· Cidade do Vaticano ·

Crianças, muros e aviões

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31 agosto 2021

Publicamos neste número a reflexão do padre Luigi Maria Epicoco, sobre as imagens que chegam do Afeganistão, aquelas que emocionaram o mundo inteiro (pelo menos esta é a esperança): mães e pais que confiam os seus filhinhos aos soldados, “lançando-os” para o outro lado do muro, abandonando-os e, ao fazê-lo, com dor atroz, salvando-os. Também publicamos uma destas fotografias: um pai que ergue o braço para entregar o seu filho, como se fosse um cesto de comida, um presente, uma testemunha, a um estranho, a um soldado totalmente equipado com armas ameaçadoras e letais.

Há três dias, difundiu-se uma notícia que parece o negativo daquelas fotografias: uma mulher afegã, que conseguira embarcar num daqueles aviões de salvação, durante a viagem começou a ter dores de parto. No entanto, o avião, com destino a Berlim, voava a uma altitude de cruzeiro normal e isto criou mais problemas a um parto já muito complicado. O piloto do avião, avisado sobre a situação, arriscando, desceu a uma altitude mais baixa e esta decisão permitiu o bom êxito da vicissitude, no final a criança nasceu. Infelizmente, as condições da mãe permanecem muito graves e teme-se pela sua vida.

Estas histórias de salvação (cada história humana tem a ver com a salvação) merecem uma pausa, exigem um momento de reflexão. Há que pensar. Antes de mais, há que “sentir”. Um cristão, em particular, não pode permanecer indiferente, deixar de se sentir profundamente comovido com estes acontecimentos.

Do ponto de vista “físico”, as duas histórias movem-se na direção oposta, mas rumo ao mesmo objetivo, precisamente a salvação. Na primeira, o gesto é ascendente: o pai levanta o filho para o confiar ao soldado e assim entregá-lo à vida, ao futuro, àquilo que é negado deste lado daquele muro. Na segunda, o protagonista é o soldado, o seu gesto é, ao contrário, descendente: neste caso foi ele que, tendo ouvido o grito de dor e de socorro, se moveu, inclinando-se, com todos os riscos que isto implica, e permitindo que a vida vença. Gesto “admirável”: é o adjetivo com que se define a condescendência de Deus (cf. Dei Verbum, 13), um antigo tema da teologia cristã para indicar o amor divino que desce e se abaixa ao nível dos homens para comunicar com eles e para os salvar. Aquela mulher afegã que deu à luz num avião, em fuga de um destino de morte, lembra-nos Maria (para quem “se cumpriram os dias do parto”) e, viajando no dorso de um jumento, rumo a uma terra estrangeira e hostil, o Egito, para salvar a vida de Jesus. Aquela mulher, que hoje arrisca a vida por ter dado à luz o filho, se tivesse dado à luz há algum tempo, pode-se pensar que muito provavelmente teria feito o gesto dos pais diante daquele muro, também eles dispostos a sacrificar-se para deixar viver o próprio filho.

São duas histórias de sacrifício e de salvação, da vitória da vida sobre a morte. Certamente uma vitória apenas temporária, que não garante um final feliz para todos os personagens, pais e filhos, destas vicissitudes, mas que vale a pena recordar, com a esperança de impelir a pensar e depois a agir, a fim de que haja menos muros intransponíveis de separação e mais generosidade nos corações que, até arriscando a vida, sejam capazes de reagir à escuridão em que hoje vivemos, oferecendo um momento de solidariedade e de luz.

Andrea Monda