· Cidade do Vaticano ·

Acolher e proteger os afegãos em busca de uma nova vida

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
07 setembro 2021

Um apelo sincero a acolher os afegãos que «procuram uma nova vida» foi feito pelo Papa Francisco no Angelus, ao meio-dia de 5 de setembro, da janela do Palácio apostólico do Vaticano, no final da oração mariana com os fiéis presentes na praça de São Pedro. Antes, o Pontífice comentou o Evangelho do 23º Domingo do tempo comum.

Estimados irmãos e irmãs bom dia!

O Evangelho da Liturgia de hoje apresenta Jesus que cura uma pessoa surda-muda. O que impressiona na narração é o modo como o Senhor realiza este sinal prodigioso. E fá-lo desta forma: chama à parte o surdo-mudo, põe-lhe os dedos nos ouvidos e com a saliva toca-lhe a língua, depois olha para o céu, suspira e diz: “Efatá”, ou seja, «Abre-te!» (cf. Mc 7, 33-34). Noutras curas de doenças igualmente graves, tais como a paralisia ou a lepra, Jesus não realiza tantos gestos. Por que faz tudo isto agora, apesar de só lhe ter sido pedido que pusesse a mão sobre a pessoa doente (cf. v. 32)? Por que faz estes gestos? Talvez porque a condição daquela pessoa tem um valor simbólico particular. Ser surdo-mudo é uma doença, mas também um símbolo. E este símbolo tem algo a dizer a todos nós. Do que se trata? Trata-se da surdez. Aquele homem não conseguia falar porque não podia ouvir. Com efeito, Jesus para curar a causa da sua doença, coloca primeiro os dedos nos seus ouvidos, depois na sua boca, mas primeiro nos ouvidos.

Todos nós temos ouvidos, mas muitas vezes não conseguimos ouvir. Porquê? Irmãos e irmãs, existe de facto uma surdez interior, e hoje podemos pedir a Jesus para lhe tocar e curar. E essa surdez interior é pior do que a física, pois é a surdez do coração. Na nossa pressa, com mil coisas para dizer e fazer, não encontramos tempo para parar e ouvir aqueles que falam connosco. Corremos o risco de nos tornarmos impermeáveis a tudo e de não dar lugar àqueles que precisam de ser ouvidos: penso nas crianças, nos jovens, nos idosos, muitos que não precisam tanto de palavras e sermões, mas de ser ouvidos. Perguntemo-nos: como vai a minha escuta? Será que me sensibilizo com a vida das pessoas, que sei ter tempo para ouvir os que me rodeiam? Isto é para todos nós, mas de uma forma especial para os padres, os sacerdotes. O sacerdote deve ouvir as pessoas, não ter pressa, ouvir... e ver como pode ajudar, mas depois de ter ouvido. E todos nós: primeiro ouvir, depois responder. Pensemos na vida em família: quantas vezes falamos sem ouvir primeiro, repetindo as próprias ladainhas, sempre as mesmas! Incapazes de ouvir, dizemos as mesmas coisas vezes sem conta, ou não deixamos que a outra pessoa acabe de falar, de se expressar, e interrompemo-la. O renascimento de um diálogo muitas vezes não vem das palavras, mas do silêncio, sem insistências, do recomeçar pacientemente a ouvir a outra pessoa, de ouvir as suas lutas, o que tem dentro. A cura do coração começa com a escuta. Ouvir. E isto cura o coração. “Mas padre, há pessoas chatas que dizem sempre as mesmas coisas...”. Escuta-as. E depois, quando acabarem de falar, diz a tua palavra, mas ouve tudo.

E o mesmo é válido com o Senhor. Fazemos bem em inundá-lo com pedidos, mas faríamos bem antes de tudo em ouvi-lo. Jesus pede isso. No Evangelho, quando lhe perguntam qual é o primeiro mandamento, Ele responde: «Ouve, Israel». Depois, acrescenta o primeiro mandamento: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração [...] e o teu próximo como a ti mesmo» (Mc 12, 28-31). Mas antes de mais, diz: «Ouve, Israel». Ouve. Será que nos lembramos de ouvir o Senhor? Somos cristãos, mas talvez, entre os milhares de palavras que ouvimos todos os dias, não encontremos alguns segundos para deixar ressoar em nós algumas palavras do Evangelho. Jesus é a Palavra: se não pararmos para o ouvir, Ele passa além. Se não pararmos para ouvir Jesus, Ele passa adiante. Santo Agostinho dizia: «Tenho medo do Senhor quando passa». E o medo era de o deixar passar sem o ouvir. Mas se dedicarmos tempo ao Evangelho, encontraremos um segredo para a nossa saúde espiritual. Eis o remédio: todos os dias, um pouco de silêncio e de escuta, menos palavras inúteis e mais Palavra de Deus. Sempre com o Evangelho no bolso, que ajuda muito. Hoje, como no dia do nosso Batismo, ouçamos as palavras de Jesus dirigidas a nós: “Efatá, abre-te”! Abri os ouvidos. Jesus, desejo abrir-me à tua Palavra; Jesus, abre-me à tua escuta; Jesus, cura o meu coração do fechamento, cura o meu coração da pressa, cura o meu coração da impaciência.

