· Cidade do Vaticano ·

A ciência acusa o homem das catástrofes ambientais

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18 agosto 2021

Cinco futuros possíveis para o mundo. Cinco planetas — chamados “Terra”, modelados de maneiras diferentes pelas mudanças climáticas. Uma escala que vai desde uma sustentabilidade aceitável da nossa presença no ecossistema até ao trágico cenário de um aumento do superaquecimento de 3,3 graus, em comparação com o grau e meio que nos podemos permitir (ver os acordos assinados em Paris).

Em qualquer futuro possível, muitos dos danos causados até agora, em termos de desestabilização do ciclo da água, ou seja, das bases vitais do mundo, são “irreversíveis”: mesmo se forem geridos por políticas e estilos de vida corretos.

Escolhei, entre os cinco planetas, aquele em que todos havemos de embarcar, clicando no mapa-múndi interativo que um grupo internacional de cientistas, encarregado pelas Nações Unidas, disponibilizou online para aqueles que deverão tomar decisões conscientes, pequenas, grandes ou médias, capazes de influenciar a realidade. Ou seja, políticos, empresários, cidadãos, todos entendidos como indivíduos responsáveis pelos próprios gestos (a propósito, o link é https://interactive-atlas.ipcc.ch/). Tende em consideração que, independentemente da opção que vos parecer mais sensata, em cada um dos cinco cenários a Terra superará de 1,5 graus o limiar de superaquecimento antes das previsões feitas no precedente relatório. Daqui a dez, quinze ou vinte anos. Portanto, o fenómeno avança mais rapidamente do que se previa. E seja como for, as catástrofes climáticas, como aquelas que podemos ver neste verão de 2021, piorarão.

O sexto relatório do International Panel on Climate Change (Ipcc), que efetivamente dá início aos trabalhos da Conferência sobre o clima Cop26 em Glasgow, daqui a menos de três meses, é muito claro em dois pontos. Responsabilidades humanas pela degradação acelerada do planeta, não obstante um negacionismo que provavelmente também se oporá a este relatório; ações cientificamente inadiáveis para diminuir a tendência e, pelo menos, para a estabilizar. E são dois, adverte, os assassinos climáticos que devem ser enjaulados.

O primeiro ponto: quando dizemos que é a atividade humana que põe em perigo global a casa comum, (já) não estamos num campo discutível e questionável. A culpa é do homem e o remédio compete ao homem. «É um dado sólido», explica aos jornalistas Valerie Masson-Delmotte, da universidade Saclay de Paris, e copresidente do grupo de trabalho dos cientistas do clima. Longe de procurar orientar a política, afirma, coloca-se à disposição, inclusive da política, a capacidade de previsão dos modelos científicos.

E os modelos indicam que as mudanças climáticas aceleraram a partir da década de 70, como nunca nos últimos dois mil anos, desencadeando uma série de eventos meteorológicos violentos (como as enchentes na Alemanha e na Bélgica, mas também na China, na Coreia do Norte, no Sudão, na Rússia e na Índia), secas (Estados Unidos da América, Iémen e Madagáscar, citando apenas alguns) e incêndios globais (toda a costa ocidental dos Estados Unidos, a Sibéria, a Turquia, a Grécia e o sul da Itália).

Negar que é a atividade humana, com o seu sistema de produção e consumo de recursos, que causa o desequilíbrio responsável pela alteração do ciclo da água, acidificando os oceanos e saturando as possibilidades de absorção de Co2, não tem um fundamento científico, afirmam os peritos. O Ipcc começa com o que chama “sólidas bases científicas” relativas ao estado das mudanças climáticas em 2021. Um dos responsáveis, diz, é a pressão das sociedades humanas. Não se explica de outra maneira a brusca e crescente aceleração dos últimos 50 anos. Vagas quentes, com capas de calor como aquela que esmaga a Sibéria e a Califórnia, devastada pelo “Dixie Fire”, verificavam-se uma vez a cada meio século, na era pré-industrial. Agora verifica-se um evento como este a cada dez anos. E os modelos indicam que em breve passaremos para dois eventos de sete em sete anos. Seguirão este ritmo também a liquefação das geleiras do Ártico, a frequência das secas e dos ciclones tropicais que devastam países já pobres. Uma vez estabelecido que a responsabilidade é da pressão exercida pela organização da sociedade humana, conclui-se que ela é também responsável pelas migrações em massa.

Se Madagáscar está nas garras da carestia e as pessoas morrem por causa disto enquanto escrevemos, e outras morrerão durante a leitura, e se um menor não acompanhado partir agora da África para arriscar a vida no Mediterrâneo ou da Colômbia para atravessar a pé, sozinho, a floresta de Darién com os seus abismos, a culpa é de um meio ambiente explorado que nega a sobrevivência. Se no Afeganistão se perde metade da colheita, é porque não houve neve na primavera por causa das mudanças climáticas. Portanto, a carestia é escrita para um país dilacerado também pela guerra. E não foi escrita pelo ciclo da natureza.

O segundo ponto frisado pelo relatório indica os dois assassinos climáticos que devem ser abatidos imediatamente. O relatório especifica que hoje todas as regiões do mundo são atingidas pelas mudanças climáticas, cada qual à sua maneira (ver o mapa-múndi interativo), mas todas poderiam beneficiar de uma diminuição imediata das emissões de gases com efeito de estufa.

E pela primeira vez o Ipcc, no seu sexto relatório, indica outro assassino ambiental que deve ser eliminado imediatamente, com o conhecido dióxido de carbono: o metano. Responsável por 30% do superaquecimento global desde a era pré-industrial até hoje, o metano deriva do processamento do petróleo, da pecuária intensiva e dos aterros sanitários (muitos dos quais, na África, recolhem os resíduos do mundo desenvolvido).

Quem apresenta o relatório não se cansa de realçar que ele é totalmente apolítico. Mas a indicação do metano, por mais estritamente técnica e baseada em evidências científicas, opor-se-á fortemente às economias baseadas nestas atividades, especialmente nas criações de gado que, por exemplo na Amazónia, continuam a avançar, substituindo-se à floresta pulmão do mundo. No entanto, a redução das emissões de metano, afirma o relatório, poderia evitar o paradoxo de um superaquecimento de meio grau, devido à diminuição da poluição atmosférica e do seu aerossol insalubre. Efeitos paradoxais que demonstram que o equilíbrio climático é um jogo deveras delicado, para o qual todos devem contribuir, se não quisermos falhar. Portanto, criações de gado como cadeias de montagem, aterros sanitários e minas de carvão são os convidados desconfortáveis da próxima Cop26, o Fórum internacional onde os países-membros são chamados a definir objetivos comuns mais ambiciosos. A indicação é influente e fruto de anos de trabalho científico coletivo.

Mas ao apresentá-la, Inger Andersen, diretora executiva do programa ambiental das Nações Unidas, fez uma declaração dura: «Há trinta anos que esta mensagem é dada ao mundo, há trinta anos. Mas nunca foi ouvida!». No entanto, é uma espécie de “última chamada”. Segundo o secretário-geral da Onu, António Guterres, um «código vermelho para a humanidade». «Os sinais de alarme, disse, são ensurdecedores e as provas são irrefutáveis: as emissões de gases com efeito de estufa provenientes de combustíveis fósseis e a desflorestação colocam milhares de milhões de pessoas em risco imediato». Contudo, também a comunidade internacional dá os seus sinais de alarme. O primeiro-ministro australiano Scott Morrison disse que, na ausência de um plano, não assinará «um cheque em branco» em nome dos australianos. Tudo foi adiado para a Cop26, em Glasgow.

Chiara Graziani