· Cidade do Vaticano ·

A Seleção de refugiados restitui ao desporto a essência de humanidade e fraternidade

Quando o mar de Lesbos é a piscina olímpica

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
10 agosto 2021

Nenhuma conversa fiada, foram eles que ganharam as Olimpíadas. Sem medalhas de ouro e sem recordes mundiais. Sem hinos nem bandeiras. Mas sim, os vencedores das Olimpíadas foram os 29 atletas da Seleção de refugiados criada — como já no Rio de Janeiro em 2016, onde eram 10 — pelo Comité olímpico internacional e pela Agência das Nações Unidas para os refugiados.

Originários de 11 Estados — principalmente da Síria e depois do Irão, Afeganistão, Sudão do Sul, Eritreia, Iraque, Camarões, Sudão, Congo, República Democrática do Congo e Venezuela — foram acolhidos em 13 Estados, e em Tóquio competiram em 12 disciplinas desportivas.

Cada uma das suas histórias grita perante o mundo — não apenas desportivo — que de Coubertin tinha razão: o importante é participar, pois a vitória não consiste em superar todos os outros. «Não, a vitória não consiste apenas em chegar primeiro a uma meta, pois para todos nós a vitória consiste em ser um sinal de esperança e resgate para mais de 80 milhões de pessoas que vivem o nosso próprio drama: migrantes, refugiados, mulheres e homens de todas as idades que lutam para obter, além da dignidade, também os direitos».

Quem fala — com paz de espírito pelas pressões da “vitória a todo o custo” que colocam as estrelas em crise, no meio das redes sociais, do dinheiro, dos patrocinadores e das visões do desporto, talvez um pouco distorcidas — é a nadadora síria Yusra Mardini. Uma jovem que “treinou” para as Olimpíadas empurrando em mar aberto o bote em que, com a irmã Sarah, chegou a Lesbos. Jovem promessa da natação — devido à paixão do pai treinador (e fã de Michael Phelps) — a guerra na Síria privou Yusra de tudo. Inclusive da casa. E assim partiu, com uma bagagem só de esperança, em busca de uma vida melhor como “medalha”.

Um mês de viagem a pé, de Damasco até Beirute, e depois até Izmir na Turquia, «onde, diz, os traficantes de seres humanos, após uma primeira tentativa falhada por causa da intervenção policial, nos colocaram num frágil bote com outras 18 pessoas, incluindo uma criança. Mas o motor deixou de funcionar e a situação era desesperada». Com outras duas pessoas, Yusra e Sarah saltaram à água e empurraram o bote por três horas e meia para a costa de Lesbos. Entre outras mil peripécias e sete países, Yusna chegou a Hamburgo, encontrando um resgate na natação, um “lugar da alma”, inclusive como “embaixadora” das Nações Unidas.

Claramente, na linha de partida de uma competição de natação Yusra não sente a pressão do resultado e não vê a vizinha de pista como “inimiga”. Sem dúvida, confessa, «quando naufraguei em Lesbos, não pensava em nadar na piscina olímpica, mas eu era simplesmente uma jovem que descobria que quando alguém está em condições desesperadas faz o impossível para sobreviver e para ajudar os outros a sobreviver». E ainda hoje, enquanto treina, Yusra repete a si própria: «Não, não julgava que teria força para empurrar aquele bote, mas foi ali que aprendi uma lição: se realmente o quisesse, poderia fazer qualquer coisa na minha vida».

Em Tóquio Yusra ficou em terceiro lugar na sua bateria de 100 metros borboleta e não se classificou para as semifinais. Naturalmente, não houve drama por causa da eliminação: os dramas são muito diferentes! «Não nadei no espaço de tempo que esperava, mas a minha viagem na vida ainda não terminou, por isso estou ansiosa que chegue a próxima etapa», disse, continuando a “nadar” — livre — numa “piscina” cheia de esperança.

Entretanto, continua a aplaudir os outros 28 atletas da seleção de refugiados e daqueles que não estão em Tóquio, mas que já visam Paris 2024 e talvez estejam a treinar em campos de refugiados. No estilo da bola de trapos, querida ao Papa Francisco.

«Somos muito diferentes uns dos outros, explica Yusra, mas estamos aqui “para” e “com” todas as pessoas que deixaram a própria casa por causa de guerras e da pobreza. E, através do desporto, continuaremos a dar voz àqueles que de alguma forma procuram atravessar as fronteiras em busca de paz, a quantos morrem no mar, àqueles que não encontram acolhimento».

A Athletica Vaticana, associação desportiva da Santa Sé, está particularmente próxima da Seleção de refugiados e, com o pontifício Conselho para a cultura, trabalha com a queniana Tegla Loroupe, uma das maratonistas mais fortes de todos os tempos, que se ocupa do treino dos atletas, inclusive em campos de refugiados. Para que todos possamos ser verdadeiramente irmãos, até no desporto.

Giampaolo Mattei