Que a Virgem Maria, aberta à escuta da Palavra, que nela se fez carne, nos ajude todos os dias a escutar o seu Filho no Evangelho e os nossos irmãos e irmãs com coração dócil, com coração paciente e com coração atento.

No final do Angelus, o Papa recordou a beatificação na Argentina do bispo franciscano Mamerto Esquiú, falou do drama afegão e rezou pela população dos Estados Unidos atingida por um furacão. Em seguida, ofereceu os melhores votos para o Ano Novo judaico e, tendo em vista a sua próxima viagem a Budapeste e Eslováquia, invocou a intercessão de «tantos heroicos confessores da fé, que testemunharam o Evangelho naqueles lugares no meio de hostilidades e perseguições».

Ontem, em Catamarca (Argentina), foi beatificado Mamerto Esquiú, Frade Menor e Bispo de Córdoba. Finalmente, um Beato argentino! Foi um zeloso anunciador da Palavra de Deus, para a edificação da comunidade eclesial e civil. Que o seu exemplo nos ajude sempre a unir a oração e o apostolado, e a servir a paz e a fraternidade. Um aplauso para o novo Beato!

Nestes tempos conturbados em que os afegãos procuram refúgio, rezo pelos mais vulneráveis entre eles. Rezo para que muitos países acolham e protejam quantos procuram uma nova vida. Rezo também pelos deslocados internos, para que tenham a assistência e proteção de que necessitam. Que os jovens afegãos recebam educação, um bem essencial para o desenvolvimento humano. E que todos os afegãos, quer na pátria, quer em trânsito ou nos países de acolhimento, possam viver com dignidade, em paz e fraternidade com os seus vizinhos.

Asseguro a minha oração pelas populações dos Estados Unidos da América atingidas nos últimos dias por um forte furacão. Que o Senhor receba as almas dos defuntos e apoie quantos sofrem por esta calamidade.

Nos próximos dias celebra-se o Ano Novo judaico, Rosh Hashanah. E em seguida as duas festas do Yom Kippur e do Sukkot. Dirijo de coração os meus bons votos a todos os irmãos e irmãs da religião judaica: que o novo ano seja rico de frutos de paz e bem para quantos caminham fielmente na Lei do Senhor.

No próximo domingo irei a Budapeste para a conclusão do Congresso Eucarístico Internacional. A minha peregrinação continuará, após a Missa, durante alguns dias na Eslováquia, e concluir-se-á na quarta-feira seguinte com a grande celebração popular de Nossa Senhora das Dores, Padroeira daquele país. Estes serão dias marcados pela adoração e oração no coração da Europa. Enquanto saúdo com afeto aqueles que prepararam esta viagem — e agradeço-lhes — e quantos me esperam e que eu próprio desejo de coração encontrar, peço a todos que me acompanhem com a oração, e confio as visitas que realizarei à intercessão de tantos heroicos confessores da fé, que nesses lugares deram testemunho do Evangelho no meio da hostilidade e das perseguições. Que eles ajudem a Europa a dar testemunho também hoje, não tanto com palavras, mas sobretudo com ações, com obras de misericórdia e acolhimento, da boa nova do Senhor que nos ama e nos salva. Obrigado!

E agora dirijo a minha saudação a vós, queridos romanos e peregrinos! Em particular, ofereço os meus bons votos à Legião de Maria, que celebra o centenário: que Deus vos abençoe e que a Virgem vos proteja! Saúdo os jovens da Obra da Igreja, os jovens de Faenza e os de Castenedolo que receberam a Crisma e a Primeira Comunhão, o grupo de Arta Terme e os fiéis polacos e lituanos acompanhados pelos seus amigos dos Abruzos.

Hoje celebra-se a memória de Santa Teresa de Calcutá, conhecida por todos como Madre Teresa. Uma grande salva de palmas! Estendo as minhas saudações a todas as Missionárias da Caridade, comprometidas em todo o mundo num serviço frequentemente heroico, penso em particular nas religiosas do “Dom de Maria”, aqui no Vaticano.

Desejo a todos bom domingo. Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista!