· Cidade do Vaticano ·

Mensagem para o Meeting de Rimini deste ano

O recomeço exige a coragem da responsabilidade pessoal

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24 agosto 2021

Publicamos a mensagem que o cardeal secretário de Estado enviou, em nome do Papa, ao bispo de Rimini (Itália), D. Francesco Lambiasi, por ocasião da abertura da edição de 2021 do Meeting para a amizade entre os povos, que tem lugar de 20 a 25 de agosto sobre o tema: «A coragem de dizer “eu”».

Excelência Reverendíssima!

O Santo Padre congratula-se por o Meeting para a amizade entre os povos voltar a realizar-se “em presença” e dirige-lhe, bem como aos organizadores e a todos os participantes, a sua saudação com os votos de uma realização proveitosa.

O tema escolhido — «A coragem de dizer “eu”» — tirado do Diário do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, é muito significativo no momento em que se trata de recomeçar com o pé direito, para não desperdiçar a ocasião proporcionada pela crise da pandemia. “Recomeço” é a palavra de ordem. Mas ela não se realiza automaticamente, pois todas as iniciativas humanas exigem a liberdade. Bento xvi recordava: «A liberdade pressupõe que nas decisões fundamentais cada homem [...] seja um novo início [...] A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem» (Spe salvi, 24). Neste sentido, a coragem de arriscar é, antes de mais, um gesto de liberdade.

Durante o primeiro confinamento, o Papa Francisco exortou todos ao exercício desta liberdade: «Pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar» (Homilia de Pentecostes, 31 de maio de 2020).

Embora tenha imposto o distanciamento físico, a pandemia voltou a colocar no centro a pessoa, o eu de cada um, provocando em muitos casos um despertar de interrogações fundamentais sobre o significado da existência e sobre a utilidade do viver, há muito tempo adormecidas ou, pior ainda, censuradas. Suscitou também o sentido de uma responsabilidade pessoal. Muitos testemunharam isto em várias situações. Diante da doença e da dor, perante a emergência de uma necessidade, muitas pessoas não hesitaram em dizer: «Eis-me!».

A sociedade tem necessidade vital de pessoas que sejam presenças responsáveis. Sem a pessoa não há sociedade, mas agregação casual de seres que não sabem porque estão juntos. Como única força de agregação só restaria o egoísmo do cálculo e o interesse particular, que torna indiferente a tudo e a todos. Além disso, as idolatrias do poder e do dinheiro preferem lidar com indivíduos e não com pessoas, ou seja, com um “eu” centrado nas próprias necessidades e direitos subjetivos, não num “eu” aberto aos outros, destinado a formar o “nós” da fraternidade e da amizade social.

O Santo Padre não se cansa de alertar quantos têm responsabilidades públicas, contra a tentação de usar a pessoa e de a descartar quando já não é necessária, em vez de a servir. Depois do que vivemos neste tempo, talvez seja mais evidente para todos que precisamente a pessoa é o ponto do qual tudo pode recomeçar. Certamente, há a necessidade de encontrar recursos e meios para recolocar a sociedade em movimento, mas é necessário acima de tudo alguém que tenha a coragem de dizer “eu” com responsabilidade e não com egoísmo, comunicando com a própria vida que é possível começar o dia com uma esperança fiável.

Mas a coragem nem sempre é um dom espontâneo e ninguém a pode dar a si próprio (como dizia o padre Abbondio, de Manzoni), especialmente numa época como a nossa, na qual o medo — revelador de uma profunda insegurança existencial — desempenha um papel tão determinante que bloqueia muitas energias e impulsos em vista do futuro, percebido como incerto, especialmente pelos jovens.

Neste sentido, o servo de Deus Luigi Giussani alertava para um duplo perigo: «O primeiro perigo [...] é a dúvida. Kierkegaard observa: “Aristóteles diz que a filosofia começa com a maravilha, e não como no nosso tempo, com a dúvida”. A dúvida sistemática é, por assim dizer, o símbolo do nosso tempo. [...] A segunda objeção à decisão do ego é a mesquinhez. [...] Dúvida e comodismo, eis os nossos dois inimigos, os inimigos do ego” (In cammino 1992-1998, Milão 2014, 48-49).

De onde pode vir então a coragem de dizer “eu”? Vem graças àquele fenómeno que se chama encontro: «Só no fenómeno do encontro se dá a possibilidade ao “eu” de decidir, de se tornar capaz de aceitar, de reconhecer e de acolher. A coragem de dizer “eu” nasce diante da verdade, e a verdade é uma presença» (ibid., 49). Desde o dia em que se fez carne e veio habitar entre nós, Deus ofereceu ao homem a possibilidade de sair do medo e de encontrar a energia do bem, seguindo o seu Filho, morto e ressuscitado. São iluminantes as palavras de S. Tomás de Aquino, quando afirma que «a vida do homem consiste no afeto que principalmente o sustém e no qual encontra a maior satisfação» (Summa Theologiae, ii-ii, q. 179, a. 1 co.).

A relação filial com o Pai eterno, que se faz presente em pessoas alcançadas e transformadas por Cristo, dá consistência ao eu, libertando-o do medo e abrindo-o ao mundo com atitude positiva. Gera uma vontade de bem: «Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se» (Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 9).

É esta experiência que infunde a coragem da esperança: «O encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade» (id., Encíclica Lumen fidei, 53).

Pensemos na figura de São Pedro: os Atos dos Apóstolos citam estas suas palavras, depois de ele ter sido severamente proibido de continuar a falar em nome de Jesus: «Julgai-o vós mesmos se é justo, diante de Deus, obedecermos a vós mais do que a Deus; não podemos deixar de falar daquilo que vimos e ouvimos» (4, 19-20). Onde encontra coragem «este pusilânime, que negou o Senhor? O que aconteceu no coração deste homem? O dom do Espírito Santo» (Francisco, Homilia na Missa na Casa Santa Marta, 18 de abril de 2020).

A razão profunda da coragem do cristão é Cristo. O Senhor ressuscitado é a nossa segurança, que nos faz experimentar uma paz profunda até no meio das tempestades da vida. O Santo Padre deseja que na semana do Meeting os organizadores e participantes deem testemunho vivo disto, fazendo sua a tarefa indicada no documento programático do seu pontificado: «Muitos [...] buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã [...] Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível» (Evangelii gaudium, 14).

A alegria do Evangelho infunde a audácia de percorrer novos caminhos: «É preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne [...] particularmente atraentes para os outros» (ibid., 167). Eis a contribuição que o Santo Padre espera que o Meeting dê ao reinício, na consciência de que «a segurança da fé nos põe a caminho, tornando possível o testemunho e o diálogo com todos» (Encíclica Lumen fidei, 34), sem excluir ninguém, pois o horizonte da fé em Cristo é o mundo inteiro.

Enquanto lhe confia esta mensagem, prezado Bispo, o Papa Francisco pede que se recorde dele na oração e, de coração, o abençoa assim como os responsáveis, os voluntários e os participantes no Meeting de 2021.

Também eu transmito os melhores votos para o bom êxito do evento e aproveito a circunstância para me confirmar com sentimentos de distinto obséquio,

Pietro Card. ParolinSecretário de Estado