· Cidade do Vaticano ·

Peregrinação do Papa Francisco na Eslováquia

A Europa não voltará a encontrar as suas raízes sem a unidade entre todos os cristãos

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21 setembro 2021

Depois de chegar ao aeroporto internacional de Bratislava proveniente de Budapeste, na tarde de domingo 12 de setembro, o Papa Francisco foi à nunciatura apostólica, onde teve lugar o encontro ecuménico, introduzido pelo presidente do Conselho ecuménico das Igrejas. A seguir, o discurso proferido pelo Pontífice.

Queridos membros
do Conselho Ecuménico
das Igrejas
na República Eslovaca!

Saúdo-vos cordialmente e vos agradeço terdes acolhido o convite para me vir encontrar: eu, peregrino na Eslováquia, vós, hóspedes bem-vindos na Nunciatura! Estou contente por o primeiro encontro ser convosco: constitui um sinal de que a fé cristã é — e quer ser — neste país semente de unidade e fermento de fraternidade. Obrigado, Beatitude, Irmão Rastislav, pela sua presença; obrigado, querido Bispo Ivan, Presidente do Conselho Ecuménico, pelas palavras que me dirigiu, nelas testemunhando o empenho em querer continuar a caminhar juntos para passar do conflito à comunhão.

O caminho das vossas comunidades pôde ser retomado após os anos da perseguição ateia em que a liberdade religiosa esteve impedida ou sujeita a dura prova. Depois, finalmente, aquela chegou. E agora tendes em comum uma parte do caminho, experimentando como é belo, mas ao mesmo tempo difícil, viver a fé em liberdade. De facto, existe a tentação de voltar a ser escravos, não certamente de um regime, mas de uma escravidão ainda pior: a interior.

Para isto mesmo, advertia Dostoievski numa célebre narrativa, O grande inquisidor. Jesus voltou à terra e foi preso. O inquisidor dirige-lhe palavras mordazes: a acusação que lhe faz é precisamente a de ter dado demasiada importância à liberdade dos homens. Diz-lhe: «Queres ir pelo mundo e vais de mãos vazias, com uma promessa de liberdade que eles, na sua simplicidade e no seu natural desregramento, não podem sequer compreender e de que têm medo; porque é que nada foi nunca tão insuportável para o homem e para a sociedade humana como a liberdade?» (Os Irmãos Karamazov, Lisboa 2012, p. 258). E insiste, acrescentando que os homens estão dispostos a trocar, de boa vontade, a sua liberdade por uma escravidão mais cómoda — a de sujeitar-se a quem decida por eles — contanto que tenham pão e segurança. Chega assim ao ponto de censurar Jesus por não ter querido tornar-se César para dominar a consciência dos homens e estabelecer a paz pela força. Em vez disso, continuou a preferir a liberdade para o homem, enquanto a humanidade reivindica apenas «pão e pouco mais».

Queridos Irmãos, que isto não aconteça connosco! Ajudemo-nos a não cair na armadilha de nos contentarmos com pão e pouco mais. Pois este risco sobrevém quando a situação se normaliza, quando nos estabelecemos e acomodamos desejando levar uma vida tranquila. Assim, o objetivo em vista deixa de ser a liberdade «que temos em Cristo Jesus» (Gl 2, 4), a sua verdade que nos faz livres (cf. Jo 8, 32), e passa a ser a obtenção de espaços e privilégios, que, segundo o Evangelho, são «pão e pouco mais». Daqui, do coração da Europa, perguntemo-nos: será que nós, cristãos, perdemos um pouco o ardor do anúncio e a profecia do testemunho? É a verdade do Evangelho que nos faz livres, ou então sentimo-nos livres quando alcançamos zonas de conforto que nos permitem gerir a vida e avançar tranquilos sem particulares contratempos? Mais ainda: contentando-nos com pão e segurança, será que não perdemos o ímpeto na busca da unidade que Jesus implorou, uma unidade que certamente requer a liberdade madura de opções fortes, renúncias e sacrifícios, mas é a premissa para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21)? Não nos preocupemos apenas com o que possa ser útil às nossas próprias comunidades; a liberdade do irmão e da irmã é também a nossa liberdade, porque, sem a dele e a dela, não será plena a nossa liberdade.

