· Cidade do Vaticano ·

Há quarenta anos o atentado a João Paulo II

Entre os últimos, atrás
do jipe branco

cq5dam.thumbnail.cropped.500.281.jpeg
18 maio 2021

Levou tempo, anos, até conseguir escrever corretamente aquela data. Uma vez os dedos no teclado invertiam a data, outra vez trocavam uma letra ao compor o nome do mês. Naquele dia, há quarenta anos, eu estava na Praça de São Pedro e sentia-me feliz por lá estar até acontecer algo que nunca teria pensado que pudesse acontecer.

Tinha pouco mais de vinte anos. Um repórter no início da experiência com a tarefa de relatar a audiência geral do Papa. O mesmo que o nosso jornal continuou a fazer e recomeçará a fazer assim que — esperamos em breve — a situação sanitária permita a presença dos fiéis.

Como tantas outras quartas-feiras cheguei à Praça de São Pedro com bastante antecedência para recolher calmamente histórias dos peregrinos e dos fiéis. Como sempre, o clima era de festa: canções, orações, um contínuo burburinho em todas as línguas. Havia também um pequeno grupo de crianças de uma paróquia romana com balões coloridos.

Por volta das 17h00, dos sectores mais próximos do Arco dos Sinos começou um aplauso, que se espalhou rapidamente por toda a praça. O Papa tinha chegado e em pé no jipe branco, saudava o povo ao longo das barreiras: duas voltas para que ninguém ficasse sem a sua saudação e bênção. Fui um dos últimos a seguir o cortejo: ensinaram-me a ser discreto, a não perturbar com a minha presença aquela troca de afeto que muitos guardariam entre as mais belas recordações da sua vida. Até o sol estava a sorrir na Praça de São Pedro. Depois, os tiros, os gritos, o jipe que parte a toda a velocidade. Mas já não se vê o Papa em pé a saudar.

Estávamos do lado da praça que dá para a porta de bronze, pouco distante do sector onde antes vi as crianças com os balões. Voltei-me pensando instintivamente que um deles tinham explodido. Por detrás da barreira as pessoas gritavam, olhando para trás. Também eu começo a correr na direção tomada pelo jipe. Naquela altura, já era claro o que tinha acontecido.

Sob o braço de Carlos Magno, no posto da Ordem de Malta que durante as audiências prestava assistência médica, encontro um telefone e procuro entrar em contacto com a redação. Nos rostos das pessoas que passam ao meu lado vejo medo, incredulidade. Talvez também eles vejam a mesma expressão no meu, a de se sentir subitamente órfãos.

Será uma longa noite. Na Policlínica Gemelli, onde o Papa foi hospitalizado, os médicos estão a tentar o impossível. Na Praça de São Pedro as pessoas ainda lá estão, a rezar e a esperar.

Na redação está a ser preparada a edição extraordinária que sairá às sete da manhã com as primeiras notícias reconfortantes do hospital. Dez anos mais tarde, João Paulo ii foi em peregrinação a Fátima, para renovar o seu agradecimento a Maria. O jornal enviou-me como correspondente. Também aquele dia era 13 de maio e eu sentia-me feliz por lá estar.

Piero Di Domenicantonio