· Cidade do Vaticano ·

Iniciativa da agricultura familiar no Brasil

Ciranda uma canção
para a terra

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26 maio 2021

A Ciranda faz parte do patrimônio cultural da maior parte das crianças do Brasil. Trata-se de uma canção, com uma dança em círculo, que recorda as esposas dos pescadores do nordeste do país que cantavam enquanto esperavam que os maridos regressassem do mar. Uma dança comunitária, sempre à espera “do outro”, precisamente como um projeto desenvolvido na cidade de Açailândia, no Estado do Maranhão, no meio da Amazônia brasileira.

Um jogo levado a sério desde 2018. Ciranda, acrônimo de Centro de inovação rural e de desenvolvimento agroecológico, decidiu apostar na agroecologia como alternativa econômica à cadeia mineira e ao agronegócio da região, que se situa bem no meio da Estrada de Ferro Carajás (Efc), que liga a maior mina de ferro do mundo ao ar livre, em Carajás, no sudeste do Pará, com o Porto de Ponta da Madeira, em São Luís, no Maranhão.

Assim, a ecologia integral sobressai como uma possibilidade real, a fim de que as famílias não dependam somente da extração, mas sejam capazes de salvar a economia local, gerando rendimentos em casa, com menor impacto sobre o meio ambiente. O coordenador de Ciranda, Xoán Carlos Sanches Couto, missionário leigo comboniano, explica a relação com a casa comum, que pode ser adaptada à realidade de cada um: «Ciranda promove tecnologias apropriadas para os agricultores familiares e os camponeses. Aqui testamos e aplicamos tecnologias e formas de produção que bem se adaptam às dimensões das propriedades dos agricultores familiares, aos seus conhecimentos, à mão de obra que encontram nas suas famílias e ao meio ambiente que temos nesta região».

Agroecologia inspirada na «Laudato si’»


Xoán é um agrônomo espanhol, vive no Brasil há 20 anos e trabalha com as famílias na região amazônica do Maranhão. No início, criou a Casa Família Rural, um tipo de escola agrícola comunitária para melhorar a vida e a educação da juventude rural. Hoje, além de Ciranda, dirige dois projetos que contribuem para a formação teórica e técnica de 70 famílias da região.

Nos cursos oferecidos, os filhos dos camponeses aprendem a familiarizar com os modos de produzir culturas agroecológicas, com a possibilidade de as aplicar nas suas propriedades. Trata-se de tecnologias adequadas à agricultura familiar que, uma vez aprendidas na escola, são transmitidas às famílias e às comunidades, num fluxo permanente de incentivos para não abandonar o ambiente rural. Este é um dos bons exemplos vindos do Brasil, uma ação que não resolve os problemas globais, mas confirma «que o ser humano ainda é capaz de intervir positivamente» para melhorar o meio ambiente (Papa Francisco, Laudato si’, 58).

Na Semana Laudato si’ — quando se está prestes a celebrar o sexto aniversário da encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum — esta ideia de trabalhar com a agroecologia, afirma Xoán, parece ainda mais inspirada pelo documento pontifício, «um cruzamento de ciência e fé, que procurou o melhor que a ciência produziu para explicar a crise ambiental, para dar uma resposta com a fé, mas também com um fundamento científico. Deste modo, também o Centro Ciranda percorre o mesmo caminho. Recorremos ao conhecimento científico, dispomos de parcerias com institutos de investigação e universidades, mas, ao mesmo tempo, a nossa resposta baseia-se nas necessidades das comunidades, valorizando inclusive o conhecimento tradicional».

Xoán oferece exemplos das técnicas ensinadas, desde a bioconstrução, forma tradicional de edificação amplamente praticada na região com argila e telhas feitas de material reciclado, até a produção de biogás e a recolha de água pluvial em reservatórios. Mas trabalha-se também com a avicultura, a piscicultura e a apicultura; criam-se porcos ao ar livre e encorajam-se sistemas agroflorestais mediante a plantação de árvores de madeira e de fruta, e inclusive de culturas anuais que constituem a base alimentar dos residentes, «tais como o milho, o feijão e a mandioca. Tudo isto é plantado em conjunto, numa forma chamada policultura, onde não existe monocultura e uma espécie ajuda a outra, de maneira a dispor de um meio ambiente equilibrado: é muito difícil que um parasita ou algum inseto ataque e cause prejuízos econômicos. Portanto, é um modo de se inspirar na natureza, que tem também a sua base científica».

Os desafios de Ciranda: dos incêndios ao agronegócio


Não obstante os bons resultados, existem desafios: é o caso dos incêndios que se propagam de outras propriedades vizinhas. Xoán afirma que geralmente conseguem salvar as culturas permanentes, mas as outras áreas, com as suas experiências de pastagem ecológica e reservas florestais, são seriamente danificadas pelo fogo, como aconteceu nos últimos dois anos: «Trata-se de um desafio que nos leva a pensar no modo como, nos próximos anos, para resolver este problema, podem ser construídas barreiras florestais menos suscetíveis ao fogo. Contudo, mesmo assim os resultados já são promissores: vemos nas famílias um entusiasmo e a vontade de continuar a lavrar a terra, conscientes de que esta é uma missão para fornecer alimento à humanidade e que isto pode ser feito, preservando a nossa casa comum, sem degradar o meio ambiente».

A aliança com a natureza já está muito presente na vida da maior parte dos camponeses. No entanto, nem todos têm esta consciência, pois o agronegócio está muito presente a nível local, «transformando economias, paisagens e mentes». Como o Papa confirma na Laudato si’ (n. 54), «muito facilmente o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum» e «qualquer tentativa das organizações sociais de mudar a situação será vista como uma perturbação causada por sonhadores românticos». Xoán está plenamente consciente de que Ciranda é uma experiência que «contradiz profundamente as bases do mercado capitalista, onde quem tem mais e quem ganha mais dinheiro vale mais». Por isso muitas vezes, explica, «as famílias tendem a ser ridicularizadas e minimizadas, a dizer que isto não funciona, que isto não pode alimentar a humanidade, quando já dispomos de várias sondagens que afirmam, por exemplo, que um hectare de agroflorestal — que é o método com que trabalhamos, o sistema agroflorestal — é mais produtivo do que um hectare de monocultura de soja. Isto em termos monetários, mas também em termos ecológicos. Assim, desmantelar esta “racionalidade monetarista” constitui um dos desafios que temos e que enfrentaremos nos próximos anos».

Andressa Collet