Aqui, a evangelização nasceu de modo fraterno, trazendo impresso o selo dos santos irmãos de Tessalónica, Cirilo e Metódio. Que eles, testemunhas de um cristianismo ainda unido e inflamado pelo ardor do anúncio, nos ajudem a continuar o caminho, cultivando entre nós a comunhão fraterna no nome de Jesus. Caso contrário, como podemos desejar uma Europa que reencontre as suas raízes cristãs, se somos nós os primeiros desarraigados da plena comunhão? Como podemos sonhar com uma Europa livre de ideologias, se não temos a coragem de antepor a liberdade de Jesus às necessidades dos grupos particulares de crentes? É difícil exigir uma Europa mais fecundada pelo Evangelho sem se preocupar com o facto de ainda não estarmos plenamente unidos entre nós no continente e sem cuidarmos uns dos outros. Cálculos de conveniência, razões históricas e laços políticos não podem ser obstáculos irremovíveis no nosso caminho. Que os Santos Cirilo e Metódio, «precursores do ecumenismo» ( São João Paulo ii , Carta enc. Slavorum Apostoli, 14), nos ajudem a trabalhar pela reconciliação das diferenças no Espírito Santo; por uma unidade que, sem ser uniformidade, se revele sinal e testemunho da liberdade de Cristo, o Senhor que desata as amarras do passado e nos cura dos medos e da timidez.

No seu tempo, Cirilo e Metódio tornaram possível que a Palavra de Deus se encarnasse nestas terras (cf. Jo 1, 14). Gostaria de partilhar convosco duas sugestões nesta perspetiva, conselhos fraternos para a difusão do Evangelho da liberdade e da unidade no tempo atual. O primeiro conselho, a primeira sugestão diz respeito à contemplação. Um traço distintivo dos povos eslavos, que cabe a vós unidos conservar, é a dimensão contemplativa, que ultrapassa as conceptualizações filosóficas e mesmo teológicas a partir de uma fé vivida que sabe acolher o mistério. Ajudai-vos mutuamente a cultivar esta tradição espiritual de que a Europa tanto necessita: particularmente tem sede dela o Ocidente eclesial para redescobrir a beleza da adoração de Deus e a importância de não conceber a comunidade de fé primariamente segundo uma eficiência programática e funcional.

O segundo conselho, por sua vez, diz respeito à ação. A unidade não se alcança tanto com os bons propósitos e a adesão a qualquer valor comum, como sobretudo fazendo algo em conjunto por aqueles que mais nos aproximam do Senhor. Quem são? Os pobres, porque neles está presente Jesus (cf. Mt 25, 40). A partilha da caridade abre horizontes mais amplos e ajuda a caminhar mais rápido, superando preconceitos e equívocos. Trata-se de um traço que encontra também genuína aceitação neste país, como demonstra esta estupenda passagem de um poema que se aprende de cor na escola: «Quando uma mão estrangeira bate à nossa porta com sincera confiança: seja quem for, venha de perto ou de longe, chegue de dia ou de noite, aguarda-o sobre a nossa mesa o dom de Deus» ( Samo Chalupka , Mor ho!, 1864). Que o dom de Deus esteja presente sobre a mesa de todos, pois, embora ainda não possamos partilhar a mesma Mesa Eucarística, podemos hospedar juntos Jesus, servindo-O nos pobres. Será um sinal mais sugestivo do que muitas palavras, que ajudará a sociedade civil a compreender, especialmente neste período doloroso, que só estando do lado dos mais fracos poderemos sair verdadeiramente todos juntos da pandemia.

Queridos irmãos, agradeço-vos a vossa presença e o vosso caminho: o caráter sereno e acolhedor, típico do povo eslovaco, a tradicional convivência pacífica entre vós, e a vossa colaboração em prol do bem do país são elementos preciosos para o crescimento do Evangelho. Encorajo-vos a prosseguir no caminho ecuménico, tesouro irrenunciável e valioso. Asseguro a vossa recordação nas minhas orações e peço-vos, por favor, que rezeis por mim. Obrigado!