· Cidade do Vaticano ·

Mensagem para a 71 a Semana nacional em Cremona

Recuperar a centralidade da liturgia na vida de fé

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24 agosto 2021

Publicamos o texto da mensagem — assinada pelo cardeal secretário de Estado — que o Papa enviou ao bispo de Castellaneta, Claudio Maniago, presidente do Centro de ação litúrgica, por ocasião da 71ª Semana litúrgica nacional, que decorre em Cremona (Itália), de 23 a 26 de agosto.

Excelência Reverendíssima!

Na feliz circunstância da 71ª Semana litúrgica nacional, que terá lugar na cidade de Cremona de 23 a 26 de agosto, o Santo Padre Francisco tem o prazer de transmitir a sua auspiciosa palavra a Vossa Excelência, aos colaboradores do Cal, à Diocese anfitriã, ao seu Pastor e a quantos participarem nos significativos dias de estudo.

O Sumo Pontífice une-se à comum ação de graças ao Senhor, uma vez que este ano é possível realizar o evento, após o triste momento do ano passado quando, a seguir às conhecidas condições de propagação da pandemia, o evento programado teve que ser adiado. Contudo, a dolorosa decisão permitiu confirmar com uma nova luz o tema escolhido, que tenciona aprofundar aspetos e situações da celebração, duramente provados pelo início da propagação da Covid-19 e pelas necessárias restrições para a conter.

Com efeito, o tema que abordareis diz respeito ao convenire in unum dos discípulos do Senhor para cumprir a sua ordem «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22, 19c): «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome...» (Mt 18, 20). Comunidades, liturgias e territórios. O encontro semanal em «nome do Senhor», desde os primórdios sentido pelos cristãos como uma realidade irrenunciável, indissoluvelmente ligada à própria identidade, foi gravemente minado durante a fase mais aguda da propagação da pandemia. Mas o amor ao Senhor e a criatividade pastoral levaram pastores e fiéis leigos a procurar outros caminhos para nutrir a comunhão de fé e de amor com o Senhor e com os irmãos, na expetativa de poder voltar à plenitude da celebração eucarística em tranquilidade e segurança. Foi uma espera árdua e sofrida, iluminada pelo mistério da Cruz do Senhor e fecunda em numerosos gestos de cuidado, de amor fraterno e de serviço às pessoas que mais sofreram as consequências da emergência sanitária.

Em contrapartida, a triste experiência do “jejum” litúrgico do ano passado ressaltou a bondade do longo caminho percorrido a partir do Concílio Vaticano ii, na vereda traçada pela Constituição Sacrosanctum concilium. O tempo de privação permitiu sentir «a importância da liturgia divina para a vida dos cristãos, que nela encontram a mediação objetiva exigida pelo facto de Jesus Cristo não ser uma ideia nem um sentimento, mas uma Pessoa viva, e o seu Mistério, um acontecimento histórico. A oração dos cristãos passa por mediações concretas: a Sagrada Escritura, os Sacramentos, os ritos litúrgicos, a comunidade. Na vida cristã não prescindimos da esfera corpórea e material, porque em Jesus Cristo ela se tornou o caminho da salvação. Poderíamos dizer que devemos rezar inclusive com o corpo: o corpo entra na oração» (Papa Francisco, Audiência geral, 3 de fevereiro de 2021).

A liturgia “suspensa” durante o longo período de confinamento, e as dificuldades da sucessiva retomada, confirmaram o que já se via nas assembleias dominicais da península italiana, alarmante indício da fase avançada da mudança de época. Observemos como na vida real das pessoas mudou a própria noção do tempo e, por conseguinte, do próprio domingo, do espaço, com repercussões sobre o modo de ser e de sentir-se comunidade, povo, família, e da relação com um território. Assim, a assembleia dominical encontra-se desequilibrada, quer em termos de presenças geracionais, quer de heterogeneidades culturais, quer ainda devido à dificuldade de encontrar uma integração harmoniosa na vida paroquial, de ser verdadeiramente ápice de todas as suas atividades e fonte do dinamismo missionário, para levar o Evangelho da misericórdia às periferias geográficas e existenciais.

O Santo Padre deseja que a Semana litúrgica nacional, com as suas propostas de reflexão e os momentos de celebração, apesar da modalidade mista em presença e por meios telemáticos, possa identificar e sugerir algumas linhas de pastoral litúrgica a oferecer às paróquias, a fim de que o domingo, a assembleia eucarística, os ministérios e o rito saiam daquela marginalidade na qual parecem precipitar inexoravelmente, e recuperem a centralidade na fé e na espiritualidade dos crentes. Neste sentido, é um bom presságio a recente publicação da terceira edição do Missal romano e a vontade dos Bispos italianos de a acompanhar com uma vigorosa retomada da formação litúrgica do povo santo de Deus.

Sua Santidade saúda com alegria a celebração da 71ª Semana litúrgica nacional, que decorre num território que sofreu muito devido à pandemia e que viu florescer muitos gestos de bem para aliviar um sofrimento tão intenso. Ele assegura a sua oração e, de coração, concede a Bênção Apostólica a Vossa Excelência, ao Bispo da Diocese anfitriã, D. Antonio Napolioni, aos demais Prelados, sacerdotes, diáconos, pessoas consagradas, assim como aos relatores e a todos os participantes.

Enquanto transmito os meus bons votos pessoais, aproveito a circunstância para me confirmar com sentimentos de distinto obséquio,

Pietro Card. Parolin

Secretário de Estado