· Cidade do Vaticano ·

O filme de Luca Ammendola sobre os meninos de rua ganhou o «Best Film Unicef» de 2021

Ser pai de filhos não amados

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
20 julho 2021

«Enfrentamos um momento muito difícil no Brasil. Há uma crise que diz respeito a valores essenciais. Estamos perdendo a capacidade de amar». A voz calorosa e acolhedora do padre Renato Chiera, sacerdote piemontês que trabalha com crianças de rua no Brasil há quarenta anos, guia e acompanha as imagens do filme Dear Child, do cineasta italiano Luca Ammendola. Um filme intenso, duro, profundo e ao mesmo tempo impregnado de esperança, que narra a vida deste missionário e das suas crianças, os seus meninos de rua, aos quais dedicou e continua a dedicar toda a vida, sem poupar energia, nem sequer agora que se aproxima dos oitenta anos.

O filme recebeu inúmeros reconhecimentos na Itália e a nível internacional. O mais significativo de todos é o «Best Film Unicef» de 2021, atribuído durante o Ferrara Film Festival em junho passado. «Para a Unicef — lê-se na motivação — uma criança é uma criança, não faz diferença onde nasce ou cresce, porque tem os mesmos inquestionáveis direitos e merece as justas oportunidades». A história, prosseguiu a motivação o Fundo das Nações Unidas para a Infância, «mostra-nos o trabalho de cuidado, amor e dedicação que o padre Renato Chiera realiza para recuperar um grupo de crianças salvas da droga, da violência e do abandono».

O filme, ambientado na Casa do Menor, fundada pelo padre Chiera na Baixada Fluminense — uma grande, difícil e violenta periferia do Rio de Janeiro — vê escorrer e entrelaçar-se histórias de jovens que, já na adolescência, sofreram todo o tipo de violência e se aproximaram várias vezes da morte. Tales, 16 anos, já foi traficante de droga; Josué, um ano mais velho, tornou-se viciado em droga; Vagner, de apenas 14 anos, tinha a cabeça a prêmio, “condenado” pelos esquadrões da morte que “limpam” as periferias da metrópole brasileira, eliminando estes jovens perigosos que ninguém quer.

«A maior tragédia — diz o padre Renato Chiera — não é ser pobre, é não ser filho, não se sentir amado. Por esta razão, a nossa proposta pedagógica e psicológica cuida com a “presença” de alguém que as faça sentir-se filhos. É por isso que procuro ser pai destas crianças que não são amadas por ninguém, e fazê-las sentir-se filhos do Pai de todos nós».

«Dear Child — explicou o missionário — traz consigo uma mensagem muito profunda e atual, que tem valor não apenas para a condição amarga das favelas brasileiras. É a imersão em um mundo de marginalização e abandono, desconhecido para muitos. Pode despertar as consciências e levar as pessoas à ação». A esperança do padre Renato é que o filme faça com que as pessoas «reflitam sobre a dura realidade de um mundo órfão de pais. E de pais que não assumem os filhos». Segundo o fundador da Casa do Menor, é necessário ter a coragem de «ver as consequências desta ausência nos filhos. No Brasil, como no resto do mundo — advertiu — devemos ouvir o grito das crianças. O que nos querem comunicar? O que nos dizem com o seu mal-estar? E devemos recordar o que dom João Bosco costumava dizer: “Não é suficiente amar um filho, devemos sentir se ele se sente amado”».

Portanto, o filme é uma oportunidade para refletir sobre a realidade dos jovens em todos os contextos, e não apenas sobre o extremo e dramático dos meninos de rua. O padre Chiera está convicto de que «o amor vence a violência» e, apesar da dor diária que testemunha na periferia do Rio, não perde a esperança. «Nós — afirmou — temos esperança porque acreditamos no Ressuscitado, estamos nas mãos de Deus». Eis o convite do missionário a mostrar este filme aos jovens, às famílias, aos sacerdotes e catequistas, naturalmente nas escolas. E depois o sonho de que o Papa Francisco, tão atento e próximo do sofrimento das crianças, possa vê-lo. O missionário também tem palavras de gratidão para com o cineasta, Luca Ammendola, «uma pessoa de profunda sensibilidade humana e com a capacidade de captar com delicadeza detalhes inobservados».

Por sua vez, Ammendola afirmou que com Dear Child quer ajudar a obra do padre Chiera. E confidenciou que viveu uma forte experiência na realização deste filme. «A vida é simples, disse-me o padre Renato na primeira vez que nos encontramos — recordou o cineasta — fomos nós que decidimos complicá-la, mas é simples. Tudo o que temos de fazer é amar. O que é difícil é aprender a amar». Talvez precisamente este possa ser o fruto mais fecundo deste filme, que em cada um dos seus 76 minutos nos oferece uma experiência, dramática e maravilhosa como a vida, para aprender, ou reaprender, a amar.

Alessandro Gisotti