavra de Deus; é um fogo que deve ser alimentado e preservado dia após dia.

O calor deste fogo interior também ajuda a praticar a vida fraterna em comunidade. Ela não é um elemento acessório, é substancial. É o que o vosso próprio nome vos recorda: “Irmãos descalços”. Radicados na relação com Deus, Trindade do Amor, sois chamados a cultivar as relações no Espírito, numa tensão saudável entre o estar a sós e o estar com os outros, contra a corrente em relação ao individualismo e à massificação do mundo. O individualismo e a massificação. Vida comunitária. Santa madre Teresa exorta ao “estilo de fraternidade”, “el estilo de hermandad”. Trata-se de uma arte que se aprende dia após dia: ser família unida em Cristo, “irmãos descalços de Maria”, tendo como modelo a Sagrada Família de Nazaré e a comunidade apostólica. A Sagrada Família de Nazaré: agradeço por terdes mencionado São José, não vos esqueçais dele! Certa vez, um de vós ofereceu-me um santinho de São José com uma oração, uma prece humilde que diz: “Aceita-me, como aceitaste Jesus”. Bonita oração, recito-a todos os dias. Pede a São José que nos aceite e nos faça progredir na vida espiritual, que seja um pouco o nosso pai espiritual, como foi pai para Jesus e na Sagrada Família.

Partindo da amizade com Deus e do estilo de fraternidade, sois chamados a repensar também a vossa missão, com criatividade e um impulso apostólico decisivo, prestando grande atenção ao mundo de hoje. Gostaria de insistir sobre o que já mencionei antes: esta renovação da vossa missão está inseparavelmente ligada à fidelidade à vocação contemplativa: procurai descobrir como o fazer, mas está ligada. Não deveis imitar a missão de outros carismas, mas ser fiéis ao vosso, para oferecer ao mundo o que o Senhor vos concedeu para o bem de todos, ou seja, a água viva da contemplação. Com efeito, ela não é evasão da realidade, fechamento num oásis protegido, mas abertura do coração e da vida à força que verdadeiramente transforma o mundo, isto é, o amor de Deus. Era da prolongada oração solitária que Jesus recebia o impulso para “repartir” todos os dias a sua vida no meio do povo. E também os santos e as santas: a generosidade e a coragem do seu apostolado são fruto da sua profunda união com Deus.

Caros irmãos, a harmonia entre estes três elementos: amizade com Deus, vida fraterna e missão, é uma meta fascinante, capaz de motivar as vossas escolhas presentes e futuras. O Espírito Santo — é precisamente Ele quem cria a harmonia — ilumine e guie os vossos passos ao longo deste caminho. A Virgem Santa vos proteja e vos acompanhe. Abençoo-vos de coração. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim, pois preciso disto. Obrigado!