· Cidade do Vaticano ·

Cinquentenário da Carta apostólica «Octogesima adveniens»

Os novos proletários e o dever do Papa de ser “advogado dos pobres”

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02 junho 2021

Palavras proféticas sobre aqueles que hoje o seu sucessor Francisco define “os descartados”. Uma análise realista dos grandes desequilíbrios e das consequências do êxodo para os grandes aglomerados urbanos. Uma crítica à ideologia marxista e ao seu materialismo ateu, mas também uma crítica à ideologia liberal, que teria prevalecido menos de vinte anos depois, abrindo definitivamente o caminho para o turbo capitalismo. Corria o ano de 1971, e a 14 de maio Paulo vi celebrava o octogésimo aniversário da Rerum novarum de Leão xiii , com uma Carta apostólica dirigida ao cardeal Maurice Roy, arcebispo de Québec e presidente do pontifício Conselho “Justiça e Paz”. O documento montiniano, que trata da pobreza, do desenvolvimento e do compromisso político, deve ser lido no sulco da Populorum progressio (1967), mas também à luz das mudanças ocorridas naqueles últimos anos.

O Papa fala das «diferenças evidentes» que «subsistem no desenvolvimento económico, cultural e político das nações», recordando os povos em luta contra a fome. Afirma que as modalidades de ação, de compromisso e de intervenção concreta devem ser deixadas ao julgamento de cada uma das realidades locais, pois «compete às comunidades cristãs analisar objetivamente a situação do próprio país, esclarecê-la à luz das palavras imutáveis do Evangelho, haurir do ensinamento social da Igreja princípios de reflexão, critérios de julgamento e diretrizes de ação».

Depois, chama a atenção para um fenómeno de grande importância que carateriza tanto os países industrializados como os países em vias de desenvolvimento: o urbanismo e o êxodo das áreas rurais para as metrópoles. «Com efeito, neste crescimento desordenado nascem novos proletariados [...] Em vez de fomentar o encontro fraterno e a ajuda mútua, a cidade desenvolve as discriminações e inclusive a indiferença; fomenta novas formas de exploração e de domínio nas quais alguns, especulando sobre as necessidades dos outros, obtêm lucros inadmissíveis. Por detrás das fachadas escondem-se muitas misérias, desconhecidas até para os mais próximos».

Paulo vi, que quando era arcebispo tinha constatado os problemas das novas periferias milanesas nos anos da expansão económica, e que também como Papa continuou a acompanhar com atenção e ajuda concreta o desenvolvimento dos subúrbios romanos, por exemplo financiando a construção de 99 apartamentos na área de Acilia para os deserdados da Urbe, escreveu: «É urgente reconstruir, à medida da rua, do bairro ou do grande aglomerado, o tecido social onde o homem possa satisfazer as exigências da própria personalidade. Centros de interesse e de cultura devem ser criados ou desenvolvidos a nível de comunidades e de paróquias».

Um trecho da Carta é dedicado às mulheres. Paulo vi, que no ano precedente tinha proclamado duas mulheres doutoras da Igreja — Teresa de Ávila e Catarina de Sena — pede que se ponha fim às discriminações, e que as legislações progridam «no sentido da tutela da vocação própria da mulher e, ao mesmo tempo, do reconhecimento da sua independência como pessoa, da igualdade dos seus direitos em vista da participação na vida cultural, económica, social e política».

Mencionando o crescimento demográfico nos países pobres, o Papa Montini define «inquietador» aquele «tipo de fatalismo, que se apodera até dos responsáveis» e «às vezes leva a soluções malthusianas, exaltadas por uma propaganda ativa a favor da contracepção e do aborto». O Pontífice fala também sobre o meio ambiente, admoestando que «através de uma exploração imprudente da natureza», o homem «corre o risco de a destruir e de ser, por sua vez, vítima de tal degradação».

Citando o compromisso social e político, Paulo vi convida o cristão a não aderir «a sistemas ideológicos que se opõem, radicalmente ou em pontos substanciais, à sua fé e ao seu conceito do homem: nem à ideologia marxista, ao seu materialismo ateu, à sua dialética de violência e ao modo como ela reabsorve a liberdade individual na coletividade, negando ao mesmo tempo toda a transcendência ao homem e à sua história pessoal e comunitária; nem à ideologia liberal que julga exaltar a liberdade individual, privando-a de todos os limites, estimulando-a com a busca exclusiva do interesse e do poder».

Concluindo, naquela que é talvez a passagem mais recordada do documento, o Papa manifesta-se a favor da pluralidade de opções políticas para o cristão, sem atenuar a sua adesão aos princípios evangélicos: «Nas situações concretas, e tendo em consideração a solidariedade vivida por cada um, é preciso reconhecer uma variedade legítima de opções possíveis. Uma única fé cristã pode levar a diferentes compromissos».

Dois dias depois da publicação da Octogesima adveniens, domingo 16 de maio, Paulo vi presidiu em São Pedro a uma Missa para celebrar o aniversário da encíclica de Leão xiii, definindo as palavras do predecessor «libertadoras e proféticas». A homilia representou a ocasião para explicar as razões do magistério social da Igreja: «Por que falou o Papa? Tinha o direito de o fazer? Tinha a competência? Sim, respondemos, pois tinha o dever de o fazer. Aqui tratar-se-ia de justificar esta intervenção da Igreja e do Papa nas questões sociais, que são pela sua natureza assuntos temporais, questões desta terra, que parecem estar fora da competência de quem encontra a sua razão de ser em Cristo, que declarou que o seu reino não é deste mundo».

Mas, «se olharmos com atenção — acrescentou Paulo vi — para o Papa não se tratava do reino deste mundo, digamos simplesmente da política ou da economia; tratava-se dos homens que compõem este reino, tratava-se dos critérios de sabedoria e de justiça que no entanto o devem inspirar; e sob este aspeto a voz do Papa, que se fazia advogado dos pobres, obrigados a permanecer pobres no processo gerador da nova riqueza, advogado dos humildes e dos explorados, nada mais era do que o eco da voz de Cristo, que se fez fulcro de todos os atribulados e oprimidos, para os consolar e redimir; e que quis proclamar bem-aventurados os pobres e os famintos de justiça, e que quis também personificar-se em cada ser humano, pequeno, fraco, sofredor, infeliz, assumindo sobre si a dívida de uma recompensa incomensurável para quem quer que tivesse coração e remédio para todos os tipos de miséria humana».

Disto deriva, acrescentou o Bispo de Roma, «um direito-dever do Papa, que representa Cristo, e de toda a Igreja, que é também o Corpo místico de Cristo, aliás de cada cristão autêntico, declarado irmão de todos os outros homens, de se ocupar, de se prodigalizar pelo bem do próximo; direito-dever tanto mais forte e urgente quanto mais grave e deplorável for a condição do próximo em necessidade».

«E significa ainda — concluiu Paulo vi — que a Igreja, nos seus ministros e nos seus membros, é por vocação natural a aliada da humanidade indigente e paciente; pois é a sua missão a salvação de todos, e porque todos têm necessidade de ser salvos; mas a sua preferência é pelos necessitados de ajuda e de defesa, inclusive no campo temporal. A necessidade humana é o principal título do seu amor».

Andrea Tornielli