· Cidade do Vaticano ·

L’Osservatore Romano — 1 de julho de 1861-2021

160 anos de história olhando para o futuro

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07 julho 2021

Numa entrevista inédita, o Papa fala do seu jornal...“do partido”


«Um jornal “de rua”», ou seja, «um jornal que sabe sair, ir pelas ruas, ver a história, tocar a história e refletir sobre a história. A de hoje e de ontem». Assim o Papa Francisco vê «L’Osservatore Romano», o seu jornal, «o jornal do partido», como ele gosta de o definir. Disse-o numa entrevista concedida ao cineasta Francesco Zippel, que está a realizar um documentário produzido pela Dazzle Communication, dedicado aos 160 anos do jornal da Santa Sé. Publicamos a seguir as palavras do Papa Francisco.

Sei que a expressão é um pouco ambígua, mas gosto de chamar L’Osservatore Romano “o jornal do partido”. Leio-o todos os dias e, quando não sai ao domingo, falta-me alguma coisa. Não só agora. Também na Argentina lia inteiramente a edição semanal em língua espanhola pois sei que se trata de um vínculo com a Santa Sé, com o magistério e com a vida da Igreja, com a história da Igreja.

O perigo é o laboratório. Um jornal, para ser atual, não pode ser um jornal de laboratório, apenas de pensamento. Deve ser um jornal “de rua”, por assim dizer, mas no sentido figurativo: um jornal que sabe sair, ir pelas ruas, para ver a história, tocar a história e refletir sobre a história. A de hoje e de ontem. Por exemplo, o tema dedicado ao Dia da Memória foi uma catequese, uma verdadeira catequese para os jovens de hoje: que eles vejam o que aconteceu naquela época e o que pode acontecer hoje. Portanto, é um jornal vivo, que nos ajuda; por esta razão não pode ser de laboratório nem de escrivaninha. Deve ser de rua, para enfrentar a vida e a vida enfrenta-se como é, não como eu gostaria que fosse.

Paulo vi dizia que L’Osservatore Romano não é simplesmente um jornal diário de informação, mas um jornal diário de formação, e é verdade. Voltemos à edição que saiu no Dia da Memória: as pessoas que leram aquela reportagem sobre a memória receberam uma formação porque lhes oferecemos elementos de recordação, de memória, históricos, a fim de olharem para o mundo com aquela chave. Portanto, sim, um jornal de formação. Também foi bom para mim ler aquela edição, havia coisas que não compreendia muito sobre o assunto e agora compreendo. Um jornal que forma.

Um jornal que, além da função de evangelização, tem também uma dimensão diplomática muito importante. Sobretudo em relação à difusão do magistério do Papa. Estou a pensar em Pio xii que falou de todos os temas possíveis, o seu magistério foi muito rico. Discursou e fez doutrina através de L’Osservatore Romano. Penso em Pio xii porque considero que foi um revolucionário nisto: o seu magistério espalhou-se pela Igreja através de L’Osservatore Romano. Um Papa que se encontrava com todos e todos o vinham visitar e ele falava com artistas, intelectuais, obstétricas... e difundia-se com L’Osservatore e com a Rádio Vaticano, mas era mais fácil encontrar este magistério com o jornal que é um instrumento que permanece.

Na Argentina havia uma edição semanal em língua espanhola, sintética. Lia tudo, do princípio ao fim. Pois eu precisava de compreender. Agora, infelizmente, já não sai em papel. Temos de trabalhar para que L’Osservatore Romano chegue a todos, na língua de todos. Por isso desejo agradecer às pessoas que nos ajudam financeiramente por este dom, aos benfeitores e às empresas que nos ajudam.

Leio-o do princípio ao fim, seguindo a ordem. A não ser que eu tenha algum interesse especial. Primeiro procuro, mas normalmente leio da primeira à última página e quando termina digo “que pena, acabou”. Leio-o à noite.

Como será L’Osservatore Romano daqui a duzentos anos? Ainda não pensei nisso, não me questionei sobre isso. Espero que seja sempre atual.